"Um primeiro espelho. Olho-me fundo. Encontro-me como se fora de mim. Olho-me nos olhos. De fora para dentro. Sinto. Sinto mais intensamente. Um amplificador o peito. Mil e uma baterias. Choques. Sobrecargas. Não quero deixar de olhar-me. Não posso deixar de sentir!
Tantas coisas em mim!
Há coisas em mim que não sei dizer. Há coisas em mim que não sei dizer porque não têm nome. Há coisas em mim sem forma. Coisas sem sentido. Coisas sem sentido que me toldam o sentido das coisas.
As coisas em mim são imensuravelmente grandes. Há cosias que há em mim que em mim não cabem. Transbordam-me. Há coisas em mim que, por serem maiores, me diminuem. Há coisas em mim que se elevam e me anulam. Há coisas em mim que me fazem grande. Gigante. Há coisas que me brilham.
Há coisas em mim que não encontro em mais lugar nenhum. Creio mesmo que há coisas em mim que só existem dentro de mim.
Há coisas em mim silenciosas. Há coisas que gritam em mim.
São voz
Há coisas em mim que não consigo lembrar. Coisas em mim que não posso mais esquecer. Coisas em mim que queria voltar a celebrar. Há coisas felizes. Sorrisos em mim e dentro de todas as coisas dentro e fora de mim.
Há sol. Há sol mesmo quando há chuva ou vento ou neblina. A chuva, o vento, a neblina são apenas seus heterónimos.
As coisas que há em mim são uma casa. E mudo-me para a casa que é as coisas que há em mim.
As paredes são janelas. Tudo é vidro e vejo o que há de fora. Tudo é espelho e vejo o que há cá dentro. Tudo é novo. Tudo é primeira vez.
Todas as coisas, ao serem olhadas por uma primeira vez, ganham a oportunidade de serem coisas novas. Todas as emoções, ao serem sentidas pela primeira vez, alcançam o ensejo de serem um novo sentir. O que experienciamos guardamos em nós como algo único e unicamente nosso. Definido por nós. Transformado por nós e para nós.
Descubro o que já há muito foi descoberto, mas conquisto-o para mim. Posse partilhada embora com domínio único e totalitário sobre a minha perspectiva de propriedade.
E assim, de conquista em conquista, parto de porto em porto, navego de mar em mar, no meu próprio descobrimento. Numa epopeia de mim mesma, mesmo sem sair da própria casa."
Armanda Azevedo, “Dia 2 – Descobrir”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban

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