quinta-feira, 9 de maio de 2019

Estante de leitura – política e verdade (I)

 "A ideia de partido não estava presente na concepção política francesa de 1789, a não ser como mal a evitar. Mas houve o Clube dos Jacobinos. De início, tratava-se apenas de um lugar de livre discussão. A transformação não se ficou a dever a nenhum tipo de mecanismo fatal: foi unicamente a pressão da guerra e da guilhotina que fez dele um partido totalitário. É, por um lado, a  herança do Terror, e por outro a influência do exemplo inglês, que instalou os partidos na vida pública europeia. O facto de existiram não é de modo nenhum motivo para os conservarmos. Apenas o bem é motivo legítimo de conservação. O mal dos partidos políticos salta aos olhos. O problema a ter em conta consiste em saber se há neles um bem que os faça  vencer o mal e torne desejável a sua existência. Mas é muito mais adequado perguntar: haverá neles próprios uma parcela infinitesimal de bem? Não serão eles o mal em estado puro ou quase? 

A democracia, o poder da maioria não são bens. São meios com vista ao bem, julgados eficazes com ou sem razão.  Só o que é justo é legítimo. O crime e a mentira em caso nenhum o são. (…) O nosso ideal republicano procede inteiramente do conceito de vontade geral que devemos a Rousseau. Mas o sentido do conceito perdeu-se quase logo de seguida, porque é complexo e exige um grau elevado de atenção. 
Rousseau partia de duas evidências. Uma, a de que a razão discerne e escolhe a justiça e a utilidade inocente, e que todo o crime tem por móbil a paixão. A outra, a de que a razão é idêntica em todos os homens, ao passo que as paixões, na maior parte das vezes, diferem. Por conseguinte, se cada um reflete sozinho e exprime uma opinião acerca de um problema geral, e se depois são comparadas as opiniões de cada qual, elas provavelmente irão coincidir na parte justa e razoável de cada uma e diferir pelas injustiças e pelos erros.
É unicamente em virtude de um raciocínio deste género que se admite que o consensus universal indica a verdade.
A verdade é una. A justiça é una. Os erros, as injustiças são indefinidamente variáveis. Por isso, os homens convergem no que é justo e verdadeiro, ao passo que a mentira e o crime os fazem indefinidamente divergir. Sendo a união uma força maternal, pode esperar-se encontrar nela um recurso para tornar aqui em baixo a verdade e a justiça materialmente mais fortes do que o crime e o erro.

Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos / Simone Weil. Lisboa : Antígona, 2017. 
Imagem: © – View from the passage toward the exit – Hiroshi Sugimoto

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