"Sem lembranças. Sem perdas. Sem razão. Sem saber. O nada como umas águas furtadas. O vazio como tudo o que me preenche. O escuro e o quente que me envolve e protege, confortavelmente. A minha casa de paredes húmidas. No cimo das escadas, num telhado de gente. Um precipício. Com espaço suficiente para estar só. Com tempo suficiente para ninguém chegar. Alguém está cá sempre, sem estar e eu estou em alguém sem saber. Como numas águas furtadas, vazia, escura, quente, húmida, confortável. A diminuir de tamanho enquanto cresço.
Depois, um traço inesperado. Perfeito. Ganhando volume ao meu olhar. Rompendo a neblina. Ganhando-me luz. Enchendo-se de cor. Enchendo de cor os meus olhos. E luz. Uma luz que se demora até ser eternidade. Um rosto. Um rosto sereno. Um rosto pintado em traço certo. Uma cor que me desperta. Suave. Suave no traço e na cor. Suave em cada gesto em que se pinta. Tão perfeito que nada do exterior lhe toca. Tão profundo no olhar que é capaz de possuir tudo o que existe e nada do que existe é capaz de o possuir. E olha apenas para mim. Todas as palavras se calam nos traços que lhe desenham os lábios. Às vezes sorri e transborda. Um sentir sem tamanho. Um infinito à relação da desmesura de um ser, pintado… perfeito, real. Multiplicando-se em mim. Estendendo-se. Tornando-se dois seres corpóreos.
Abandonado de todas as suas fragilidades, traz-me na fortaleza do seu colo. Explodo de vida no instante de chegar aos seus braços. No sentir puro do amor dado e recebido. Com a minha mão fechada dentro da sua, adormeço e sossego. Na ternura e na certeza de que é eterno.
Queria que todas as madrugadas fossem nascer. Assim, nos mesmos braços em que nasço. No mesmo afeto.Escrevo a primeira palavra de mim.
És a primeira palavra que escrevo."
Armanda Azevedo, “Dia 1 Nascer”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: John Constable

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