sábado, 16 de abril de 2022

Estante de leitura – Louvor da terra

«Eles são [as plantas e os animais] o que nós fomos: são o que havemos de tornar a ser. Fomos natureza como eles, e a nossa cultura deverá fazer-nos voltar à natureza pela via da razão e da liberdade.” (Friedrich Schiller)
“No jardim, vivo as estações muito mais interessantes. Assim é grande também o sofrimento em vista do inverno que se avizinha. A luz enfraquece, torna-se mais ténue e macilenta. Eu nunca prestar tanta atenção à luz. A luz mortiça é-me dolorosa. No jardim, as estações são sobretudo corporalmente percebidas. O frio gelado da água que sai do bidão que recebe a água da chuva penetra profundamente no corpo. Todavia, a dor que sinto assim é uma dor benéfica, chega até a ser reconfortante. Devolve-me a realidade, e a própria corporalidade, que hoje se perde cada vez mais no mundo digital bem temperado. Este mundo digital não conhece temperatura, dor nem corpo. Mas o jardim é rico em sensibilidade e materialidade. Contém muito mais mundo do que o ecrã do computador.
Desde que trabalho no jardim, percebo o tempo de modo diferente. Corre muito mais devagar. Dilata-se. Parece-me que falta quase uma eternidade até que chegue a próxima Primavera. A próxima queda outonal das folhas afasta-se até uma distância inconcebível. O próprio Verão me parece infinitamente longínquo. O Inverno começa já a tornar-se para mim terno. O trabalho no jardim invernal prolonga-o. O Inverno nunca foi para mim tão longo como no meu primeiro ano de jardineiro. Sofri muito por causa do frio e do gelo persistentes, mas não por mim, antes pelas flores de Inverno que mantinham a sua floração apesar da neve e do gelo constante. A minha maior preocupação eram as flores e, por isso, oferecia-lhes a minha assistência. O jardim afasta-me um passo mais do meu eu. Com o jardim vou aprendendo lentamente o que significa oferecer assistência, ter preocupação com os outros. O jardim tornou-se um lugar de amor.
O tempo do jardim é um tempo do diferente. O jardim tem o seu próprio tempo, do qual eu não posso dispor. Cada planta tem o seu próprio tempo específico. No jardim cruzam-se muitos tempos específicos. Os açafrões-de-outono e os açafrões-de-primavera parecem semelhantes, mas têm um sentido do tempo completamente diferente. É espantoso como cada planta tem uma consciência do tempo muito marcada, talvez maior do que a do homem, que hoje de certo modo se tornou atemporal, pobre de tempo. O jardim torna possível uma experiência temporal intensa. Durante o meu trabalho no jardim, enriqueci-me de tempo. O jardim para o qual se trabalha devolve muito Dá-me ser e tempo. A espera incerta, a paciência necessária, o crescimento lento, engendram um sentido especial do tempo. (…)
Na sua obra Amor e Conhecimento, Max Scheler refere que, “de uma forma estranha e misteriosa”, Santo Agostinho atribui às plantas a necessidade “de que os homens as contemplem, como se graças a um conhecimento do se ser que o amor guia experimentassem assim qualquer coisa de análogo À redenção”. O conhecimento não é um ganho, ou não o é pelo menos o meu ganho, nem a minha redenção, mas a redenção do diferente. O conhecimento é amor. O olhar amoroso, o conhecimento guiado pelo amor redime a flor da sua carência ontológica. O jardim é, portanto, um lugar de redenção.”
                                   Louvor da Terra / Byung-Chul Han: Lisboa. Relógio D´Água: 2020 

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