quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Estante de leitura – Um mundo iluminado

"Sem a forma extática do sagrado o nosso mundo seria um lugar mais pobre. Afinal de contas, as multidões podem erguer-se em uníssono para mudar, de formas positivas, o estado de espírito de uma cultura; sem o fenómeno da physis, as mudanças tão radicais de paradigma nunca teriam lugar. Precisamos, portanto, de descobrir uma maneira de nos apropriarmos sabiamente do fenómeno da physis, de realçar os melhores aspectos desta forma de sagrado. Não podemos contentar-nos com a abordagem, segura mas preguiçosa, de pura e simples rejeição da physis. É necessária uma nova coragem para seguir esta via. No lugar da coragem kantiana de resistir à loucura das multidões, precisamos colocar a coragem de nos embrenharmos nisso a fim de o experimentarmos. (…) a physis, a poiesis e a tecnologia revelam-nos, respectivamente, um sagrado extático e selvagem que nos ergue como uma onda; um estilo delicado e atencioso que revela os melhores e mais sagrados aspectos das coisas; e uma forma de vida autónoma e autosuficiente que se ri de tudo quanto tenha valor sagado. (…)

Não há uma razão pela qual devamos escutar ou responder à chamada dos deuses: os apelos exigem apenas ser ouvidos e obedecidos. Nós, na nossa cultura, estamos a ser chamados a cultivarmo-nos enquanto seres sensíveis àquilo que somos chamados a fazer. O apelo está aí, e aqueles que são suficientemente à cultura e à sua rica herança irão escutá-lo. Mas, a nossa concentração em nós mesmos enquanto seres isolados e autónomos teve o efeito de banir os deuses – ou seja, de encobrir, ou bloquear, a nossa sensibilidade, mas, como os pecadores de Dante, fechámo-nos, dizendo a nós mesmos que deveríamos ser autosuficientes.

Enquanto sujeitos autónomos, fechámo-nos ao apelo dos deuses e é neste sentido que os banimos. Martin Buber fala do eclipse de Deus, Beckett sobre a nossa espera do seu regresso. Outros falam da ausência de Deus, da sua fuga ou morte. Acontece que os deuses não se retiraram nem nos abandonaram: fomos nós quem os expulsou. Eles aguardam, entristecidos, que ouçamos o seu apelo. Não perguntes por que razão os deuses te abandonaram, mas sim por que razão abandonaste os deuses.
O mundo dos gregos de Homero, intenso e pleno de sentido, brilhava com uma evidente força sagrada. O nosso mundo tecnológico parece, por comparação, empobrecido e insípido. Não podemos regressar ao mundo de Homero, nem deveríamos esperar fazê-lo. Mas podemos tornar-nos receptivos a um panteão de deuses moderno – ao modo como brilham Gehrig e Federer, ao modo como Marylin Monroe ou Albert Einstein mudaram a maneira como vemos o mundo em que vivemos. E podemos igualmente atrair o regresso dos deuses antigos, as grandes obras que já foram veneradas e podem agora ser vividas uma vez mais no seu valor sagrado. Fazer isto requer mais do que a simples canonização dessas obras em listas de leitura obrigatória e em programas escolares. Requer o desenvolvimento de competências para responder aso múltiplos sentidos do sagrado que permanecem, ignorados, nas margens do nosso mundo desencantado.

