«one by one the guests arrive
the open-hearted many
the guests are coming through (Leonard Cohen, “The Guests”).
As histórias vêm antes da literatura. Antes da palavra escrita, dos símbolos, do papel impresso, até mesmo antes das tábuas, as narrativas já cá estavam. E enquanto a primeira história tem a idade do primeiro movimento do mundo, a primeira história partilhada só pode ser contemporânea do primeiro homem. Seja qual for o seu nome ou até a sua proveniência, o que importa é que com ele começam as narrativas.
A partir da primeira experiência nasce a partilha, e da partilha nasce a comunidade. E embora seja impossível saber quando foi que o primeiro ser humano contou uma história a outro, supõe-se que a primeira troca de experiência tenha sido transmitida de maneira gestual. Um homem apontou ao outro um galho, uma corrente onde a água era mais fresca, ou até mesmo um animal ao longe. Com sorte, o primeiro gesto foi um toque – fazia frio no princípio do mundo, quem sabe se o homem inicial não colocou a mão sobre as costas do segundo homem para assim o proteger do vento. Logo depois, ou talvez antes, um apresentou ao outro o fogo.
Em volta do fogo sempre se contaram boas histórias. Basta que a labareda se levante para que o rol de narrativas comece a desenrolar-se. Mesmo sem palavras, o crepitar do lume já é só por si um contador de histórias. Imagine-se uma fogueira a arder sozinha, no mato, sem nenhum homem por testemunha: aquele ruído de madeira a queimar lenta, com os seus estalidos particulares, contém um dialeto específico, uma conversa, um linguajar antigo que vai contando as coisas devagar. Talvez seja por isso que, quando o homem se chega perto, acontece-lhe logo uma necessidade forte de dar continuidade à conversa. Perto do fogo as histórias nunca começam num ponto, elas apenas pegam num sinal qualquer que já lá estava. Junto ao fogo não há tempo, sem século, nem seque a hora fixa. Frente ao fogo, todos somos ouvintes.
Muito depois do átomo solitário a expandir-se, depois do levantar do fogo e das estrelas dissipadas, nasceu nalgum lugar um leito. Primeiro, quem sabe, feito de um molho de folhas estendidas no chão, ao relento. Mais tarde um tecido forte atado entre duas árvores, e mais tarde ainda a cama, construída a partir da madeira que um dia ardeu nas chamas, e que com certeza num outro dia voltará a arder. Sobre cada um desses leitos uma mulher ou um homem conta histórias. Por vezes um ao outro, outras vezes a si mesmos, em surdina. Ulisses regressa a Ítaca para se deitar na cama que ele mesmo esculpiu na oliveira, e só aí, em posição horizontal e de corpo despido, que Penélope o legitima por inteiro. Depois do reconhecimento, Ulisses baixa as armas e conta à sua mulher as peripécias da viagem.»
Flecha / Matilde Campilho. Lisboa: Tinta da China, 2020.

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