domingo, 9 de abril de 2017

Estante de leitura - Kyoto

«Chieko descobriu as violetas que floresciam no velho tronco do carvalho.

“Floriram também este ano.” Com estas palavras foi ao encontro da doce Primavera.
Em relação ao pequeno jardim da cidade, aquele carvalho era bastante grande, mais robusto ainda que as ancas de Chieko. A sua casca, velha, rugosa, salpicada de musgo, não se podia porém comparar ao corpo jovem e fresco dela.

Arqueada para a direita até a nível das ancas de Chieko, a árvore começava a dobrar-se precisamente à altura da cabeça da rapariga: era a partir daqui que nasciam os densos ramos, que iam abranger quase todo o jardim. Os mais compridos pendiam um pouco. Logo abaixo do ponto em que se curvava amplamente sobre a direita entreviam-se duas pequenas cavidades: destas despontavam, distantes uma da outra, duas violetas. As duas plantas floriam todas as Primaveras. Chieko recordava-se de as ter visto sempre ali, naquela árvore.
Entre a violeta de cima e a de baixo havia uma distância de trinta centímetros. Agora, em plena florescência, Chieko olhava-as. A de cima encontrar-se-ia alguma vez com a de baixo? Conhecer-se-iam? Mas, por outro lado, que queria dizer encontrar-se ou conhecer-se para as violetas?

Todas as Primaveras nasciam três, cinco flores, não mais. Mas, de qualquer modo, na árvore, naquelas pequenas concavidades, todas as Primaveras brotavam os botões e depois as flores. Chieko contemplava-as, umas vezes da varanda, outras quando se encontrava junto da árvore; sentia-se impressionada pela vida das pequenas plantas; de vez em quando era invadida pela solidão em que elas cresciam.
“Nascer num sítio daqueles e continuar sempre ali a viver…” Os clientes que se demoravam na loja exprimiam a sua admiração pelo carvalho, contudo quase nenhum deles dava pelas violetas. Velho, nodoso, coberto até cima de musgo, e por isso tanto mais digno e atraente, o carvalho, comparando-as com ele, as violetas que hospedava eram a imagem da humildade. (…)
Vestindo um quimono vistoso, Chieko saiu de casa.

O Santuário de Heian-Jingu, famoso pelo Jidai Matsuri, foi construído somente em 1895, para honrar o imperador Kanmu, que elevara Kyoto a capital. Não é, pois, muito antigo.
Até 1939 venerou-se também aqui o imperador Komei, o último a reinar antes de a capital ser transferida para Tóquio. Actualmente, muitos casais cão consorciar-se naquele templo.
A característica mais bela do jardim sagrado é uma particular variedade de cerejeiras rubras, com os ramos pendentes. Não existe outra flor que melhor possa simbolizar a Primavera de Kyoto. Assim que entrou no parque, Chieko sentiu até ao fundo do seu coração o esplendor de tanta florescência. Contemplou longamente as cerejeiras e agradeceu-lhes por ter descoberto através delas, mais uma vez, a Primavera de Kyoto.

No termo do caminho, um pouco mais abaixo da sala de chá, havia o pequeno lago. Perto das margens despontavam as folhas verdes dos lírios; mais ao largo flutuavam os nenúfares. Ali não havia cerejeiras. Rodearam o lago e meteram por uma vereda cheia de sombras. Sentia-se o perfume das folhinhas novas e da terra húmida. O caminho não era extenso. De súbito apareceu um outro lago muito maior que o anterior. A cor avermelhada das cerejeiras da margem reflectia-se na água, deslumbrando. Grupos de turistas estrangeiros fotografavam.
Mas entre as árvores do lado de cá da margem, tudo estava florido de modestos e brancos ashibi. Chieko, lembrou-se da cidade da Nara. Havia ali pinheiros, não muito altos mas graciosos. Se não fossem as cerejeiras, aqueles atrairiam mais os olhares. Contudo, não havia dúvida de que a sua cor verde-escura, juntamente com o verde do lago, fazia ressaltar as flores de cerejeira. Shinichi atravessou o lago saltando de uma pedra para outra, o que constituía o chamado sawatari. Eram pedras redondas, semelhantes a secções de colunas dos gigantescos portais dos parques sagrados.»

Yasunari Kawabata. (2012). Kyoto. Lisboa. Edições D. Quixote.

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