segunda-feira, 27 de maio de 2019

Estante de leitura – Princípio de Karenina

"A felicidade sempre foi um negócio e uma obsessão. Os filósofos, desde que existem, tentam mostrar-nos o caminho. Assim como os padres. E os monges. E os ditadores. (…) E os cientistas. E os nossos pais. Toda a gente quer encontrar a felicidade e, não sendo eles próprios felizes, pretendem enfiar a beatitude que não conquistaram pela goela dos outros. Quer um copo de água para empurrar? Pegam em discursos, em atos, em ramos de flores, em educação, em dinheiro, em poemas e canções e servem-nos o caminho para a felicidade.

Educam-nos com histórias que terminam com o singelo “foram felizes para sempre”. E não me refiro só à Bíblia, mas também aos contos e fadas e de príncipes e princesas. E a obsessão é tão grande que até aos aleijados como eu lhes é servida a esperança: o fantasma da ópera, o o corcunda de Notre-Dame, Cyrano de Bergerac,a Bela e O Monstro, Pinóquio, o sapo. Haja esperança para todos, incluindo batráquios que se tornam proeminentes membros da monarquia e se casam e, como quem se constipa, ficam com aquela doença do peito, o amor eterno. É que o amor corrige o mundo, mas também aleija muito. Nesse processo, há dor e alegria, mas não o estado de euforia permanente. As pessoas felizes são as pessoas que vivem a abanar a cauda. As pessoas felizes choram e temem e caem e magoam-se e gritam e esfolam os joelhos, porque a sua felicidade independe da roda da fortuna, do acaso, das circunstâncias.

Dito isto, e com a experiência e clarividência que fatalmente me contaminaram, sei exatamente qual é a fórmula da felicidade. Mas também sei que não adianta nada a ninguém. E basta olhar para o que acabei de escrever para encontrar a ignóbil contradição de estar vivo. Rejeito a felicidade para a poder conquistar. Abomino os negociantes de felicidade e tento, eu próprio, anunciar a sua fórmula. Como disse alguém: está consumado. Espero que aprendas a viver com as feridas que fazem de nós formas imperfeitas, famílias imperfeitas, diferentes, cada uma à sua maneira. Repara como é estranho, talvez belo, talvez perverso, que as nossas dores sejam eixos da memória e nos marquem indelevelmente, ao mesmo tempo que nos salvam a vida: assim como a minha deformidade me salvou da guerra, a minha morte salvou-te a vida. E, mais ainda, a minha morte salvou-me a vida.

Deformamo-nos uns aos outros. Como os dedos das mulheres no pátio da minha infância, os dedos dos pés encavalitados, moldados e seccionados uns pelos outros. Essas diferenças, essas máculas, essa carne amolgada podem não ser felicidade total, absoluta e perfeita. mas são uma riqueza muito maior do que ser um quadrado, perfeito na sua imobilidade e ausência de devir. Essas máculas são muitas vezes o resultado de um abraço demasiado apertado, de uma mão no bolso, de uma pequena mentira, de uma zanga entre amigos. Eu e tu deformámo-nos um ao outro para sempre, ou assim espero, na minha ingenuidade. Assim como a minha mãe me amava apesar da minha deformidade e, em certo sentido, amava a minha deformidade, porque me amava na minha diferença, também sei que me levantarás. Todos os anjos caídos serão levantados. A minha mãe foi perfeitamente capaz disso, com o seu sorriso virado para o teto. Sei que tu também o farás, olhar-te-ás ao espelho e passarás as mãos delicadamente pelas tuas dores e ficarás grata por elas. Jamais abdicarás de as ter: as imperfeições da felicidade, da infelicidade, dos círculos, dos desiquilibristas, dos dedos das mulheres do pátio da minha infância."

Princípio de Karenina / Afonso Cruz. – 1ª ed. – Lisboa : Companhia das Letras, 2018. 

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