Essas noções do sagrado são mais ricas e variadas do que tudo quanto Homero conheceu. Os deuses gregos tinham semelhanças de família, tinham algo em comum: rumorejavam como uma onda e arrastavam as pessoas durante algum tempo, perdendo poder de seguida e libertando a sua presa. Este sentido do sagrado enquanto physis ainda está ao nossa alcance nas margens da cultura de hoje, mas não é o único género de sagrado aberto para nós.
Além da physis, temos igualmente uma concepção poiética do sagrado completamente ausente na época de Homero, um sentido de ser capaz de cultivar o mundo, de desenvolver as competências necessárias para o fazer sobressair no seu melhor pleno de luz. Este sentimento poiético do sagrado tem muitas formas. Quer se trate da convicção de Jesus de que o mundo é mais bem revelado por meio da luz do se Sentimento de amor ágape, ou da convicção de Dante de que podemos aprender conosco mesmos a capacidade de sermos receptivos ao amor que move o Sol e as outras estrelas; quer se trate da convicção de Ésquilo de que podemos fazer sobressair a cultura mediante a descoberta de um lugar adequado para todas as suas forças nascentes, ou ainda da convicção de Stuart de que podemos habitar um mundo natural de valor sagrado, todas estas descrições poiéticas do sagrado são delicadas e criadoras de uma maneira inteiramente estranha ao mundo de Homero. 
E além de todas estas descrições do sagrado, temos ainda uma concepção tecnológica do mundo, uma compreensão das coisas eficiente e plena de recursos que nos permite produzir e controlar o que nos rodeia. O mundo, por vezes, também é assim – não sagrado e destituído de valor intrínseco, pronto a ser moldado em função dos nossos desejos e da nossa vontade. (…) Só agora libertados das antigas tentações do monoteísmo, podemos encontrar no mundo contemporâneo um lugar para cada uma destas formas de ser. (….) Este mundo contemporâneo será um lugar maravilhoso de coisas sagradas e plenas de luz."

Um mundo iluminado: uma leitura dos clássicos ocidentais em busca de um sentido para uma era secular. Hubert Dreyfus, Sean Dorrance kelly ; Alfragide : Lua de Papel, 2011. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Estante de leitura – Entre o céu e a terra

 "1.

“Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável.”

3.
“Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever, a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro.”

9.
“A arte será sempre a fricção entre o mundo interior e o mundo exterior. A capacidade de transformar esse conflito numa forma possível é o trabalho dos artistas e dos poetas. Mas esse trabalho tem de ser feito segundo os valores mais antigos e eternos: “bravura, nobreza e entrega”. Que ninguém se iluda, os covardes não têm acesso à Beleza.”

13.
“O Mundo dentro de uma gota de água. Uma casa, um jardim, uma montanha ao longe, tudo no interior de uma gota de água. Uma floresta dentro de uma catedral reconstruida até ao infinito. Escondo-me de mim próprio, procuro a beleza e a sabedoria.”

18.
“A arte foi sempre religiosa. No fundo, não era necessário conhecer a verdade, era preciso amar e acreditar: a fé era o conhecimento. Sem esse espaço de silêncio e sem essa sacralização das palavras e dos gestos torna-se mais difícil acontecer a sublime mentira da arte. E assim será sempre, desde o princípio do mundo até ao fim do mundo.”

25.
“A cor é memória, não pode ser utilizada de forma emotiva ou emocional. O negro baço é a cor do luto por não podermos ser melhores, por não merecermos ser melhores do que somos. O negro baço, neutro, vazio absorve a luz (em vez de a reflectir). Como Ad Reinhardt aprendeu com Hokusai, existem diversos tipos de negro: negro velho, negro novo, negro luminoso, negro baço, negro à luz do sol, negro na sombra… Todas as pinturas negras procuram a intemporalidade estática da forma e todas procuram absorver-nos no insondável mistério das sombras que adivinhamos querer envolver-nos, fechar-nos os olhos. Por vezes é uma experiência religiosa de esvaziamento e recomeço.”

40.
“A arte tem de ser uma declaração de amor. Tem de possuir, de cada vez que a visitamos, a emoção e o deslumbramento do primeiro olhar: a revelação, a emoção, a expectativa, a comunhão e a transformação, infinitamente.”

42.
“Não é a escultura, o desenho, a pintura, a fotografia… é a alma. A arte é o duro trabalho da nossa alma. A história da alma de um artista é dura, difícil, por vezes desagradável e custosa. Mas do lado de lá, do outro lado, onde se encontram todos os nossos demónios e onde já estamos para além de tudo, encontramos, a única geometria possível, a mais cristalina, parecida com a que rege os astros que rodeiam a bela lua. Aí construímos flores de aço e observamos, maravilhados, a transparência da chuva velando as suas pétalas metálicas.”

Rui Chafes. (2014). Entre o céu e a terra. Lisboa: Documenta.

Estante de leitura – Entre o céu e a terra

 1.

“Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável.”

3.
“Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever, a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro.”

