“Não sei, disse eu. E era verdade. Não fazia ideia. Apenas um qualquer pânico infantil, e agora penso que foi porque só tinha a minha mãe. Não tinha mais ninguém no mundo, e ela era tudo, e de algum modo aquela forma - sombra, aquela duplicação no tanque dos corais, tinha-me feito sentir como era fácil perdê-la. Estava sempre a ter pesadelos em que ela ficava debaixo de um guindaste no porto e num daqueles contentores enormes a voar pelos ares por cima dela. Sabemos que os peixes estão sempre em guarda, escondidos na entrada de uma gruta ou entre as algas ou agarrados aos corais, esforçando-se por parecer invisíveis. O fim deles podia surgir de qualquer lado, a qualquer momento, uma boca maior vinda do escuro e desaparecendo tudo num instante. Mas não é o mesmo conosco? Um acidente de carro a qualquer momento, um ataque de coração, uma doença, um daqueles contentores soltando-se e caindo do céu, a minha mãe por baixo sem sequer levantar os olhos, sem ver nem sentir nada, o fim e mais nada.
O velho pôs-me uma mão no ombro. Estás bem, disse ele. Estás em segurança.
Lembro-me de ele ter dito isso. Disse que estava em segurança. Dizia sempre precisamente a palavra certa. E então dei-lhe um abraço, os braços à volta do pescoço dele. Precisava de alguma coisa a que me agarrar. Cabelo seco como erva, ossos nos meus ombros, nada macio, tão couraçado como um cavalo - marinho e igualmente feio, mas agarrei-me a ele como a uma ramo de coral só meu. (…)
Não tínhamos família. Absolutamente ninguém. Todos na escola tinham uma família. Não tinham pais, muitos deles, mas tinham tias e tios e avós e primos. E quase todos os peixes eram mais do que só um par. Se bem que, pensando nisso, muitos dos peixes que via no aquário andavam de facto aos pares ou sozinhos, mas como podia isso ser? Não podia ser assim no oceano.
O planeta inteiro um oceano. Gostava de pensar nestas coisas. Quando à noite me ia deitar, imaginava-me nas profundezas, milhares de metros de fundo, o peso de toda aquela água, mas comigo a deslizar quase ao rés do solo, como uma manta, voando sem nenhum som nem peso por cima de planícies infindáveis que se precipitavam em desfiladeiros profundos de um negro ainda mais escuro e depois subindo em espiras e novos planaltos, e podia estar em qualquer parte do mundo, no México ou em Guam, ou sob o Ártico ou muito longe em África, tudo no elemento único, tudo em casa, sombras a toda a minha volta também a deslizarem, grandes asas que não se ouviam nem viam mas se sentiam e conheciam.
O velho voltou as costas ao tanque e passou para o outro lado do corredor onde as trutas vogavam numa espécie de corrente invisível, todas viradas para o mesmo lado, nadando para sítio nenhum.
Não é fácil ficar entusiasmado com peixes de água doce, disse ele. São como nós, nada de exótico. Uns quantos paus e pedras, frios, juntinhos em grupo, a tremer. Isto que estamos a ver é a boa gente de Seattle.
Quem me me dera que as pessoas fossem assim, disse eu.
Aquário / David Vann ; trad. José Lima. Lisboa : Relógio d’Água, 2015.

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