sexta-feira, 30 de março de 2018

Estante de leitura – Criação (III)

"Não chega! Há espaço insuficiente para estar aqui. Sufoco. Escasseia o ar respirável. Não acontecem coisas bastantes para me viver. Há gente em excesso. Há ausência de vida nas gentes em excesso. Quero ter mais! Não quero o igual. Chegar além do tangível. Experimentar para lá do sensível.

      Invento. 
    Invento uma forma de escrever. Invento uma forma de escrever nova e cheia de hábeis hábitos. Invento uma forma de escrever com palavras sábias, robustas, audíveis. Invento palavras. Invento palavras para escreverem sentidos perpétuos. Invento nomes imortais.
   Invento sangue, invento lágrimas. Invento palavras para escrever guerras e invento heróis para as guerras inventadas. Invento os heróis que ganham as guerras inventadas e invento os heróis que perdem as guerras inventadas.
   Invento uma forma de escrever aventuras. Invento as aventuras escritas na minha cabeça. Escrevo as histórias que a mente inventa e escrevo-as com as palavras que só existem na minha cabeça. Escrevo e invento realidades minhas, só minhas.
    Invento uma forma de escrever que não doa. Invento palavras que não firam. Invento a cor das palavras. Invento o som de uma máquina de escrever. Invento o som das teclas. Invento o som das palavras e a nova cor dos novos gestos que as novas palavras dizem. Invento um traço. Invento a cor das tintas. Invento papel branco. Invento o cheiro dos livros novos que cheiram às novas histórias por contar. Reinvento o cheiro dos livros velhos que contam mais do que as histórias que lhes destinaram contar.
     Invento tempestades. Invento auroras.
     Invento espaço e invento tempo.
     Escrevo-me."

Armanda Azevedo, “Dia 3 – Inventar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban

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