domingo, 14 de julho de 2019

Estante de leitura – o nervo óptico

"A primeira vez que fui a mar del Plata era inverno e viajámos, eu, o meu namorado e dois amigos, numa carrinha Ford emprestada. Íamos surfar. Na realidade, eles é que iam surfar. Eu morria por fazê-lo, mas não reunia coragem suficiente. Limitava-me então a permanecer sentada atrás do volante, a tomar conta das mochilas e da aparelhagem. A metros da escarpa, ouvia repetidas vezes uma cassete dos The Doors, enrolava charros fininhos como agulhas de pinheiro e lia Eu visitei Gaminedes, um livro que encontrei no porta-luvas, enquanto via os rapazes passarem o dia na água; de longe, por entre a bruma, nos seus fatos pretos de neopreno, pareciam lobos-marinhos. 

Não sei bem como suportava aquelas horas mortas, talvez aguentasse porque era adolescente e vivia fora do tempo ou num tempo que tinha uma dimensão fora do comum. O meu único problema, nessa altura, era encaixar-me num ambiente que, de repente, me parecia como as botas dos alemães na 1.ª G. G.: não havia uma direita e uma esquerda, apenas um molde único e genérico que todos devíamos calçar. Creio que era por causa disso que não me importava de esperar. Sentada ali, naquela carrinha em frente ao mar, praticava, entre uma passa e outra, o meu próprio surf mental.

Não conheço ninguém que tenha querido ser escritor e não tenha dedicado alguma vez umas linhas ao mar. As que recordo sempre são, por qualquer misteriosa razão, todas de mulheres. Marguerite Duras: ”Não sei quase nada desde que cheguei ao mar.” Marina Tsvietáieva: “Não amo o mar, pois o mar não tem contraponto.” Sylvia Plath: “Arrastava o mar atrás de si como um obscuro crime.” (…) deixem-me contar-vos algumas coisas, aquilo a que se poderia chamar a minha história íntima com aquela porção de água.   
O meu primeiro grande amor sucedeu na adolescência e à primeira vista: apaixonei-me por uma paisagem marinha pintada por Courbet. Depois, quando soube que havia outra ao alcance de uma viagem de autocarro e a visitei, a paixão só se intensificou. O quadro chama-se Mar Tempestuoso e está no Museu Nacional de Belas-Artes. Mer Orageuse, em francês, e o arranhar de garganta que provocam as consoantes replica o rugir das ondas. Em primeiro plano, uma onda carregada de espuma quebra-se de encontro às rochas; no horizonte, a água e o ar misturam-se; mais acima, o céu cobre-se de nuvens rosadas. É uma pintura a óleo realizada em 1869 e mede quase um metro por um metro, o tamanho certo para se pendurar por cima da lareira, se eu tivesse uma. Que lindo é ver arder um fofo debaixo daquele mar! De cada vez que olho para o Mar Tempestuoso algo se aperta dentro de mim, é uma sensação de obstrução entre o peito e a traqueia, como uma leve dentada. E respeito muito essa pontada, presto-lhe atenção, porque o meu corpo chega sempre a conclusões antes da minha mente.  

Como pintor, Courbet era territorial, instintivo como um cão. Crescera perto da Cordilheira do Jura, numa zona chuvosa onde a água se infiltra na pedra calcária, nas escarpas, covas e vales, formando canais subterrâneos. O mar de Courbet encontra a sua textura nessa paisagem. A forma como o pintor usa a espátula é diabólica: passa uma escova de arame na tela, raspa o óleo como se quisesse marcar uma rocha. Mesmo com toda a sua pose e as suas tácticas para conquistar notoriedade, Courbet não deixa de regressar com frequência à região da sua infância. Pinta a água como um mineral fossilizado. uma malaquite partida ao meio. Penso no poder magnético que aquele quadro de Courbet exerce sobre mim. Há minerais que, ao serem expostos à luz ultravioleta, podem manter o seu fulgor durante dias; essa luminosidade que perdura chama-se fosforescência. O mar de Courbet fulgura na minha mente durante dias."

O Nervo Óptico / María Gainza. – 1ª ed. – Alfragide : D. Quixote, 2019. – 167, [1] p. ; 23 cm. – ISBN 978-972-20-6432-3

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