9.
“A arte será sempre a fricção entre o mundo interior e o mundo exterior. A capacidade de transformar esse conflito numa forma possível é o trabalho dos artistas e dos poetas. Mas esse trabalho tem de ser feito segundo os valores mais antigos e eternos: “bravura, nobreza e entrega”. Que ninguém se iluda, os covardes não têm acesso à Beleza.”

13.
“O Mundo dentro de uma gota de água. Uma casa, um jardim, uma montanha ao longe, tudo no interior de uma gota de água. Uma floresta dentro de uma catedral reconstruida até ao infinito. Escondo-me de mim próprio, procuro a beleza e a sabedoria.”

18.
“A arte foi sempre religiosa. No fundo, não era necessário conhecer a verdade, era preciso amar e acreditar: a fé era o conhecimento. Sem esse espaço de silêncio e sem essa sacralização das palavras e dos gestos torna-se mais difícil acontecer a sublime mentira da arte. E assim será sempre, desde o princípio do mundo até ao fim do mundo.”

25.
“A cor é memória, não pode ser utilizada de forma emotiva ou emocional. O negro baço é a cor do luto por não podermos ser melhores, por não merecermos ser melhores do que somos. O negro baço, neutro, vazio absorve a luz (em vez de a refletir). Como Ad Reinhardt aprendeu com Hokusai, existem diversos tipos de negro: negro velho, negro novo, negro luminoso, negro baço, negro à luz do sol, negro na sombra… Todas as pinturas negras procuram a intemporalidade estática da forma e todas procuram absorver-nos no insondável mistério das sombras que adivinhamos querer envolver-nos, fechar-nos os olhos. Por vezes é uma experiência religiosa de esvaziamento e recomeço.”

40.
“A arte tem de ser uma declaração de amor. Tem de possuir, de cada vez que a visitamos, a emoção e o deslumbramento do primeiro olhar: a revelação, a emoção, a expectativa, a comunhão e a transformação, infinitamente.”

42.
“Não é a escultura, o desenho, a pintura, a fotografia… é a alma. A arte é o duro trabalho da nossa alma. A história da alma de um artista é dura, difícil, por vezes desagradável e custosa. Mas do lado de lá, do outro lado, onde se encontram todos os nossos demónios e onde já estamos para além de tudo, encontramos, a única geometria possível, a mais cristalina, parecida com a que rege os astros que rodeiam a bela lua. Aí construímos flores de aço e observamos, maravilhados, a transparência da chuva velando as suas pétalas metálicas.”

Rui Chafes. (2014). Entre o céu e a terra. Lisboa: Documenta.

sábado, 25 de novembro de 2017

Estante de leitura – Haja Luz!

"O século XVIII, sendo fundamentalmente o século da codificação e organização foi também, paradoxalmente, o século das liberdades – individuais, políticas e sexuais. Foi ainda o tempo das mais importantes revoluções de sempre: a Revolução Americana (1775 – 1781) que levou à independência dos Estados Unidos da América, e a Revolução Francesa (1787 – 1799), com o seu slogan de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O grito da liberdade generalizou-se – até o Don Giovani (1787) de Mozart canta “Viva la libertá!”. Curiosamente, a diferença entre a Europa e a América manifestou-se logo à nascença desta última. Ao contrário do que aconteceu com a Revolução Francesa (ou a Russa, 130 anos mais tarde), a Americana não conheceu o Terror ou as Grandes Purgas. Por isso, apesar do apelido, os Du Points foram mais americanos que franceses! 

