sábado, 13 de julho de 2019

Estante de leitura – O livro branco

"Na Primavera, quando decidi escrever sobre coisas brancas, aquilo que primeiro fiz foi uma lista. (…)
A passar de novo os olhos pela lista, decorridos alguns dias, comecei a interrogar-me sobre o significado da tarefa, esse labor de espreitar para o coração das palavras. Se fizesse passar estas palavras pelo meu crivo, sairiam frases tão arrepiantes como o grito singular e triste que o arco arranca de uma corda metálica. E conseguiria eu esconder-me entre essas frases, sob um véu de gaze branca? (…)

Há momentos em que o passar do tempo é de uma nitidez intensa. A dor física aguça sempre a percepção (…) Inspiro fundo e, de cada vez que o faço, forma-se um novo momento da minha vida, tão nítido como um pingo de sangue sobre uma superfície branca. Mesmo quando consigo por fim regressar ao fluir dos dias, e a esse movimento em que se voltam a misturar ininterruptamente uns com os outros, aquela sensação continua presente, naquele sítio exato, de respiração suspensa e à espera.  

Cada momento é um salto em frente, e impulsionamo-nos da beira de um penhasco invisível em direção aos contornos afiados dos dias, constantemente renovados. Levantamos os pés do terreno sólido que foi toda a vida que vivemos até ali e damos esse passo perigoso para o vazio. Não por qualquer ato de coragem em concreto, mas apenas porque não há outro caminho. Agora, neste preciso instante, sinto essa vibração vertiginosa a percorrer-me o corpo, o que coincide com o momento em que decido irrefletidamente avançar para um tempo que ainda não vivi, para este livro que ainda não está escrito."

O Livro Branco / Han Kang. – 1ª ed. – Alfragide : D. Quixote, 2019. 

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