quarta-feira, 15 de maio de 2019

Canção sem nostalgia

"
Despeço-me deste campo de flores
nem folhas, e levarei comigo uma saudade

de pastor sem rebanho. Chegarei aonde
me perguntarem “Que Primavera
abandonaste? ” E direi: ” o que para
trás ficou, outros irão colher numa ceifa
de memórias. “E basta-me este saco
de instantes que um dia abrirei, quando
a fome de algum tempo passado me
atormentar. Hão - de cair à minha frente
as imagens que ali ganharam o bolor
da lembrança. Algumas, pô-las-ei
ao sol, para que a luz as limpe e me
restitua, o seu fulgor; as outras, como frutos
secos, dá-las-ei aos pássaros, para que possam
ganhar forças para o seu derradeiro
voo. E a quem se queixar do Inverno, direi
que a vida exige o prumo
do presente, a exatidão de um bater
de horas no anúncio de uma despedida,
e o desenho de um perfil desejado
na escadaria do futuro."

O mito da Europa / Nuno Júdice. – 1ª ed. – Lisboa : Publicações Dom Quixote, 2017. – 109 p. ; 21 cm. – ISBN 978-972-20-6256-5

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