"Viajo no tempo nos lugares por onde já passei com ela. Repetindo-os. Todas as vezes que passo nesses lugares, é sempre o mesmo dia. É sempre o mesmo lugar com as mesmas pessoas, com os mesmos cheiros, com a mesma chuva, o mesmo sol, a mesma noite. E ela é diferente. E eu sou diferente. Porque eu sou eu hoje e porque ela é ela hoje. Só o lugar é o mesmo, igual ao lugar do tempo primeiro de quando estivemos lá.
Nós continuamos em todos os lugares onde já estivemos. Nas ruas dou os mesmos passos, coordenados com os passos dela. Às vezes, num passo atrás para conseguir ver todos os passos dela e percorrê-los, na certeza de lhe chegar. Os nossos passos continuam nas calçadas, nos caminhos. Havemos de ter muita idade e passar pelos mesmos sítios de ontem. E os sítios serão os velhos sítios ainda que novos. E nós seremos novas pessoas ainda que velhas.
Os mesmos passos, os mesmos gestos, de todos e dos mesmos eus. Os mesmos punhais cravados em todos os peitos, na esperança de sentir um bater de coração nas mãos. O mesmo morder de todas as bocas na procura de sangue vivo. O mesmo rasgar a pele para encontrar um corpo. O meu, o dela, o nosso… o mesmo.
Aprendo a fazer o mínimo barulho possível. Aprendo a suster o ar nos pulmões e manter o peito cheio, imóvel. Fecho os olhos e espero ouvi-la chegar.
Oiço-a chegar no vibrar desafinado dos sons extrínsecos.
Oiço-a chegar no toque preciso dos passos na calçada. Oiço-a chegar no ranger sinistro das portas que se abrem.
Oiço-a chegar na luz ténue da manhã. Oiço-a nas silhuetas de cor.
Oiço-a chegar num riso, num abraço, numa vontade tão grande de a ouvir chegar.
Oiço-a chegar quando chego, quando parto, quando fico, quando espero… oiço-a chegar sempre que desisto… e sempre desisto de desistir de a ouvir chegar.
Aprendo a fazer o mínimo de barulho para que não me oiça a ouvi-la chegar. Consigo suster o ar nos pulmões, suspender os sinais de vida e viver apenas o momento de a ouvir chegar. Consigo manter o peito cheio dela. Imóvel, perpétuo, o instante no meu peito ao ouvi-la chegar.
Já não sei ser um só. Ela chega e sou já muitos num ser multiplicado. Repetido."
Armanda Azevedo, “Dia 6 – Repetir”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – Rafael, A escola de Atenas, renascimento italiano.

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