Deste
modo, a luz interior da evidência, essa faculdade de discernimento concedida lá
do alto à alma humana enquanto resposta ao desejo de verdade, é posta de lado,
condenada às tarefas servis, como fazer contas de somar, excluídas de todas as
buscas relativas ao destino espiritual do homem. O móbil do pensamento já não é
o desejo incondicional, não definido, da verdade, mas sim o desejo de
conformidade com um ensinamento previamente estabelecido.
apesar
da Inquisição, não o fez totalmente, foi porque a mística oferecia um refúgio
seguro – é uma ironia trágica. Isso foi muitas vezes sublinhado. Mas
sublinhou-se menos vezes uma outra ironia trágica. É que o movimento de revolta
contra a asfixia dos espíritos sob o regime inquisitorial tomou uma orientação
tal que se prosseguiu a obra de asfixia dos espíritos.
A
Reforma e o humanismo da Renascença, duplo produto dessa revolta, contribuíram
largamente para suscitar, após três séculos de maturação, o espírito de 1789.
Daí resultou, após certa espera, a nossa democracia fundada no jogo dos
partidos, sendo cada um deles uma pequena igreja armada com a ameaça da
excomunhão. A influência dos partidos contaminou toda a vida mental da nossa
época. (…)
Chegámos a uma situação em que quase não pensamos, seja em que domínio for,
exceto para tomar posição “pró” ou “contra” uma opinião. Procuram-se depois os
argumentos, consoante o caso, seja pró, seja contra. É a transposição exata da
adesão a um partido. (…)
Mesmo nas escolas, já não se consegue estimular o pensamento das crianças convidando-as a tomar partido pró ou contra. É-lhes citada uma frase de um grande autor e pergunta - se - lhes: “Concordas ou não? Desenvolve os teus argumentos.” os infelizes sujeitos a este exame, obrigados a terminar a sua dissertação ao fim de três horas, não podem passar mais do que cinco minutos a questionar-se se estão de acordo. E seria tão fácil dizer-lhes: “Meditem neste texto e exprimam as reflexões que vos vieram à cabeça.”
Um pouco por todo o lado – e até muitas vezes em problemas puramente técnicos -, a operação de tomar partido, de tomar posição pró ou contra, substituiu a operação do pensamento.
Estamos perante uma lepra que teve origem nos meios políticos e que se estendeu, através do país todo, à quase totalidade do pensamento.
É duvidoso que se consiga remediar essa lepra, que nos mata, se não começarmos pela supressão dos partidos políticos."
Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos / Simone Weil. Lisboa : Antígona, 2017.

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