sábado, 16 de junho de 2018

Estante de leitura – O céu que nos protege

"Quando abriu os olhos soube imediatamente onde se encontrava. Baixa, no céu, estava a lua. Embrulhou o casaco à volta das pernas e tremeu um pouco, sem pensar em nada. (…) A areia era suave, mas o frio penetrava através das roupas. Quando sentiu que não podia continuar a suportar os arrepios, arrastou-se para fora da árvore onde se abrigava e pôs-se a andar para trás e para diante em grandes passadas na esperança de se aquecer. O ar estava morto; nenhuma aragem, apenas o frio a crescer minuto a minuto. Começou a afastar-se para mais longe, mastigando pão enquanto caminhava. Sempre que regressava ao Tamariz sentia a sensação de deitar-se debaixo dos ramos e dormir. Todavia, quando surgiu a 1ª luz da alvorada estava completamente desperta e quente.

A paisagem do deserto é sempre mais bela na semi - claridade da aurora ou do crepúsculo. Não existe o sentido da distância: uma crista próxima pode ser a de uma montanha ao longe, cada pormenor, por mais pequeno que seja, pode adquirir a importância de uma variante maior sobre o repetitivo tema do campo.

A chegada do dia promete uma mudança; só quando o dia se abre completamente é que o observador suspeita que é o mesmo dia que regressa uma vez mais – o mesmo dia que há muito se vive, sempre e sempre, a mesma luz ofuscante e purificada pelo tempo. Kit respirou profundamente, olhou à volta para a linha suave das pequenas dunas, para a vasta e pura luz que se elevava atrás da orla mineral da hamada, para a floresta de palmeiras ainda imersa na noite, e soube que não era o mesmo dia. Mesmo quando se abriu completamente de luz, mesmo quando o sol imenso se ergueu e a areia, as árvores e o céu adquiriram gradualmente o seu aspecto habitual do dia, não teve dúvidas de que apesar de tudo isso, ali estava um novo dia, absolutamente único."

Paul Bowles. (2017). O céu que nos protege. Lisboa: Quetzal, páginas 279-280.

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