"Do seu deus mais importante, que me parece pai de todos os deuses do céu e da terra, ouvi relatos muito diversos e não pude ver o seu templo nem aproximar-me da sua ilha; não porque os estrangeiros não sejam ali tolerados, mas porque mesmo os cidadãos desta república só podem alcançá-la depois de haverem atingido um estado de espírito que raramente se alcança, e depois não voltam mais. Na sua ilha ergue-se um templo que os habitantes destas paragens denominam de um modo que eu poderia traduzir por “As Maravilhosas Moradas”, e que consiste numa cidade toda ela virtual, no sentido em que não existem edifícios mas apenas as suas plantas traçadas no solo. Essa cidade tem a forma de um tabuleiro de xadrez e estende-se por milhas e milhas; e todos os dias os peregrinos com um simples giz, deslocam os edifícios à sua vontade, como se fossem peças de xadrez, de maneira que a cidade é móvel e variável, e a sua fisionomia muda constantemente. No centro do tabuleiro ergue-se uma torre sobre a qual assenta uma enorme esfera dourada, que lembra vagamente o fruto que abunda nos jardins destas ilhas. E esta esfera é o deus.
Não me foi possível descobrir quem seja exatamente esse deus; as definições que me deram até agora são imprecisas e reticentes, e talvez pouco compreensíveis para um estrangeiro. Depreendo que ele esteja relacionado com a ideia da plenitude e da perfeição, uma ideia altamente abstrata e pouco compreensível para o intelecto humano. E foi por isso que pensei que se tratasse do deus da Felicidade; mas da felicidade de quem compreendeu tão plenamente o sentido da vida que para si a morte já não tem importância alguma e é por isso que os poucos eleitos que vão venerá-lo não voltam mais. A velar este deus está um idiota de rosto cretino e de fala desconexa, que talvez esteja em contacto com o deus por misteriosas vias que a razão ignora. Quando manifestei desejo de lhe render homenagem, as pessoas riram-se de mim e, com ar de profundo afeto que talvez contivesse uma ponta de comiseração, beijaram-me na face.
Em contrapartida, também eu rendi homenagem ao deus do Amor, cujo templo se ergue numa ilha de praias louras e em arco, na areia dourada acariciada pelo mar. E a imagem do deus não é um ídolo nem qualquer coisa visível, mas um som, o puro som da água do mar que entra no templo através de uma canal cavado na rocha e que se quebra num lago secreto; e ali, devido à forma das paredes e à amplitude da construção, o som reproduz-se num eco infinito que arrebata quem o ouve e provoca uma espécie de embriaguez ou de tontura. E a muitos e estranhos efeitos se expõe quem honra este deus, porque o seu princípio comanda a vida, mas é um princípio bizarro e caprichoso; e se é verdade que ele é a alma e a concórdia dos elementos, também pode produzir ilusões, delírios e visões. E eu assisti nessa ilha a espetáculos que me perturbaram pela sua verdade inocente; tanto que tive dúvidas se tais coisas existiam deveras ou se eram antes fantasmas do meu sentimento que saíam de mim e tomavam aparência real no ar por me ter exposto ao som enfeitiçado deste deus; e pensando isto, tomei por um caminho que leva ao ponto mais alto da ilha, de onde se pode ver o mar de todos os lados. E então apercebi-me de que a ilha era deserta, que não havia nenhum templo na praia e que as figuras e os vários rostos do amor que eu tinha visto como quadros vivos e que compreendem múltiplas gradações do espírito como a amizade, a ternura, a gratidão, o orgulho e a vaidade, todos esses rostos que eu pensava ter visto em formas humanas, eram apenas miragens provocadas em mim quem sabe por que sortilégio. E assim cheguei mesmo ao cimo do promontório, e enquanto observava o mar infinito, abandonando-me já ao desalento que a desilusão provoca, uma nuvem azul desceu sobre mim e arrebatou-me para um sonho; e sonhei que te escrevia esta carta, e que eu não era o grego que partiu em busca do Ocidente e não mais voltou, mas que estava apenas a sonhá-lo.
Mulher de Porto Pim e outras histórias. António Tabucchi. Alfragide: D. Quixote, 2016.

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