"Como atribuir efetivamente aos homens que compõem o povo de França a possibilidade de por vezes exprimirem um juízo acerca dos grandes problemas da vida pública? Como impedir, quando o povo é interrogado, que circule através dele algum tipo de paixão coletiva? Se não pensarmos nestes dois aspectos, torna-se inútil falar de legitimidade republicana. Não é fácil conceber soluções. Mas é evidente, após um exame atento, que qualquer solução implicaria desse logo a supressão dos partidos políticos.
Para avaliar os partidos políticos segundo o critério da verdade, da justiça, do bem público, é preciso começar por distinguir os seus caracteres essenciais.
Podemos enumerar três deles:
Um partido político é uma máquina de fabricar a paixão coletiva.
Um partido político é uma organização construída de maneira a exercer uma pressão coletiva no pensamento de cada um dos seres humanos que dele fazem parte.
A finalidade principal, e, em última análise, a única finalidade de qualquer partido político, é o seu próprio crescimento, e isto sem nenhum limite.
Devido a este triplo carácter, todo o partido político é totalitário quer na sua génese, quer nas suas aspirações. Se não é de facto, é apenas porque aqueles que o rodeiam não são menos totalitários do que ele. Estas três características são verdades por demais evidentes a todo aquele que se tenha aproximado da vida dos partidos.
A terceira é um caso particular de um fenómeno que se produz onde quer que o coletivo domine os seres pensantes. É o regresso da relação entre fim e meio. (…)
A finalidade de um partido político é uma coisa vaga e irreal. Se fosse real, exigiria um grande esforço de atenção, pois uma concepção do bem público não é uma coisa fácil de pensar. A existência do partido é palpável, evidente e não exige nenhum esforço para ser reconhecida. Torna-se assim inevitável que o partido seja para si mesmo a sua própria finalidade. Existe desde logo idolatria, pois apenas Deus é uma finalidade em si mesma."
Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos / Simone Weil ; trad. Manuel de Freitas. Lisboa : Antígona, 2017. ; Imagem: © – 1x.com

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