A
lei dura tempo de mais, disse Jonathan. Os antigos gregos teimosos, Sólon, o
primeiro legislador, falava, o otimista (ou pessimista), em leis para cem anos,
leis com resistência de um século. O que significaria que nada na relação entre
homens, animais, objetos, espaço, movimentos, pensamentos e palavras mudaria. Mais
claro que a introdução de um novo elemento no mundo cria sempre a expectativa
de uma outra lei. Um novo objeto, uma nova lei, disse Jonathan, enquanto se
imaginava a tentar com brutalidade desatar um nó que, na verdade, não se
desatava com intensidade muscular mas sim com destreza média e direcionada. Um
artesão, diz Jonathan, eis o que falta e sempre faltou no mundo, um artesão que
fosse especialista em desatar nós; que andasse por aí a resolver esses nós de
corda complicadíssimos, nós que significam ligações de alta excitação, ligações
quase impossíveis de se quebrar.
E, sim, há muitos artesãos de objetos concretos e há peritos, quase científicos, em dar nós, a unir, porém, a arte de desunir é tão importante como a arte de unir. É preciso um homem que tenha a inteligência para perceber que coisas ou pessoas do mundo devem ser separadas.
As leis são nós, ligações, por vezes é preciso desatá-los, defende Jonathan.
Esse salvador que desata nós, disse Jonathan, que separa as coisas, onde está ele?
Leis para um século, dizia Sólon. Mas agora que a velocidade de tecnologia nos assusta, devemos atualizar: uma velocidade de mudança de leis semelhante à velocidade de mudança tecnológica.
Que leis para hoje, que mudanças?
A lei já não é algo sentado na poltrona.
A lei está em movimento, deve acompanhar o velocista dos cem metros.
Uma lei para cada dia, disse Jonathan. Um Estado que se atualiza na matéria e no juízo."
Na América, diz Jonathan / Gonçalo M. Tavares . – Lisboa : Relógio d’Água, cop. 2018.

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