A democracia, o poder da maioria não são bens. São meios com vista ao bem, julgados eficazes com ou sem razão. Só o que é justo é legítimo. O crime e a mentira em caso nenhum o são. (…) O nosso ideal republicano procede inteiramente do conceito de vontade geral que devemos a Rousseau. Mas o sentido do conceito perdeu-se quase logo de seguida, porque é complexo e exige um grau elevado de atenção.
Rousseau partia de duas evidências. Uma, a de que a razão discerne e escolhe a justiça e a utilidade inocente, e que todo o crime tem por móbil a paixão. A outra, a de que a razão é idêntica em todos os homens, ao passo que as paixões, na maior parte das vezes, diferem. Por conseguinte, se cada um reflete sozinho e exprime uma opinião acerca de um problema geral, e se depois são comparadas as opiniões de cada qual, elas provavelmente irão coincidir na parte justa e razoável de cada uma e diferir pelas injustiças e pelos erros.
É unicamente em virtude de um raciocínio deste género que se admite que o consensus universal indica a verdade.
A verdade é una. A justiça é una. Os erros, as injustiças são indefinidamente variáveis. Por isso, os homens convergem no que é justo e verdadeiro, ao passo que a mentira e o crime os fazem indefinidamente divergir. Sendo a união uma força maternal, pode esperar-se encontrar nela um recurso para tornar aqui em baixo a verdade e a justiça materialmente mais fortes do que o crime e o erro.
Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos / Simone Weil. Lisboa : Antígona, 2017.
Imagem: © – View from the passage toward the exit – Hiroshi Sugimoto

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