"Longe. Na nossa terra não há confins, apenas vastas extensões sem nome nem lugar, longe de nós mesmos, os longes da alma. Não há personagens, nem drama, nem deles chega notícia aos remotos monitores da nossa consciência. Podemos passar uma vida inteira sem os conhecer, sem saber que eles existem. Sem nós, eles estão fora da nossa experiência, fora do nosso campo de atenção. Aí, nesse para lá de tudo o que sabemos, vivem espectros, alianças, recordações. As árvores, esquecidas de florir, erguem-se como o esqueleto de sentinelas à beira de um deserto sem esperança. Os restos de casas, cada objeto uma ruína à espera do desaparecimento, não se destacam da paisagem, se é que podemos chamar paisagem a estas vastidões que encerram mil histórias e mil segredos, todos inevitavelmente alheios à nossa voz. A nossa voz não fala, de que servia ela soltar-se se não há palavras que lhe sirvam para designar estes mundos perdidos, para sempre perdidos dentro de nós?"
Silêncio: João Francisco Vilhena e Pedro Oliveira. 1ª ed. – Lisboa: Penguin Random House, 2017. – 74, [3] p. ; 20 cm. – ISBN 978-989-665-418-4

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