quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Estante de leitura – O livro do silêncio

"São as primeiras horas do dia. É uma manhã de extraordinária radiância – por estranho que pareça, cá em cima praticamente não há vento. O silêncio é quase perfeito: alguns pássaros pequemos chilreiam de vez em quando e, há pouco, um par de corvos passou a esvoaçar, produzindo os seus habituais ruídos ásperos. É o primeiro dia de outubro, pelo que os maçaricos-reais e os ostraceiros já desceram até à linha costeira. (…) 

Estou sentada no degrau da frente da minha casinha, com uma chávena de café na mão, a olhar para baixo, para o vale, para a minha paisagem extraordinária de nada. É maravilhosa. (…) Na verdade, não é “nada” – são as formações das nuvens e os diferentes movimentos que o vento produz sobre os juncos, ervas, urze e fetos, além da mudança das cores, não apenas no decorrer do ano, mas ao longo do dia, enquanto o Sol e as nuvens se alternam e modificam -, mas, num outro sentido é o enorme nada que me atrai. Olho para ele e, como tenho menos coisas para observar, vejo melhor. Ouço o nada, e as suas melodias e ritmos silenciosos soam harmonicamente. A linha irregular do monte, com os postes de telégrafo e de eletricidade montados sobre ela, contém o silêncio, como se o encerrasse no interior de um recipiente, e abaixo de mim consigo ver umas faixas prateadas ocasionais e aparentemente desligadas, que constituem, de facto, o pequeno rio que serpenteia ao longo do vale.  
Há três minutos – é uma bênção, algo que não se pode pedir nem prever -, um milhafre passou em voo ao longo do regato, a não mais de vinte metros da porta. Não há muitas pessoas que tenham um milhafre no quintal, eles são relativamente raros na Grã-Bretanha, pois nas Terras Altas da Escócia vivem pouco mais de cem casais de milhafres. São aves ligeiramente mais pequenas e muito mais leves do que os bútios, e habitam em terrenos desolados. Os milhafres machos, se vistos a partir do solo, assemelham-se a fantasmas – completamente brancos, com excepção das cabeças cinzentas, mas têm as pontas das asas claramente negras. Caçam a baixa altitude e planam no ar, formando um V pouco acentuado com as asas; caçadores poderosos, belos, livres. Eles representam para mim o grande silêncio dos montes; eles acolheram-me nesse silêncio."

O livro do silêncio / Sara Maitland ; trad. Jorge Almeida e Pinho ; rev. Ayala Monteiro. – 1ª ed. – Alfragide : Estrela Polar, 2011. – 397, [3] p. ; 24 cm. – Tit. orig.: A book of Silence. – ISBN 978-989-8206-70-1

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