segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Estante de leitura – O Mundo de Ontem

“Criados no silêncio, no resguardo, na calma,
Lançam-nos então ao mundo, de repente; Banham-nos em cem mil vagas.

Tudo nos interessa, muito nos agrada,
Oscila a lama em leve agitação;
Sentimos, e o que temos sentido,
É levado pela corrente
Do colorido turbilhão do mundo.” (Goethe)

“Era tocante a confiança de cercar a vida com uma paliçada sem a menor brecha, evitando assim qualquer golpe do destino, enfermava, apesar de toda a solidez e humildade da conceção de vida, de uma grande e perigosa presunção. No seu idealismo liberal, o século XIX estava sinceramente convencido de se encontrar no caminho certo e infalível que levava ao “melhor de todos os mundos”. Era com desdém que se olhava para as épocas passadas, com as suas guerras, fomes e revoltas, como para um tempo em que a humanidade ainda era menor e insuficientemente esclarecida. agora, porém, era apenas uma questão de décadas até terem sido definitivamente ultrapassados os últimos vestígios do mal e da violência, e a crença no “progresso” ininterrupto, imparável, tinha para essa época a força de uma verdadeira religião; (…)

Hoje é fácil para nós, que há muito tempo riscámos a palavra “segurança” do nosso vocabulário, como sendo uma mera ilusão, sorrir perante a loucura otimista daquela geração cega pelo idealismo e para a qual o progresso da humanidade deveria ter como consequência necessária uma evolução moral igualmente rápida. Nós, que neste novo século [XX] aprendemos a já não nos surpreendermos com nenhuma erupção de bestialidade coletiva, nós, que a cada novo dia esperávamos perversidades ainda maiores do que as doa dia anterior, somos marcadamente mais céticos no respeitante à capacidade de educação do ser humano. Tivemos de dar razão a Freud que via a nossa cultura, a nossa civilização, apenas como uma fina camada em risco de poder ser perfurada, a qualquer momento, pelas forças destrutivas do mundo subterrâneo. Tivemos de nos habituar gradualmente a viver sem chão debaixo dos pés, sem justiça, sem liberdade, sem segurança. Há muito que recusámos, na nossa própria existência, a religião dos nossos pais, a sua crença numa elevação rápida e constante da humanidade; a nós, que cruelmente fomos ensinados, parece-nos banal esse otimismo precipitado perante uma catástrofe que, de uma assentada, nos faz recuar mil anos para lá de todos os avanços da humanidade. Mas mesmo sendo apenas só loucura aquela que nossos pais serviram, nem por isso deixou de ser maravilhosa e nobre, mais humana e mais fecunda do que as palavras de ordem de hoje (…) e consola-me a confiança, herdade de meus pais, de que, algum dia, esta recaída parecerá ter sido apenas um intervalo no eterno ritmo do avanço contínuo. (…)
Quando hoje penso nele [Rainer Maria Rilke], e em cada um dos m

estres que cinzelaram a palavra com uma sublime peça artística de ourivesaria, quando penso nesses nomes venerados que iluminaram a minha juventude como constelações inacessíveis, sou irresistivelmente assaltado pela pergunta nostálgica: será que tais poetas puros, exclusivamente dedicados às formas líricas, voltarão a ser possíveis na nossa época de turbulência e de perturbação geral.(…) aqueles poetas que nada cobiçavam da vida exterior, nem a simpatia das grandes massas, nem condecorações, ou dignidades, ou lucro, que a nada mais aspiravam do que a unir de forma perfeita estrofe com estrofe, num esforço silencioso, porém apaixonado, cada verso impregnado de música, luminoso nas cores, resplandecente de imagens? Eles constituíam uma guilda, uma ordem quase monástica no seio dos nossos ruidosos dias, eles, deliberadamente de costas voltadas para o quotidiano, eles, para quem nada no universo era mais importante do que o doce som que, apesar de tudo, conseguia sobreviver ao fragor da época, logo que uma rima, ajustando-se a outra, extravasava aquela emoção indescritível, mais leve do que o som de uma folha rodopiando ao vento e, contudo, capaz de tocar as almas mais distantes com as suas vibrações.

Mas como era enaltecedora para nós, jovens poetas, a presença desses homens fiéis a si próprios, como eram modelares estes servidores austeros e guardiões da língua, que só á palavra purificadora concediam o seu amor, à palavra que não tinha a ver com o tempo nem com o jornal, e sim com a durabilidade e com a perenidade (…) ; será que tais almas ainda serão possíveis nos tempo que correm, nas nossas formas de vida que expulsam criminosamente as pessoas do seu recolhimento interior como um incêndio florestal escorraça os animais dos seus esconderijos mais ocultos? (…)

Era sempre a mesma, a eterna corja de todos os tempos que chamava cobardes aos cautelosos, fracos aos mais humanos, e que depois ficava sem saber o que fazer na hora da catástrofe provocada pela sua imprudência. Era sempre a mesma corja, a mesma que escarneceu de Cassandra, em Troia, de Jeremias, em Jerusalém, e nunca consegui compreender tão bem o carácter trágico e a grandeza dessas figuras como nestas horas tão semelhantes às que elas viveram (…) fez com que muitas vezes me questionasse se não seria eu próprio o louco no meio de toda aquela gente com juízo, ou talvez apenas terrivelmente lúcido no meio da sua embriaguez. Sentia-me constantemente tentado a mostrar o endurecimento interior que qualquer forma de poder provoca no indivíduo, o empedernimento de ala que qualquer vitória provoca em povos inteiros, e a contrapor-lhes a força tumultuosa da derrota que rasga na alma dolorosos e terríveis sulcos. Em plena guerra, enquanto os outros, prematuramente triunfantes, ainda demonstravam uns aos outros a infalibilidade da vitória, já eu me lançava no abismo mais profundo da catástrofe e procurava o caminho ascencional. 

(…) quase parece vingança maldosa da natureza, que todas as conquistas da técnica, graças às quais o ser humano concentrou nas suas mãos os seus mais misteriosos poderes, lhe tenham destruído simultaneamente a alma. Não há pior maldição que a técnica tenha lançado sobre nós do que a de impedir a nossa fuga do presente, ainda que só por um instante. Em períodos de catástrofe, as gerações que nos precederam podiam refugiar-se na solidão e no isolamento; a nós, estava-nos reservado ter de saber e de sentir, na precisa hora e no preciso segundo, tudo o que acontece de mal em qualquer ponto do nosso globo; (…) em 1938 a consciência mundial ficou calada ou limitou-se a resmungar um pouco antes de esquecer e de perdoar. (…)

E eu sabia: de novo o passado se ia, de novo ficava reduzido a nada o que fora construído. (…) O sol brilhava em toda a sua força e plenitude. Ao regressar a casa, reparei de repente na minha própria sombra que me precedia, tal como via a sombra da guerra passada por trás da guerra presente. Durante todo este tempo, ela nunca mais saiu do meu lado, aquela sombra, pairando, dia e noite, sobre cada um dos meus pensamentos; talvez os seus escuros contornos apareçam também em algumas destas páginas. Mas, em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só quem tenha vivido a claridade e a escuridão, (…) a ascensão e a queda, só esse terá verdadeiramente vivido.”

O Mundo de Ontem – recordações de um europeu / Stefan Zweig. Lisboa: Assírio & Alvim, 2014.

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