domingo, 9 de dezembro de 2018

Uma Biblioteca imaginária

Uma Biblioteca é uma composição de todas as possibilidades, daquelas que de diferentes tempos sonhámos com tudo aquilo que era possível construir, a palavra e a linguagem, o conceito e a imagem. Biblioteca Imaginária, um espaço para construir um repositório de palavras, de imagens, de ideias à sombra de utopia humanas. Se a biblioteca é o melhor lugar do mundo, como construção de uma respiração individual, como lugar acima do tempo e do espaço, em cada um existe uma ideia imaginária do que cada um pode ser. Esta é a minha Biblioteca Imaginária, os espaços das palavras, as cores do que um dia cada homem ousou ser entre a face da verdade e o signo do belo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Gafia de coral

 
 
                                                              «Ia e vinha 
  e a cada coisa perguntava
                                                                                que nome tinha.»  (1)

Grafia de coral procura ser um elogio à leitura e um louvor aos livros. Nas palavras inventamos um conjunto de caminhos, a possibilidade de descobrir sinais que se possam fundir com as linhas do universo, as margens dos rios, os sinais coloridos dos oceanos e a paisagem nómada das nuvens. Só conhecemos o que nomeamos, o que soubermos definir como um som, um signo, ou uma grafia de algo que nos absorve no real, nos espanta na imaginação pelo que queremos apontar, como um jogo de criança em tardes de assombro. 
Grafia de coral procura ser um espaço para falar da leitura como processo cultural, como aprendizagem, como sublevação de interiores para a conquista de mundos desenhados na esperança, ou no tumulto de ondas nas janelas, como as que sopram em cada um, como um vento de dias brancos. O livro é a mais bela invenção da humanidade. Neles surgem os momentos épicos de uma canção que podemos cantar, como um espaço da memória. Eles guardam os sonhos sonhados pelos que vivem aqui ao nosso lado, e pelos que nas cortinas das sombras de tempos apagados ainda subsistem pela eternidade.
Grafia de coral procura ser um espaço para falar de uma divindade, onde ainda eles estão disponíveis para o nosso consolo, como um paraíso, nas palavras de Borges. Justamente as Bibliotecas e com elas outras dimensões do livro, as livrarias e as geografias da leitura. É apenas uma dedicação com e pelos livros e, como todas as que transportam uma energia são fruto do que se ama e do que porventura se perde nessa lucidez à procura de elementos de uma geografia diversa como a humanidade.
 
(1) "Coral" , in Obra Poética /  Sophia de Mello Breyner Andresen. Alfragide: Caminho, 2010.
 

sábado, 1 de dezembro de 2018

Estante de leitura – Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes

"A tua embriaguez é tão doce que me estonteia.

Respiras suavemente. Estás vivo. Gostaria de passar para o teu lado do mundo, de ver nos teus sonhos. Será que sonhas com um amor branco, frágil, distante, tão longe? Com uma infância, com um palácio perdido? Sei que lá não tenho lugar. Que nenhum de nós lá terá lugar. Estás fechado como uma concha. E, no entanto, fácil te seria abrires-te, uma minúscula fenda por onde a vida se precipitaria. Adivinho o teu destino. Permanecerás na luz, serás celebrado, serás rico. O teu nome imenso como uma fortaleza irá esconder-nos da tua sombra. Irá esquecer-se o que aqui viste. Esses instantes irão desaparecer. Até tu esquecerás a minha voz, o corpo que desejaste, os teus tremores, as tuas hesitações. Como eu gostaria de que algo conservasses disso. Que levasses contigo uma parte de mim. Que se transmitisse o meu país distante. Não uma vaga recordação, uma imagem, mas a energia de uma estrela, a sua vibração no escuro. Uma verdade. Sei que os homens são crianças que expulsam o seu desespero com a cólera, e o seu medo para o amor; ao vazio respondem construindo castelos e templos. Agarram-se a historietas, levam-nas à sua frente como estandartes; cada um faz sua uma história para se ligar à multidão que a partilha. São conquistados quando se lhes fala de batalhas, de reis, de elefantes e de seres maravilhosos; quando se lhes narra a felicidade que haverá para além da morte, a luz viva que presidiu ao seu nascimento, os anjos que giram à sua volta, os demónios que os ameaçam, e o amor, o amor, essa promessa de olvido e de saciedade. Fala-lhes de tudo isso e hão de amar-te; far-te-ão igual a um deus. Mas, pois que estás aqui encostado a mim, tu saberás, tu, um franco malcheiroso que o acaso trouxe para te pôr ao alcance das minhas mãos, saberás que tudo isso não passa de um véu perfumado que esconde a eterna dor da noite."

