"A
linguagem, como em tempo a conhecemos, não só nomeia, mas também dá existência
à realidade: um ato conjuratório alcançado por intermédio das palavras e
daqueles relatos dos acontecimentos da realidade a que chamamos
histórias.
As histórias, afirmou Döblin, são o nosso modo de registar a nossa experiência do mundo, de nós próprios, dos outros. As histórias destilam a nossa aprendizagem e conferem-lhe forma, narrativa, para que através de variações de tom e de estilo e de episódios consigamos não esquecer o que aprendemos.
As histórias são a nossa memória, as bibliotecas são como que armazéns dessa memória, e a leitura é o labor através do qual podemos recriar essa mesma memória. Recitando-a e dando-lhe brilho, traduzindo-a para a nossa própria experiência, o que permite que nos ergamos sobre aquilo que as gerações anteriores consideraram digno de preservação. (…) Ler é um trabalho de memória que nos permite, através das histórias desfrutar das experiências passadas de outros, como se fosse nossa. Em certas condições, as histórias podem ser-nos úteis. Por vezes podem curar-nos, iluminar-nos e mostrar-nos o caminho. Sobretudo, podem recordar-nos a nossa condição, romper a aparência superficial das coisas e fazer-nos tomar consciência das correntes e profundezas que lhe subjazem. As histórias podem alimentar a nossa consciência, o que pode conduzir à nossa faculdade de conhecer, se não quem somos, pelo menos que somos, uma percepção essencial que se desenvolve por meio do confronto com a voz de outrem.
Se ser é ser percepcionado, então, conhecer o que somos requer o conhecimento dos outros a quem percepcionamos e que nos percepcionam. Poucos métodos são tão adequados a esta tarefa de percepção mútua, como contar histórias.
Imaginar histórias, contar histórias, escrever histórias – tudo isso são artes complementares que emprestam palavras ao nosso sentido da realidade e podem servir de aprendizagem, transmissão de memória, instrução ou advertência. Em anglo-saxão arcaico a palavra “poeta” era “criador”, termo que alia o significado da tessitura das palavras ao da construção do mundo material. Adão, na Bíblia, ao nomear as coisas conferiu-lhes existência. “As nossas palavras, concedem-nos um lugar tanto no espaço, como no tempo.”
Os criadores dão forma às coisas, fazendo-as existir, atribuindo-lhes uma identidade intrínseca. Imóveis num canto das suas oficinas e no entanto errando nas correntes do rosto da humanidade, os criadores refletem o mundo nas suas rupturas e mutações constantes e espelham em si mesmos as formas instáveis da nossa sociedade, tornando-se “pára-raios celestiais” (Rubén Darío), ao perguntarem ininterruptamente “quem somos” e ao oferecerem o espectro de uma resposta nos termos da própria pergunta."
A cidade das palavras / Alberto Manguel ; trad. Maria de Fátima Carmo ; rev. Rita Almeida Simões. – 1ª ed. – Lisboa : Gradiva, 2011. – 158, [3] p. ; 23 cm. – (Trajectos ; 87). – Tít. orig.: The city of words. – Bibliografia, p. 143-150. – ISBN 978-989-616-430-0

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