(como dizer?)
Sorriso com uma lágrima tranquila dentro, percebem? Tão difícil traduzir as emoções em palavras, é tão pobre o vocabulário que temos e vou-me consumindo nos livros a procurar exprimir isto. Dizia que começa a anoitecer tão cedo, as árvores do dia que nada têm a ver com as árvores da noite, misteriosas, densas, falando, falando, a engordarem de pássaros. Janelas iluminadas e eu a imaginar as vidas atrás das cortinas, por vezes, num intervalo, um relógio, uma pegada, um lustre que me assusta, vultos. Gestos femininos bonitos sempre, a delicadeza com que as mulheres tocam nos objectos, a harmonia dos dedos: somos pesados e sem graça, nós homens, ao pé delas. (…) Não possuímos seja o que for de ave ou nuvem, a nossa carne é densa e gaguejante. Dá-me uma paz de eternidade ver uma mulher numa casa, o modo como o seu corpo habita o espaço, a forma como vestem , de si mesmas, os compartimentos, com um simples passo, um simples olhar. E depois uma espécie de inocência primordial, de leveza habitável: devo ter sido muito feliz na barriga da minha mãe, por dentro da sua voz, do seu sangue. (…) E as árvores da noite a murmurarem sem fim, os prédios muito mais altos, os sons de uma nitidez de cristal. Um velhote a subir a rua com um saco de plástico, a horrível solidão dos seus olhos, o abandono da roupa. A solidão tem um cheiro próprio que se sente à distância. Vivem em bicos de pés, como que a pedir desculpa. (…) Qual o meu nome verdadeiro debaixo do António que as pessoas conhecem? Não tenho nome: sou estas mãos, este corpo, esta caneta que escreve"

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