segunda-feira, 13 de maio de 2019

Estante de leitura – Nota sobre supressão dos partidos políticos

"Como aderir a afirmações que desconhecemos? Basta subtermo-nos incondicionalmente à autoridade de onde emanam. Foi por isso que São Tomás de Aquino apenas quis sustentar as suas afirmações na autoridade da Igreja, excluindo qualquer outro argumento. Pois, disse ele, mais não é preciso para aqueles que as aceitam; e nenhum argumento persuade os que as recusam. 

Deste modo, a luz interior da evidência, essa faculdade de discernimento concedida lá do alto à alma humana enquanto resposta ao desejo de verdade, é posta de lado, condenada às tarefas servis, como fazer contas de somar, excluídas de todas as buscas relativas ao destino espiritual do homem. O móbil do pensamento já não é o desejo incondicional, não definido, da verdade, mas sim o desejo de conformidade com um ensinamento previamente estabelecido.

apesar da Inquisição, não o fez totalmente, foi porque a mística oferecia um refúgio seguro – é uma ironia trágica. Isso foi muitas vezes sublinhado. Mas sublinhou-se menos vezes uma outra ironia trágica. É que o movimento de revolta contra a asfixia dos espíritos sob o regime inquisitorial tomou uma orientação tal que se prosseguiu a obra de asfixia dos espíritos.  

A Reforma e o humanismo da Renascença, duplo produto dessa revolta, contribuíram largamente para suscitar, após três séculos de maturação, o espírito de 1789. Daí resultou, após certa espera, a nossa democracia fundada no jogo dos partidos, sendo cada um deles uma pequena igreja armada com a ameaça da excomunhão. A influência dos partidos contaminou toda a vida mental da nossa época. (…) 
Chegámos a uma situação em que quase não pensamos, seja em que domínio for, exceto para tomar posição “pró” ou “contra” uma opinião. Procuram-se depois os argumentos, consoante o caso, seja pró, seja contra. É a transposição exata da adesão a um partido. (…)

Mesmo nas escolas, já não se consegue estimular o pensamento das crianças convidando-as a tomar partido pró ou contra. É-lhes citada uma frase de um grande autor e pergunta - se - lhes: “Concordas ou não? Desenvolve os teus argumentos.” os infelizes sujeitos a este exame, obrigados a terminar a sua dissertação ao fim de três horas, não podem passar mais do que cinco minutos a questionar-se se estão de acordo. E seria tão fácil dizer-lhes: “Meditem neste texto e exprimam as reflexões que vos vieram à cabeça.”
Um pouco por todo o lado – e até muitas vezes em problemas puramente técnicos -, a operação de tomar partido, de tomar posição pró ou contra, substituiu a operação do pensamento.
Estamos perante uma lepra que teve origem nos meios políticos e que se estendeu, através do país todo, à quase totalidade do pensamento. 

É duvidoso que se consiga remediar essa lepra, que nos mata, se não começarmos pela supressão dos partidos políticos."

Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos / Simone Weil. Lisboa : Antígona, 2017. 

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