Ela deixa-me a casa nas mãos. Consigo saber que ela está em casa, quando passo os dedos pelas folhas finas de papel sulcadas pelo aparo da caneta. Por ter a sua casa nas mãos, não sei dizer quando ela deixa de estar aqui, deste lado de fora. Permanece dentro das paredes de papel, mas deixa de aparecer dentro das paredes de pedra. Deixa de aparecer dentro das paredes de éter. Deixa de aparecer dentro das paredes de pele. Não consigo ver quando sai. Eu apenas estou lá, dentro das paredes de pele, dentro das paredes de pedra, dentro das paredes de éter, a espreitá-la por dentro das paredes de papel, por dentro das minhas mãos.
Ela é sempre o lado bonito de todas as coisas. O lado que brilha.
O lado sem fumos, límpido. Mesmo quando não sorri. Ela tem livros abertos na sua cabeça. Livros como sóis dentro da cabeça. Sabe sobre tantas coisas. Conta-me segredos. Ela sabe todas as coisas sobre mim também. Adivinha-me.
A mim falta-me tamanho para a poder conhecer e adivinhar. A mim sobra-me realidade para não ter medo. E o medo é névoa. Não existem auroras na minha cabeça. Auroras fortes. Deviam nascer sóis na minha cabeça. Deviam nascer sóis na minha cabeça com raios fortes.
Deviam nascer sóis na minha cabeça com raios fortes que limpassem a névoa. E assim, sem névoas, eu teria conseguido ser só ela. Assim, sem névoas, teríamos sido só uno dentro e fora das paredes de papel.
Mas fico-me apenas pela veneração. Sem chegar a um entendimento pleno da sua realidade, sem perceber a magnitude do que acontece. Não a vejo sair. Não a vejo chegar. Não a vejo ficar em mim. Pertenço-lhe sem me pertencer.
Sou ela num eu multiplicado."
Armanda Azevedo, “Dia 5 – Multiplicar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem – ©: m-ban

Sem comentários:
Enviar um comentário