Inspirada no texto da constituição de certos estados americanos (como a Virgínia), a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada pela Assembleia Constituinte da França e aceite pelo Rei Louis XVI em 1789. Aí se consagrava a separação dos poderes (legislativo, executivo e judicial), que tinha sido primeiramente enunciada por Montesquieu no seu famoso Do Espírito das Leis (1748). Os outros pilares ideológicos da Declaração eram a doutrina dos direitos naturais desenvolvida pelo filósofo inglês John Locke e  os conceitos de vontade colectiva e soberania da nação que vinham de Rousseau. É nessa declaração que se define Liberdade como “o direito de fazer tudo o que não prejudique os outros”. Na mesma altura, o panfletista humanitário, Thomas Paine, inglês de nascimento, mas cidadão do mundo, publicou o seminal Direitos do Homem (em duas partes, 1791, 1792), em resposta às Reflexões sobre a Revolução em França (1790) de Edmund Burke, o teorizador do Sublime e do Belo, e sujeito claramente hostil à Revolução Francesa.
O Homem Sensível e  Homem Político nasceram, de facto, no século XVIII. Simultaneamente emergiu a figura do cidadão e do indivíduo. Somos todos iguais em direitos, mas cada um de nós é um ser único e especial, um indivíduo ( a que se juntam as suas circunstâncias). A importância do indivíduo em relação à classe teve reflexos em artes tão diversas como a música e a literatura. Por exemplo, no desenvolvimento do concerto para solista (piano, violino, flauta, etc.) e orquestra, onde se assiste à afirmação gradual do indivíduo perante a massa sinfónica. O solista passa a ter direito a uma cadenza, isto é, a apoder improvisar, sozinho, ao piano (ou com o violino, a flauta, etc.); a orquestra, entretnto emudece para ouvir a voz individual do intérprete. A conscencialização do indivíduo também deu origem ao personagem de ficção, isto é, possibilitou a criação do romance moderno, até aí confinado ao género espistolar ou, o teatro, construído com figuras-tipo, máscaras ou marionetas."

Jorge Calado. (2015). Haja Luz; uma história da química através de tudo. Lisboa. Instituto Superior Técnico Press.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Estante de leitura – Cuidar dos vivos

"O coração? Marianne volta a perguntar. Sim, o coração repete Thomas. O coração de Simon. Marianne está aturdida. O coração de Simon – ilhotas de células sanguíneas confluem num pequeno saco para formar a rede vascular inicial do 17º dia, a bomba arranca ao 21º dia, o sangue escoa-se pelos canais em formação, inundando tecidos, veias, tubos e artérias, constituem-se as 4 cavidades, o conjunto bem articulado ao quinquagésimo dia, ainda que inacabado. O coração de Simon – um abdómen em bola que se ergue docemente no fundo de um  berço; o pássaro dos terrores noturnos  enlouquecido num peito de criança; o tambor stacrato parado no destino de Anakin Skywalker; o fogo debaixo da pele quando a 1ª onda se eleva – toca-me nestes peitorais dissera-lhe ele numa noite, músculos contraídos, caretas de macaco, tinha 14 anos e no olhar o clarão novo do rapaz que toma consciência do seu corpo, toca-me nestes peitorais, mamã -; a perturbação diastólica quando os seus olhos captam Juliette na paragem de autocarro na avenida Maritime, uma t-shirt comprida às riscas, doc Martens e impermeável vermelho, pasta de desenhos debaixo do braço; a falta de ar ao ver o papel pardo na noite de Natal, a prancha de surf desembrulhada no meio do barracão gelado, o embrulho rasgado com aquela mistura de meticulosidade e arrebatamento, como quem abre o envelope de uma mensagem de amor. O coração, portanto.  (…)

