cresce-lhe a erva nos olhos.
O meu pai sempre disse,
“a mulher é uma árvore de coração movediço,
quando a resina lhe chega aos lábios
somos uma imagem em chamas”.
O amor,
apartamento de duas assoalhadas.
Uma,
com vistas magníficas
que prometem perfurar lâminas.
A outra,
espaço onde o tempo repete às vísceras
o meticuloso acordo entre a tempestade e a morte.
Afinal,
a vida não cheira continuamente
a um piano que toca flores.
O céu metido em prateleiras
apaixona-se pela lei da gravidade.
E cair não é bom para ninguém.
Também os deuses
em contacto com o solo
imitam o cristal.
Os meses têm dentes.
E eis-nos,
a dar a última demão no vento
para citarmos de novo
um corpo que foi Agosto.
O amor é uma pistola
que faz férias no paraíso."
“II”, de Monólogos do Báltico, inViagem à demência dos pássaros: Alberto Pereira. Lisboa: Glaciar, 2017.

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