«Sonhava apenas com lugares e os leões nas praias. Brincavam quais gatos pequenos no escuro, e gostava deles como gostava do rapaz. Com o rapaz nunca sonhava. Acordou, olhou pela porta para a Lua, desenrolou as calças e enfiou-as. Urinou fora da choupana e foi estrada acima para acordar o rapaz. Tiritava de frio da manhã. Mas sabia que tiritaria até aquecer e que daí a pouco estava a remar. (…)
No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trémulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas. gostava muito dos peixes-voadores, seus diletos amigos no oceano. Dos pássaros tinha pena, em especial das andorinhas-do-mar, escuras, delicadas, pequenas, que andavam sempre a voar e a olhar e a quase nunca encontrar nada, e pensava: “As aves têm uma vida mais dura do que a nossa, à excepção das de rapina e das muito fortes. Porque há pássaros tão delicados e finos como essas andorinhas, quando o oceano pode ser tão cruel? É gentil e muito belo. Mas sabe ser tão cruel, e sê-lo tão de súbito, que tais pássaros que voam e mergulham à caça, com as suas vozinhas tristes, são demasiado delicados para o mar.” (…)
Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mar dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam boias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem, el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades, era porque não podia deixar de as fazer. “A Lua influi no mar como as mulheres”, pensava ele. (…)
As nuvens por cima de terra erguiam-se agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha verde com os montes azul-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro, tão escuro que era quase quase púrpura. ao olhar para o interior das águas via o vermelho peneirar do plâncton nas águas sombrias e a estranha luz que o Sol fazia. Observava as linhas, para vê-las sumir-se da vista pela água abaixo, e sentia-se feliz por ver tanto plâncton, o que significava peixe. A estranha luz do Sol nas águas, com o Sol já mais alto, queria dizer bom tempo, e o mesmo dizia a forma das nuvens sobre a terra. Mas o pássaro estava quase a perder-se ao longe, e nada aparecia à superfície das águas senão alguns sargaços amarelos e queimados do sol, e a purpurínea, pomposa, iridescente, gelatinosa vela de uma medusa flutuando junto do barco. Deitou-se se lado e depois endireitou-se. E flutuava consoladamente como uma bolha, com os seus longos e mortais filamentos cor de púrpura vogando um metro atrás na água. (…)
Já estava escuro, porque, em Setembro, escurece depressa, depois do sol-pôr. Encostado à madeira gasta, repousava quanto podia. as primeiras estrelas surgiam. Não sabia o nome da Rígel, mas via-a, e sabia que não tardariam a aparecer todas e que teria em breve todas as suas amigas distantes.
– Também o peixe é meu amigo – disse em voz alta. – Nunca vi nem ouvi falar de um peixe assim. Mas tenho de o matar. Agrada-me pensar que não temos de matar as estrelas.
“Ora imagina”, pensou, “que um homem devia todos os dias ver se matava a Lua. A lua foge. Mas imagina que um homem todos os dias teria de ver se matava o Sol? Nascemos com muita sorte.”
Sentiu depois pena do grande peixe, que nada tinha de comer, e a sua determinação em matá-lo não contrariava a pena que sentia. “A quantas pessoas dará de de comer?”, pensou. “Mas são elas dignas de o comer? Não, claro que não. Não há ninguém digno de o comer, tal é o seu comportamento, a sua grande dignidade.”
“Não compreendo estas coisas”, pensou. “Mas é bom que a gente não tenha de ver se mata o Sol, a Lua ou as estrelas. Basta vivermos no mar e matarmos os nosso verdadeiros irmãos.” (…)
Na treva, porém, sem clarão fulgindo, nem luzes, só com o vento e o firme impulso da vela, sentiu-se como se já estivesse morto. Juntou as mãos para sentir as palmas. Não estavam mortas, e era capaz de sentir a dor da vida, apenas com abri-las e fechá-las.”
O velho e o mar / Ernest Hemingway. Porto: Porto Editora: 2015

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