Peter identificara a mesma sensação nas páginas mais explícitas do seu diário. No fundo, eu simplesmente reescrevia o que à sua época ele havia escrito, e no entanto parecia-me perfeitamente condizente com Shey: ali nada andava para a frente ou para trás, mas em círculos. segundo o preceito do eterno retorno, ou da eterna reescrita. E não era de todo um movimento ocioso. Para os tibetanos, o girar das rodas, o nosso andar às voltas em em redor de muros, mosteiros e montanhas ativa as rezas inscritas no seu interior, assim como o badalo que acaricia a borda do sino o faz vibrar produzindo uma nota.
Tinha escutado em Catmandu o lá dos sinos tibetanos, capaz de ferver a água com a qual eram cheios. Se isto é verdadeiro, pensei, então de Shey parte uma única e potente nota para o universo: giravam os peregrinos em redor da Montanha de Cristal, girava o monge sorridente em redor do seu mosteiro, giravam os moinhos da farinha nas torrentes e giravam os pombos selvagens que revelavam, talvez, um celeiro escondido no gompa; giravam os escritores em redor do sentido de estarem ali. Quem viu alguma vez o monte Kailash do cume inviolado da Montanha de Cristal? Fechei o caderno. Nesse mesmo momento, só que quarenta anos antes, Peter fechou também o seu, no qual havia escrito: ”O segredo das montanhas é que elas existem simplesmente, como eu. e existem com simplicidade, não como eu. As montanhas não têm significado, elas são significado; as montanhas são. Eu ecco de vida, assim como as montanhas, e quando consigo ouvi-lo esse é um som que partilhamos.”
Mensagens, correio electrónico, alertas, chamadas perdidas. Bem-vindos ao deserto do real, pensei eu. Reentrávamos na rede, no mundo, no tempo, e sentia que aquele mundo sem tempo, o chá do monge no eremitério debruçado sobre o abismo, O Leopardo dobrado e marcado dentro da minha mochila perdiam já o seu sentido. Quem é que alguma viu o monte Kailash do cimo inviolado da Montanha de Cristal? Agora este meu Koan era somente uma frase feita boa para figurar numa camisola para ser vendida nos mercados de Catmandu.
“A lucidez da vida em Shey diminui rapidamente”, anotava Peter durante o caminho de regresso. Contudo, logo a seguir reconhecia a necessidade da perda: “Também a transparência pode constituir um impedimento, se nos agarrarmos demasiado a ela. Não devemos demorar-nos na Montanha de Cristal.”
O derradeiro limiar foi uma árvore, um cedro-do-himalaia coberto de pó e enrugado. Desde o lago Phoksundo que não os via e fiquei de tal modo impressionado que parei para desenhá-lo. Enquanto fazia o seu retrato, apercebi-me de que por cima do cedro, por detrás do Dhaulagiri, tinham surgido nuvens.
Nuvens! As nuvens e a árvore estavam ligadas entre si. Virei-me na direção da vertente na minha retaguarda, um salto de mais de mil metros que conduzia ao planalto. Já havia reparado nos barrancos de erva onde pastavam os carneiros-azuis. Os carneiros-azuis eram as sentinelas de Dolpa, o cedro e a nuvem, o seu derradeiro limiar. Lá em cima, em algum lado, estava o leopardo-das-neves, para me fazer recordar que nem tudo o que existe é visível aos olhos, que nem tudo é compreensível, que nem tudo podemos colher e levar conosco. “E neste não ver sou feliz”, escrevia Peter. Deixava para trás algo não visto e não tocado, mas tinha chegado tão próximo que podia sentir a sua presença. Eis o que se experimenta ao descer da montanha.»
Sem nunca chegar ao cimo, viagem aos Himalaias / Paolo Cognetti. Alfragide: D. Quixote, 2020.

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