sábado, 11 de maio de 2019

Estante de leitura – política e verdade (II)

"Uma água posta em movimento por uma corrente violenta, impetuosa, deixa de refletir os objetos, já não tem uma superfície horizontal, nem indica já as densidades. E pouco importa se é agitada por uma única corrente ou por cinco ou seis correntes que se chocam e fazem redemoinhos. Está igualmente perturbada em ambos os casos.

Se  uma única paixão coletiva atinge um país inteiro, todo esse país é unânime no crime. Se dois ou quatro ou cinco ou dez paixões o partilham, ele divide-se em vários grupos de criminosos. As paixões divergentes não se neutralizam, ao contrário do que acontece com uma poeira de paixões individuais fundidas numa massa; o número é demasiado pequeno, a força de cada uma delas é demasiado grande, para que possa haver neutralização. A luta exaspera-as. Chocam entre si com um ruído verdadeiramente infernal, e que torna impossível ouvir sequer por um segundo a voz da justiça e da verdade, sempre quase imperceptível. 
Quando existe paixão coletiva num país, há a probabilidade de que uma qualquer vontade particular se torne mais próxima da justiça e da razão do que a vontade geral, ou até daquilo que constitui a sua caricatura.
A segunda condição é a de que o povo possa exprimir a sua vontade acerca dos problemas da vida pública, sem se limitar a fazer uma escolha de pessoas. Muito menos uma escolha de coletividades irresponsáveis. Porque a vontade geral não tem qualquer relação com semelhante escolha.  
Se houve m 1789 uma certa expressão da vontade geral, embora tivesse adoptado o sistema representativo por não ter conseguido imaginar outro, foi por ter havido algo bem diferente de eleições. Tudo o que existia de vivo em todo o país – e o país transbordava então de vida – procurava exprimir um pensamento através do órgão dos cadernos de reivindicações. Os representantes deram-se quase tudo a a conhecer durante essa cooperação de pensamento; mantinham esse lume; reconheciam um país atento às suas palavras, zeloso em verificar se elas traduziam exatamente as suas aspirações. Durante algum tempo – não muito -, eles foram de  facto simples órgãos de expressão do pensamento público. 
Semelhante coisa nunca mais voltou a acontecer. 
O mero enunciado destas duas condições revela que nunca conhecemos nada que se assemelhasse, ainda que remotamente, a uma democracia. Naquilo que assim nomeamos, o povo não teve nunca meio ou ocasião de exprimir um juízo acerca de qualquer problema da vida pública; e tudo o que foge aos interesses particulares é confiado às paixões coletivas, que são sistemática e oficialmente encorajadas. E isso implica discutir com substância os nomes democracia e república."

Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos / Simone Weil . Lisboa : Antígona, 2017. 
Imagem: © – Masaki Kawara

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