sábado, 3 de junho de 2017

Estante de leitura – Luz de luz

"Hans-Jurgen Syderberg falou-nos do “mundo perdido”, da perda da paisagem, da morte das florestas, dos lugares de infância, da decadência de uma civilização: a vaicuidade sem desígnio, o consumismo desenfreado, a massificação da cultura, a comunicação entre pessoas pautada pela superficialidade e cinismo.
uma pequena luz, luz bruxuleante, treme, de novo a esperança, como nos recordam os registos de vida e a própria obra atual de ai wi-wei, verdadeiro feixe de luz que teima em persistir mesmo perante a indomável força retropulsora e estagnante que o envolve desde há anos, provavelmente desde a sua infância, um mal que tem sido um horror mudo e que nos empurra para uma pergunta crucial: como iremos ultrapassar esta humanidade em que a barbárie de corpos destroçados, migrantes afogados, crianças não nascidas na liberdade da escolha, convive diariamente com a euforia colorida e imparável do comércio? eis o maior risco que agora enfrentamos, a dura guerra diária de, segundo José Gil, “deixar de haver um lugar, um território próprio do objeto e do sujeito: o lugar do desdobramento incessante do espaço e do tempo, em todos os sentidos”. o lugar do permanente devir daquele que ainda pode olhar para fora de si. Rui Chafes recorda-nos: “o homem dignifica aquilo a que chamamos vida quando tem consciência de participar numa dimensão superior que o transcende”.
no fundo, a arte de viver é uma intensa declaração de amor. pelo outro. onde se aprende diariamente a gerir encontros e despedidas. onde se aprende a aceitar limites. a alargá-los, sendo capaz de mais e, sobretudo, de diferente. (…)
juntar o que está separado. desiquilibrar para reequilibrar. transformar. transcender. quando aterrou pela primeira vez em Nova Iorque, (…) ai wei-wei escreveu perante as luzes da cidade que então se acendiam, iluminando o céu a uma distância para si impensável:”this is the light I will die for”. (…) “the worst tragedy is disrepect for life”, escreveu mais tarde no seu blog. (…) só a permanente capacidade de espanto e temor para com o mundo pode manter acesa a chama da indignação. da força que deseja ser eterna aliada da verdade, da beleza, da bondade.
negação da morte
vida eterna
assombro
glória
luz de luz
Hubert Dreyfus e Dorrance Kelly no seu livro, Um mundo Iluminado recordam-nos uma velha história de um sábio e dois alunos. Um dia o sábio deu a um aluno a ordem de, certo dia, correrem eles próprios mundo e, enfim, aplicarem por si próprios algo de útil que lhes tivesse ensinado. muitos anos decorridos, os dois alunos reencontraram-se pelo acontecimento da morte do sábio e, entre eles, trocaram acesas experiências. o primeiro disse: “aprendi a ver no mundo muitas coisas plenas de luz, mas (ai de mim!), continuo a ser infeliz. pois também deparei com muitas desilusões e muitas coisas tristes e sinto ainda que não consegui seguir o conselho do mestre. talvez nunca venha a sentir-me preenchido de felicidade e alegria, porque sou realmente incapaz de descobrir todas as coisas plenas de luz.”
respondeu então o segundo: “nem todas as coisas que existem são plenas de luz, mas de todas as que são dotadas de luz, sim, existem.”
por isso, não sejas tão só refúgio de luz. ilumina. ergue-te em desafio diário. tocando um a um os raios de sol. que teus dedos sejam fios infinitos nesse desígnio desumano de viver de janela sempre aberta, as mãos em chama, a dor doendo em febre alta por entre a profissão impossível em que evocas sonhos nos quais a beleza ainda é nova.
não sejas tão só a sombra. consente a dúvida, o pasmo. e vive.
vive em cada momento como amante eterno. eis o outro, diante de ti, suspenso.
disse-nos por fim Tarkowsky: “se quiseres viver, tens de permanecer macio e flexível como uma criança”. não te deixes endurecer. sê feliz.
apago agora a luz. é noite. creio no novo dia que virá depois.

Pedro Strecht. (2017). Luz de luz. Lisboa: Manufactura. 

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