"Um pequeno riacho que nunca seca corre pelo curral abaixo, atrás do relvado, em semicírculo, límpido e frio. No Verão, os raios solares brincam na sua corrente alegre, e a ovelha está deitada mastigando nas margens com uma das patas dianteiras estendida em direção ao relvado. Em momentos como este o céu fica azul. Então, brilhantes raios de sol cintilam no lago dos cisnes e no rio das trutas que corre serenamente pelo prado, e o brejo e o prado emitem uma alegria contínua e silenciosa.
O vale está rodeado por espinhaços e charnecas. No lado ocidental existe um estreito espinhaço, e a quinta que lhe fica mais próxima é Útiraudsmýri ou Mýri, a residência oficial do governador, a quem tem pertencido até agora este vale pantanoso. Mais adiante estendem-se terrenos vastos e povoados. Pela charneca ocidental, onde está talhado um caminho que vai dar à vila situada no fiorde, estima-se que a jornada dum bando de cavalos com carga levará cinco horas. A sul erguem-se do vale charnecas baixas e onduladas que se vão elevando até que as Montanhas Azuis encerram o horizonte, e é como se as montanhas de fundissem com o céu numa elevada iluminação, onde raramente a neve desaparece antes do solstício de Verão. E o que existe para além das Montanhas Azuis? A paisagem desértica do país.
E as brisas primaveris sopram pelo vale.
E quando as brisas primaveris sopram pelo vale, quando o sol da Primavera brilha na relva amarela das margens do rio, e no lago, e nos dos dois cisnes brancos deste lago, e incita a erva a brotar dos solos húmidos, quem havia de acreditar que este sereno vale verdejante englobasse a história das nossas vidas passadas e dos seus espectros? Pessoas andam a cavalo por ambas as margens do rio, onde durante séculos cavalos de tempos passados pisaram caminhos num terreno extenso, e com o sol a brilhar a brisa fresca da Primavera sopra pelo vale adentro. Nestes dias o sol é mais forte que o passado.
A nova geração esquece os fantasmas que possam ter atormentado os antepassados. (…)
Da montanha corria o riacho, que pertencia à quinta, em linha recta para o curral, depois virava para leste num semicírculo pelo monte, para poder seguir o seu percurso até ao prado. Havia duas quedas de água à altura dos joelhos e dois poços com a mesma profundidade. No fundo havia pedregulhos, seixos e areia. O riacho corria em várias curvas. Cada curva tinha um tom específico, mas em nenhuma havia um tom sombrio; era um riacho alegre e amante da música como a juventude, com várias cordas tocava os seus acordes sem se preocupar com audiências, e despreocupado mesmo se ninguém o tivesse ouvido durante cem anos, como o verdadeiro poeta. (…) o homem estava apenas repleto do espírito da modernidade e decidido a ser um homem livre na sua própria terra, um homem independente como outras gerações que ali se instalaram antes dele. (…)
Esses homens não tinham espírito de subserviência e não se viam como parte dum grupo. Viviam por sua própria conta, a independência era a sua mais-valia, eram homens de empreendimento individual e citavam as sagas e as rimas caso estivessem a beber aguardente. Eram homens de combate, perseverantes, que não tinham medo de enfrentar quaisquer adversidades físicas, nem mesmo a de passar fome com as suas famílias durante as derradeiras semanas de Inverno. Mas também não eram homens materialistas, desprovidos de espiritualidade, tinham Deus nas suas barrigas; antes sabiam de cor muitos versos livres e alguns exigiam invulgar habilidade para serem recitados, uns e outros até conseguiam improvisar quadras que falavam dos vizinhos, ou das dificuldades pessoais, ou dos perigos da vida, da natureza, ou da esperança de que melhores dias viriam no céu, e, sim, até sobre o amor. Bjartur fazia parte desses poetas."
Halldór Laxness. (2013). Gente Independente. Lisboa: Cavalo de Ferro.

Sem comentários:
Enviar um comentário