Neste polar, parece que o céu opaco se dissolve, a camada de nuvens rasga-se, lanosa, a Ursa Maior aparece. O coração de Simon migra agora, está em fuga sobre as órbitas, sobre os carris, sobre as estradas, transportado numa caixa cuja parede plástica, ligeiramente granulosa, brilha sob os raios de luz eléctrica, escoltado com uma atenção inaudita, como outrora se escoltavam os corações dos príncipes, como se escoltavam as suas entranhas e os seus esqueletos, inumados na basílica, na catedral, na abadia, de modo a garantir um direito à sua linhagem, orações pela sua salvação, um futuro para a sua memória – distinguia-se o barulho dos tamancos desde o fundo dos caminhos, sobre a terra batida das aldeias e o empedrado das cidades, a sua batida lenta e soberana, em seguida vislumbrava-se as chamas dos archotes que criavam sombras líquidas nas folhagens, nas fachadas das casas, nos rostos alucinados, concentravam-se nas soleiras das portas, toalha ao pescoço, descobriam-se as cabeças e benziam-se em silêncio para ver passar esse cortejo extraordinário, a carroça preta puxada por 6 cavalos de luto, arreados com mortalhas e mantas preciosas, a escolta de doze cavaleiros com tochas, os longos casacos negros e os crepes pendentes, e às vezes ainda pajens e valetes a pé brandindo círios de cera branca, às vezes também companhias de guardas, e o cavaleiro em lágrimas que conduzia o conjunto acompanhava o coração para o seu túmulo, progredindo até ao fundo das criptas, até à capela de um mosteiro ou de um castelo natal, até um ninho escavado em mármores negros e adornado de colunas retorcidas, um santuário coberto por uma coroa radiante, medalhada por escudos e brasões preciosos, as divisas latinas desfraldadas sobre estandartes de pedra, e muitas vezes tentava-se uma espreitadela para o interior do carro através da fenda das cortinas, para o banco onde estava o oficial da transacção, aquele que iria em pessoa entregar o coração aos que doravante o teriam a seu cargo e rezariam por ele, o mais das vezes um confessor, um amigo, um irmão, mas a obscuridade nunca permitia ver esse homem, nem o relicário pousado sobre uma almofada de tafetá negro, e ainda menos o coração no seu interior, o membrum principalissimum, o rei do corpo, porque colocado no centro do peito como o soberano no seu reino, como o sol no cosmos, esse coração aninhado numa gaze brocada a ouro, esse coração que era chorado.
O coração de Simon migrava para um outro lugar do país, os rins, o fígado e os pulmões chegavam a outras províncias, fugiam para outros corpos. O que subsistira, nesta explosão, da unidade do seu filho? Como ligar a sua memória singular a este corpo difractado? O que seria feito da sua presença, do seu reflexo na terra, do seu fantasma? Estas interrogações circulam ao redor dela como arcos ardentes e então o rosto de Simon forma-se diante dos seus olhos, intacto e único. É irredutível, é ele. Sente uma calma profunda. A noite anda lá fora como um deserto de gesso.
O corpo de Simon Limbres é doravante um despojo. Aquilo que a vida deixa atrás de si quando se retira, aquilo que a morte depõe  no campo de batalha. É um corpo ultrajado. estrutura, carcaça, pele. A do rapaz adquire lentamente a cor de marfim, parece endurecer, nimbada por esse clarão cru que cai do cialítico, parece tornar-se uma carapaça seca, um plastrão, uma armadura, e as cicatrizes que atravessam o abdómen fazem pensar num golpe mortal – a lança no flanco de Cristo, a espada de guerreiro, a lâmina do cavaleiro. Terá sido esse gesto de coser que levou ao canto do bardo, ao narrador da Grécia Antiga, terá sido a figura de Simon, a sua beleza de jovem saído das ondas marinhas, os cabelos ainda cheios de sal e encaracolados como os desses companheiros de Ulisses que o perturbam, terá sido a sua cicatriz em cruz, fosse o que fosse, Thomas começou a cantar. Um canto ténue, um canto sincronizado, um canto que depõe.
“Terá Claire escutado o canto de Thomas Rémige nos seus sonhos anestésicos, esse canto de bela morte? Terá ela escutado a sua voz na noite às quatro da manhã enquanto recebia o coração de Simon Limbres."

Cuidar dos vivos. Maylis de Kerangal ; Lisboa : Teodolito, 2017. 

domingo, 20 de agosto de 2017

Estante de leitura – What’s in a name

"Os mares de Homero deixaram
de trazer, esbeltas, as suas naves

em nome dos sem-nome, continua
por desertos de areia, desertos sem
sentido, continua. por rostos no deserto,
os do sem nome ou rosto, continua.
ao fundo do deserto, diz-se gotas de
sangue e grãos de areia, a esfinge
no deserto, continua. no verdadeiro
nome do espesso líquido que se diz
vital, em toneladas certas, continua.

os divinos moinhos moendo devagar
fina farinha, inúteis mares de pó"

Ana Luísa Amaral, “Mediterrâneo”, in What´s in a name. Porto: Assírio & Alvim.

