"Nós todos, portugueses e europeus do Centro da Europa, somos, ao mesmo tempo, os descendentes de um mesmo problema, e os herdeiros de um modo radicalmente diferente de o resolver.
Esse problema, suscitado pelo renascimento, a Reforma e as Descobertas, é de uma grande simplicidade de definir.
Será ou não possível vivermos na proximidade uns dos outros, constituir uma sociedade em que nenhuma pessoa, contra o respeito que deve a si mesma, seja reduzida à impotência, nem à cega opressão de alguém sobre ninguém?
Quinhentos anos passados (nada, ou pouco segundo o tempo) e a resposta concreta permanece um enigma. Uns e outros tentámos caminhos diferentes para a encontrar, e tanto nós, como vós, regressámos de passos vazios. Estamos, pois, todos no mesmo ponto obscuro, ricos de experiência mas sem nada sabermos de definitivo.
Eis, em poucas palavras, a fonte de energia dos meus textos. Por que razão me será impossível deixar de escrever, e por que razão eu vim.
E há ainda outro estímulo.
Sempre achei algo de muito estranho o facto de eu escrever em português, mas foi nessa língua que eu nasci, e só nas palavras dessa língua irrompem os meus textos. É estranho porque, no interior dessa língua, não havia uma cultura para os receber.
Certamente havia, e há ainda, um passado por acabar, soterrado, que os chamava para que um ciclo, por fim, atinja o seu termo.
Faço votos para que a minha língua alcance o alto mar, o largo. Ela fala de um povo que é singularmente outro, sem ainda saber em quê, e por quê.
Faço votos ardentes para que esse sentimento profundo, me por exprimir, se possa manifestar finalmente.
Por este motivo me pareceu que eu renegaria tudo isso – esse povo, essa história, essa área geográfica, esse sentimento, essa língua – se não tivesse aceite estar aqui presente.
É também por este motivo que posso agora voltar a entrar no meu silêncio. Silêncio para que nasci."
Paris, Sorbonne, 24 de Outubro de 1988, Les Belles Etrangères.

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