E o tom de voz era tão convincente, tão meigo, que compreendi que ele poderia sentir-se infeliz. Pela noite dentro falámos do amor, das suas desventuras. Estas, aos olhos do meu pai, eram imaginárias. Recusava sistematicamente as noções de fidelidade, de gravidade, de compromisso. Explicava-me que eram arbitrárias, estéreis. Vindas de outra pessoa, tais afirmações ter-me-iam chocado. Mas eu sabia que no seu caso estavam presentes a ternura e a dedicação, sentimentos que manuseava tanto mais facilmente quanto os sabia, os queria provisórios. Esta conceção seduzia-me: amores breves, violentos e passageiros. Na minha idade, a fidelidade não cativava. Conhecia pouco do amor: encontros, beijos e desinteresse..” (…)
No dia seguinte de manhã, fui acordada por um raio de sol oblíquo e quente, que veio inundar a cama e pôr fim aos sonhos estranhos e um pouco confusos com que me debatia. Sonolenta, tentei afastar do rosto, com a mão, o calor insistente, mas acabei por desistir. Eram dez horas. Desci ao terraço, em pijama. Sentei-me tranquilamente num degrau da escada, com uma chávena de café e uma laranja e o sumo adocicado esguichava-me para a garganta, bebia um gole de café a escaldar e alternava este gesto com a frescura do fruto. O sol matinal aquecia-me o cabelo, desfazia as marcas que os lençóis me tinham deixado na pele. Já na praia avistei, no fundo do mar, uma linda rocha, cor-de-rosa e azul. Mergulhei, para a retirar, e guardei-a na palma da mão até ao almoço, muito lisa e gasta. Decidi que me daria felicidade, que a não abandonaria durante o Verão. Não sei porque a não perdi, já que perco tudo. Ainda hoje a tenho na mão, rosada e tépida. Sinto vontade de chorar. (…)
– Sim, custa-me muito – respondi [trocar a menina do pinhal pela de uma boa aluna]:
Disse – tão baixinho que eles não ouviram, ou não quiseram ouvir. No dia seguinte de manhã, dei comigo diante de uma frase de Bergson: precisei de alguns minutos para a compreender.: “Mesmo tendo em conta a heterogeneidade que possamos encontrar à partida entre os factos e a causa e embora não haja nenhuma regra de conduta para uma afirmação sobre o fundo das coisas, é sempre num contacto com o princípio gerador da espécie humana que sentimos crescer a força de amar a humanidade.” – Liberdade de pensar, de pensar mal e de pensar pouco, liberdade de escolher a minha própria vida, de me escolher a mim mesma. Não posso dizer “ser eu mesma”, pois mais não era do que uma pasta de moldar, mas apenas recusar os moldes.(…)
Só de madrugada, deitada na cama, ouvindo o ruído dos automóveis de Paris, a memória me trai, por vezes: revejo o Verão e todas as suas recordações. Anne, Anne! Repito esse nome, baixinho, no escuro. Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom Dia, Tristeza.”
Bom Dia, Tristeza / Françoise Sagan. Lisboa: Casa dos Ceifeiros: 2017

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