"PRÓ – MEMÓRIA. Uma criança folheia um álbum de fotografias tiradas longe. Uma a uma, fixando-as com a atenção da primeira vez, reconhece o mundo da sua vivência escassa, da sua curta vida. Reconhece o mundo, ainda antes que ele se povoe de inúmeras coisas, porque o ser tem horror ao vazio que é o império da alam nua, tábua primordial onde se imprimem todas as sensações. Esta terra póstuma que as fotografias representam é, para a criança, uma terra de antes, uma paisagem em construção, um mundo que tem, aos seus olhos, a força brutal de uma revelação. Vamos, como crianças, por este sonho trazido de longe, acreditando que esta é a radiografia da nossa exaustão, o retrato em negativo da abundância. Escassez.
Silêncio: João Francisco Vilhena e Pedro Oliveira. Lisboa: Penguin Random House, 2017.
Imagem: © – INCF (Parque nacional Peneda-Gerês)

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