quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Estante de leitura – Manual de sobrevivência de um escritor

“Afinal as, as únicas coisas que valem a pena fazer-se
são aquelas que te podem partir o coração.” (Colum McCann)

Um escritor é, antes de mais (ou apesar de tudo), um observador estupefaco da disfunção humana ou da membrana de isolamento que existe entre si e o mundo, entre si e os outros, entre os outros e os outros. Perante esta “desaquaduação” das coisas a resposta humana tem sido, desde os primórdios daquilo que somos, a tentativa de controlar o caos e de o ordenar segundo um plano, enformado pela linguagem. Das pinturas rupestres à maravilhosa prosa de Faulkner, dos hieóroglifos egípcios ao assombro de Joyce em Finnegan’s Wake, tudo serviu para delimitar e conter a propensão da vida para a catarse, a dispersão. A  literatura nasce de uma necessidade quase atómica de ordenar que surge catastrófico, de reunir num volume a fragmentada experiência humana. (…)
A escrita não é terapia – ou teria uma “função”, o que arruinaria a maravilhosa ideia de inutilidade hoje associada à  literatura ou às artes em geral. Durante séculos,a expressão artística esteve intimamente ligada ao útil, no sentido da construção e edificação do carácter e do espírito. Com a emergência do capitalismo, no século XX, o útil transformou-se num meio para chegar a um fim, e, portanto, a arte passou a estar ausente desta definição.
Graham Greene descreveu a escrita como “uma forma de terapia” e acrescentou: “Por vezes pergunto-me como é que todos aqueles que não escrevem, compõem ou pintam são capazes de fugir à loucura, à melancolia, ao pânico e ao medo que é inerente à condição humana.”
Green concorda com Byron quando ele disse: “Se não escrever para esvaziar a minha mente, enlouqueço”; e sem dúvida que Somerset Maugham concorda com ambos. N’O Véu pintado podemos ler: Tenho a ideia de que a única coisa que torna possível encarar este mundo em que vivemos sem desprezo é a beleza que, de vez em quando, os homens geram a partir do caos. As pinturas que pintam, as músicas que compõem, os livros que escrevem, e as vidas que vivem. De todos estes exemplos, o mais rico em beleza é a vida bela. É a  obra de arte perfeita.”
Claro que Maugham está a enganar subtilmente o leitor. A “vida bela” depende da quantidade de coisas belas que nela estão inscritas; além da beleza natural o belo surge no ato de criação e, portanto, depende desse gesto que fazemos ao tentar gerar sentido a partir do caos.
O sentido foge à literalidade das coisas.

Manual de sobrevivência de um escritor / João Tordo. Lisboa: Companhia das Letras: 2020.

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