A caneta tombou sobre o papel. Exausta. Inanimada.
Numa sala vazia, luz escassa, já não se ouvia o rogaçar da ponta da caneta no papel. Ela jaz ingloriamente na sombra projetada pelo meu corpo também ele inerte, esgotado, imenso. Nenhuma glória se alcança sem perdas.
Eu, num ser agora completo, tenho somente um mundo inteiro.
Um mundo inteiro, com cidades inteiras, com pessoas inteiras.
Peso o peso desse todo o mundo. Das cidades dos meus desacertos, das minhas hesitações, dos meus abandonos. Peso também o peso leve das cidades felizes. Das cidades dos meus feitos excelsos, dos gestos largos. Da cidade da partilha. Da cidade das coisas certas. Embora distantes, existem caminhos entre elas. Há rios. E onde há rios, tenho pontes entre elas.
Peso o peso dos meus habitantes. Dos que perderam e dos que ganharam. Todos os que nasceram dos meus atos mais ponderados ou dos meus atos mais irrefletidos.
Tenho dentro de mim todas essas cidades e pessoas. E moro em todas elas também. E sou todas elas e cada um dos seus lugares. Moro e sou cada um desses lugares que tenho em mim. E sou caminho e pontes entre elas.
Amei mais. E sou todos aqueles que amei. Amei menos. Morri-me em todos aqueles que esqueci.
E ao oitavo dia descansei. Do cansaço de ser eu, em tantos eus, em tantos dias. Em tantos sítios. Do cansaço de descobrir… de criar, de criar-me. De me descobrir. E continuar…
Agora vou ficar aqui. Fazendo sombra. Arrefecendo a terra quente onde repousa a minha caneta de escrever-me. Vou ficar-me a ouvir o mundo mover-se. Sem que o ruído do mundo a mover-se me incomode. Sem deixar-me estontecer pela rotação da terra sobre o seu próprio eixo.
Vou deixar-me apenas ser, deixando-me cegar pelo nascer do dia. Deixando-me esmagar pela noite quando cai. Ser feliz, sem enlouquecer pelo som da vida a gotejar em mim.
Para no fim não saber responder quem sou. Para responder apenas sou eu. Desconsiderando que sou apenas um mundo inteiro de mim. Pois esse meu mundo inteiro, mais não será que uma sala de espelhos. O mundo numa sala de espelhos gigante. Onde os reflexos refletem os seus reflexos. Misturam-se, repetem-se, formam-se e disformam-se até não se saber mais qual o espectro original. O meu ser primeiro. O eu que nasceu único e inocentemente feliz. Até se esquecer."
Armanda Azevedo, “Dia 8 – Descansar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – m-ban

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