Mathias Énard. (2018). Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes. Alfragide: D. Quixote.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Estante de leitura – A ordem do dia

"O Sol é um astro frio. O seu coração, espinhos de gelo. A sua luz, sem perdão. Em fevereiro, as árvores estão mortas, o rio tornado pedra, como se a nascente não deitasse água e o mar não conseguisse engolir mais. O tempo imobiliza-se. De manhã, nem um ruído, nem o canto de um pássaro, nada mesmo. Depois, um automóvel, outro ainda, e de súbito passos, silhuetas que não se podem ver. O contra - regra bateu as três pancadas, mas o pano não se ergueu.

É uma segunda-feira, a cidade agita-se por detrás do ecrã de nevoeiro. As pessoas vão para o trabalho como nos outros dias, apanham o eléctrico, o autocarro, sobem para a imperial, e ficam a cismar ao frio. Mas o dia 20 de Fevereiro desse ano não foi uma data igual às outras. Contudo, a maioria passou a manhã em tarefas árduas, mergulhada nessa grande mentira decente do trabalho, com esses pequenos gestos em que se concentra uma verdade muda, decorosa, na qual toda a epopeia da nossa existência se resume a uma pantomina diligente. (…)

A literatura autoriza tudo, diz-se. Poderia, por conseguinte, fazê-los rodar indefinidamente na escada de Penrose, sem que pudessem nunca mais subir ou descer, obrigados a fazer ao mesmo tempo uma e outra coisa. E, na verdade, é um pouco esse o efeito que os livros têm sobre nós. O tempo das palavras, compacto ou líquido, impenetrável ou cheio de pormenores, denso, alongado, granuloso, petrifica os movimentos, imobiliza todos os que se confrontam com ele. As nossas personagens entraram no palacete para todo o sempre, como num castelo enfeitiçado. (…)
“E agora, meus senhores, é passar à caixa!” 
Este convite, decerto um pouco desenvolto, não representava nada muito novo para aqueles homens; estavam habituados às luvas e aos pagamentos por baixo da mesa. A corrupção é uma rubrica incompreensível do orçamento das grandes empresas, a que se dá vários nomes, lobbying, prendas, financiamento dos partidos. A maioria dos convidados fez pois de imediato entrega de algumas centenas de milhares de marcos. Gustav Krupp doou um milhão, Geor von Schnitzler quatrocentos mil, tendo-se assim apurado uma soma nada desprezível. Esta reunião de 20 de Fevereiro de 1933, na qual se poderia ver um momento único na história patronal, um compromisso inaudito com os nazis, nada mais é para os Krupp, os Opel, os Siemens que um episódio bastante vulgar da vida dos negócios, uma banal recolha de fundos. Todos eles sobreviverão ao regime e financiarão no futuro um sem-número de partidos, em função das suas performances.
Assim, os vinte e quatro não se chamam nem Schnitzler, nem Witzleben, nem Schmitt, nem Finck, nem Rosterg, nem Heubel, como os seus cartões de identidade nos fazem crer. Chamam-se BASF, Bayer, Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz, Telekunken. Por estes nomes conhecemo-los. Conhecemo-los até muito bem. Estão aí, no meio de nós. São os nossos carros, as nossas máquinas de lavar, os nossos produtos de limpeza, os nossos despertadores, o seguro de casa, a pilha do relógio. Estão aí, em toda a parte, sob a forma de coisas. O nosso quotidiano pertence-lhes. Cuidam de nós, vestem-nos, iluminam-nos, transportam-nos pelas estradas do mundo, embalam-nos. E os vinte e quatro homens presentes no palacete do presidente do Reichstag, nesse 20 de Fevereiro, são apenas os seus mandatários, o clero da grande indústria; os sacerdotes de Path. Mantêm-se aí impassíveis, como vinte e quatro máquinas de calcular às portas do Inferno.
No fundo, a moda não mudou. Daí a algum tempo, em vez da Insígnia de Ouro, alguns usarão com orgulho a Cruz Federal do Mérito, como entre nós se usa a Legião de Honra. Os regimes celebram-nos da mesma maneira. Vejamo-los à espera, naquele dia 20 de fevereiro, com um ar grave, razoável, enquanto o diabo passa mesmo atrás deles, na ponta dos pés. Conversam entre si; o seu pequeno consistório é perfeitamente semelhante a centenas de outros. Não acreditemos que tudo isso pertença a um passado distante. Não se trata de monstros antediluvianos, de criaturas desaparecidas miseravelmente nos anos cinquenta, por sob a miséria pintada por Rossellini, arrastados no meio das ruínas de Berlim. Estes nomes continuam a existir. (…)
Não se cai nunca duas vezes no mesmo abismo. Mas cai-se sempre da mesma forma, como uma mistura de ridículo e pavor. E deseja-se tanto não voltar a cair, que se resiste, se grita. Partem-nos os dedos aos pontapés, os dentes, com  bicadas, roem-nos os olhos. O abismo está rodeado de moradas imponentes. E a História ali está, deusa razoável, estátua imóvel no meio da praça das Festividades, recebendo por tributo, uma vez por ano, ramos secos de peónias e, à laia, de espórtula, em cada dia, um pouco de pão para os pássaros.

