sábado, 23 de maio de 2015

Estante de leitura – Walden ou a vida os bosques

"É um engano pensar-se que, num país onde existem as evidências costumeiras de civilização, as condições de vida de uma grande massa de habitantes não podem ser tão baixas como as dos selvagens. (…) A absoluta simplicidade e o despojamento da vida que o homem levava nos tempos primitivos tinham pelo menos a vantagem de deixá-lo ser hóspede da natureza. Quando se sentia retemperado pelo alimento ou pelo sono, tinha a estrada novamente diante de si. Morava neste mundo como se fosse numa tenda e estava sempre palmilhando vales, cruzando planícies, galgando cumes de montanhas. Mas vejam só! Os homens transformaram-se nos instrumentos dos seus instrumentos. Aquele que na maior liberdade apanhava frutos nas árvores quando sentia fome, tornou-se agricultor; o que se deixava ficar debaixo de uma árvore por abrigo, transformou-se em caseiro. Já não acampamos durante uma noite, instalamo-nos na terra esquecidos do céu. Adoptámos o cristianismo como se tratasse simplesmente de um método de agricultura aperfeiçoado. Construímos para este mundo uma mansão familiar e para depois da morte um jazigo de família. As melhores obras de arte do homem exprimem a luta para libertar-se desta condição, mas o que resulta da nossa arte consiste apenas em tornar confortável este estado inferior e fazer-nos esquecer do outro mais elevado. (…) Se os homens construíssem as suas residências com as próprias mãos, e arranjassem alimento para si e a família de maneira bastante simples e honesta, quem sabe se não desenvolveriam universalmente a faculdade poética, cantando como fazem todos os pássaros quando assumem um compromisso desta natureza? (…) Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. (…) O tempo é apenas o rio em que vou pescando. Bebo nele, mas ao beber vejo-lhe o leito de areia e percebo quão raso é. A fina corrente logo se esvai, mas a eternidade permanece. Gostaria de beber mais fundo e de pescar no céu, em cujo leito os seixos são estrelas. Não consigo contá-las. Ignoro a primeira letra do alfabeto. Tenho lamentado sempre não ser tão sábio como no dia em que nasci."


Sem comentários:

Enviar um comentário