sábado, 17 de junho de 2017

Estante de leitura – Mulher de Porto Pim

"Do seu deus mais importante, que me parece pai de todos os deuses do céu e da terra, ouvi relatos muito diversos e não pude ver o seu templo nem aproximar-me da sua ilha; não porque os estrangeiros não sejam ali tolerados, mas porque mesmo os cidadãos desta república só podem alcançá-la depois de haverem atingido um estado de espírito que raramente se alcança, e depois não voltam mais. Na sua ilha ergue-se um templo que os habitantes destas paragens denominam de um modo que eu poderia traduzir por “As Maravilhosas Moradas”, e que consiste numa cidade toda ela virtual, no sentido em que não existem edifícios mas apenas as suas plantas traçadas no solo. Essa cidade tem a forma de um tabuleiro de xadrez e estende-se por milhas e milhas; e todos os dias os peregrinos com um simples giz, deslocam os edifícios à sua vontade, como se fossem peças de xadrez, de maneira que a cidade é móvel e variável, e a sua fisionomia muda constantemente. No centro do tabuleiro ergue-se uma torre sobre a qual assenta uma enorme esfera dourada, que lembra vagamente o fruto que abunda nos jardins destas ilhas. E esta esfera é o deus.

 Não me foi possível descobrir quem seja exatamente esse deus; as definições que me deram até agora são imprecisas e reticentes, e talvez pouco compreensíveis para um estrangeiro. Depreendo que ele esteja relacionado com a ideia da plenitude e da perfeição, uma ideia altamente abstrata e pouco compreensível para o intelecto humano. E foi por isso que pensei que se tratasse do deus da Felicidade; mas da felicidade de quem compreendeu tão plenamente o sentido da vida que para si a morte já não tem importância alguma e é por isso que os poucos eleitos que vão venerá-lo não voltam mais. A velar este deus está um idiota de rosto cretino e de fala desconexa, que talvez esteja em contacto com o deus por misteriosas vias que a razão ignora. Quando manifestei desejo de lhe render homenagem, as pessoas riram-se de mim e, com ar de profundo afeto que talvez contivesse uma ponta de comiseração, beijaram-me na face. 

Em contrapartida, também eu rendi homenagem ao deus do Amor, cujo templo se ergue numa ilha de praias louras e em arco, na areia dourada acariciada pelo mar. E a imagem do deus não é um ídolo nem qualquer coisa visível, mas um som, o puro som da água do mar que entra no templo através de uma canal cavado na rocha e que se quebra num lago secreto; e ali, devido à forma das paredes e à amplitude da construção, o som reproduz-se num eco infinito que arrebata quem o ouve e provoca uma espécie de embriaguez ou de tontura. E a muitos e estranhos efeitos se expõe quem honra este deus, porque o seu princípio comanda a vida, mas é um princípio bizarro e caprichoso; e se é verdade que ele é a alma e a concórdia dos elementos, também pode produzir ilusões, delírios e visões. E eu assisti nessa ilha a espetáculos que me perturbaram pela sua verdade inocente; tanto que tive dúvidas se tais coisas existiam deveras ou se eram antes fantasmas do meu sentimento que saíam de mim e tomavam aparência real no ar por me ter exposto ao som enfeitiçado deste deus; e pensando isto, tomei por um caminho que leva ao ponto mais alto da ilha, de onde se pode ver o mar de todos os lados. E então apercebi-me de que a ilha era deserta, que não havia nenhum templo na praia e que as figuras e os vários rostos do amor que eu tinha visto como quadros vivos e que compreendem múltiplas gradações do espírito como a amizade, a ternura, a gratidão, o orgulho e a vaidade, todos esses rostos que eu pensava ter visto em formas humanas, eram apenas miragens provocadas em mim quem sabe por que sortilégio. E assim cheguei mesmo ao cimo do promontório, e enquanto observava o mar infinito, abandonando-me já ao desalento que a desilusão provoca, uma nuvem azul desceu sobre mim e arrebatou-me para um sonho; e sonhei que te escrevia esta carta, e que eu não era o grego que partiu em busca do Ocidente e não mais voltou, mas que estava apenas a sonhá-lo.  

Mulher de Porto Pim e outras histórias. António Tabucchi. Alfragide: D. Quixote, 2016.