Éric Vuillard. (2018). A ordem do dia. Lisboa: D. Quixote.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Estante de leitura – Irmão de Gelo

"Todos os meses, tudo o que não pudemos comprar e que não compraremos nos meses seguintes vai para algum lugar, ali por baixo do gelo. Os amores platónicos formam cristais e também ficam sepultados por baixo da neve. Estes desejos insatisfeitos quando são muitos, formam gretas que aparecem na testa. Às vezes o gelo faz-nos escorregar e cair em gretas mais profundas. Ao fim de muito tempo, o degelo pode fazer emergir tudo o que foi sepultado; como os manuais nas planícies siberianas no Verão, os restos estão húmidos e cheiram mal. Então já não os queremos. Pensamos que também não valia a pena. Que era deitar dinheiro fora ou que aquele amor pelo outro não era merecido.

Os desejos congelados de quando não se tem dinheiro ou não se é correspondido são diferentes daqueles que congelamos porque renunciamos a eles. Estes últimos têm o brilho de uma heroicidade estoica. Porém, se renunciamos aos desejos é porque temos medo e passámos a vida cegos, sem nada sentirmos ou vermos… Por outro lado, se lhes  obedecermos sempre podemos acabar perdidos. O que converte Ulisses em herói é que renuncia e não renuncia. É prudente sem se privar do desejo ao permitir-se ouvir o canto das sereias. (…)
Não sei se espere que a ferida cicatrize ou simplesmente tire umas férias mentais. Seria bom estar mais alegre.
No entanto, excluindo as patologias graves, tenho a sensação de que muitas pessoas tomam comprimidos para suportar situações das quais com frequência não são totalmente responsáveis ou, no mínimo, trata-se de uma responsabilidade coletiva, social. Como estar preso num emprego alienante do qual não se pode sair, ou num desemprego do qual não se pode sair, ou numa família da qual não se pode sair, ou num presente sem futuro, ou ter sido traído, ou despedido… Estes comprimidos que nos poupam a dor talvez também evitem o colapso do sistema. Evitam que as pessoas saiam à rua e peçam ajuda e exijam responsabilidades, que haja conflitos, mas também talvez soluções. Porque, a partir do momento em que pedimos aos outros que sorriam, que estejam alegres, que virem a página, que tomem comprimidos, que keep calm de merda, somos cúmplices da situação. Não os vou tomar. (…)
Como tornar visível o invisível é uma pergunta pouco frequente para um explorador e muito frequente para um artista. Que num dado momento da história toda uma nação tivesse de formular esta pergunta, é um marco para a arte. Os extremos entre os quais se criou esta imagem – o da terra, o do esforço, o do clima e o do invisível (branco) – sublinham pela via negativa a natureza profundamente fictícia do documento: gesto e paisagem são pura cenografia. Poderiam ter-se encontrado no jardim coberto de neve da sua casa. E é aí que subjaz o fascínio que sinto por esta imagem: documenta uma pura abstração, um lugar triplamente invisível – um ponto geográfico extremo baseado num cálculo – e outro que também não existe – a conquista de um lugar móvel – sobre um fundo branco, imperceptível do ponto de vista fotográfico. A capacidade de sintetizar estas diversas camadas de abstração num único nível é a essência do “tornar visível o invisível”. A conquista não é isso?
A arte não é isso?
Três amigos a brincarem num jardim coberto de neve.

Alicia Kopf, Irmão de Gelo. Lisboa: Penguin Random House, 2018.

Estante de leitura – Atlas

"Não há um só homem que não seja um descobridor. Começa por descobrir o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores cores do arco-íris e as vinte e tal letras do alfabeto; passa pelos rostos, os mapas, os animais e os astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da sua própria ignorância. (…) o achado dos sons, de idiomas, de crepúsculos, de cidades, de jardins e de pessoas, sempre diferentes e únicas. Estas páginas desejariam ser monumentos dessa longa aventura que continua.
(…)
O que é um atlas para nós, Borges?
Um pretexto para entretecer na urdidura do tempo os nossos sonhos feitos da alma do mundo.
Antes de uma viagem, com os olhos fechados, com as mãos unidas, abríamos ao acaso o atlas e deixávamos que as polpas dos nossos dedos adivinhassem o impossível, a aspereza das montanhas, a limpidez do mar, a mágica proteção das ilhas. A realidade era um palimpsesto da literatura, da arte e das recordações da nossa infância, tão semelhante na sua solidão.
Roma será para mim a sua voz recitando as elegias de Goethe, e Veneza será para si o que eu lhe transmiti num fim de tarde, em São Marcos, ao escutar um concerto. Paris será você em miúdo, teimoso, fechado num hotel a comer chocolates enquanto lia Hugo, a sua maneira de descobrir Paris; para mim, as nossas lágrimas quando vi no cimo da escadaria do Louvre a Vitória de Samotrácia, essa estátua sobre o qual o meu pai me ensinou a beleza. A beleza era a harmonia materializada, era ter conseguido o impossível, deter a brisa do mar no movimento das dobras da túnica para a eternidade. O deserto foi a batalha de Ondurmán e Lawrence e a música do silêncio, até àquela noite em que, junto às pirâmides, você me ofereceu um império de palavras, “modificou o deserto” e me revelou que a Lua era o meu espelho. (…)
O tempo era côncavo e protetor para nós, entrávamos nele como Ódin e Beppo, os nossos gatos, nos cestos e nos armários, com a mesma inocência e a mesma ávida curiosidade para descobrir mistérios."

                               Jorge Luís Borges. (2017). Atlas. Lisboa: Quetzal, páginas 7, 8, 113 e 114. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Estante de leitura – Criação (IX)

"Lavo as feridas com álcool. Ao balcão de um café de má fama, no coração movimentado da cidade. Paredes sujas. Ar rarefeito. Corpos pelo chão. Cheiro a gordura e a alho. Luz baixa. Murmúrios que também são silêncios. Uma televisão muda. Prateleiras de pó com garrafas para consumo no estabelecimento. Corpos no chão. Os corpos dos eus que me matei.

Sou um não abrigo. Já ninguém mora em mim. Sou agora um edifício devoluto. Portas e janelas vedadas com cimento. Ninguém mais entra. Não me crio mais ninguém. Tenho sangue nas mãos. Tenho sangue e cimento nas mãos.
A cidade invadida pelo motim das gentes de mim. Cruel e vil população. Monstro de mil cabeças e vontades. Ditando a revolta. Decretando liberdades. Impondo-me destruição. Se era para matar, matei. Venci. Extingui-me. Auto genocídio. Criei e matei em dias contados pelos dedos de duas mãos. Antes destruir-nos que ver-nos partir de mim.
Lá fora, do lado de fora, consegue-se ouvir as vozes do contentamento. Lá fora, do lado de fora, consegue-se ouvir a devastação. Cá dentro, no meu lado de dentro, já tenho a paz e o júbilo do meu próprio caos. Desfruto do prazer banal do vinho-sangue. A sede é um incêndio.
Abdico das minhas magras competências para deus. Não me servem as peles de herói. Não me servem as vestes de herói sensato. Esqueci-me do saber em alguma paisagem distante. A glória é um horizonte sem lugar.
O mais difícil sempre foi escolher o eu certo para o amanhã certo.
Quem deveria acordar no dia seguinte. Para não matar e para não morrer. O mais difícil foi acertar. Decidir sem culpas. Sem despistes. Manter a obediência às expectativas. Rodar o tambor, premir o gatinho e calhar na câmara vazia. Para não matar. Para não morrer.
Após a ambição. Após a descontrolada multiplicação. Após a metamorfose. Depois da urgência. Depois de amar. Depois dos sentidos em turbilhão. Depois de cair. Depois de criar raízes. Depois de arrancar raízes. Apenas o deixar de querer. Desapego. Tédio. Abandono. Amnésia.
Melhor não acordar no fim. Cumprir pena. Viver um sono eterno. Deixa-me ser aqui.
Melhor não acordar no fim."

Armanda Azevedo, “Dia 9 – Todos os dias seguintes”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – daniel-ablitt-heart-of-the-forest