«Um
verão apaixonado e fugaz tinha começado. Os dias quentes, tão longos que eram,
ardiam como bandeirantes flamejantes, as noites breves e abafadas de lua cheia
secundavam noites breves e abafadas de chuva, as semanas resplandecentes ardiam
em febre, velozes e repletas de imagens como em sonhos. Passava da meia-noite.
Klingsor estava na estreita varanda de pedra do seu estúdio, regressado de um
passeio noturno. À sua frente afundava profunda e vertiginosamente o antigo
jardim do terraço, um aglomerado profundo e sombrio de densas copas, palmeiras,
cedros, olaias, castanheiros, faias roxas, eucaliptos cobertos de trepadeiras,
cipós, glicínias. Sobre o negrume das árvores luziam as grandes folhas
metálicas das magnólias estivais. No meio delas, semifechadas, as enormes
flores brancas como neve, grandes como cabeças humanas, pálidas como a Lua e o
marfim, de onde se desprendia um efusivo aroma citrino, vivo e penetrante. Uma
música pairava no ar vinda de uma distância indefinida, vibrando cansada, uma
guitarra, ou talvez um piano, não se distinguia. Subitamente, nas gaiolas, um
pavão soltou um grito, duas e três vezes, e rasgou a noite da floresta com o
som brusco, zangado e seco da sua voz atormentada, como se todo o sofrimento do
mundo animal ecoasse inteiro e estridente, arrancado às profundezas. As
estrelas derramavam a sua luz sobre o vale da floresta. uma capela branca,
antiga e mágica, vigiava solitária do alto da floresta sem fim. Lago, montanhas
e céu fundiam-se na lonjura do horizonte. (…)
Era aquela hora tardia e dourada em que a luz do dia ainda incandescia por todo o lado e já a Lua ganhava brilho, e os primeiros morcegos pairavam o ar tremeluzente e verde. Uma margem da floresta recebia suave a última luz, ramos iluminados de castanheiros recortados nas negras sombras, um casebre amarelo irradiava a uz absorvida durante o dia, luzindo suavemente como um topázio amarelo, vermelhos - rosados e violetas os pequenos caminhos pelo meio dos prados, vinhas e floresta, aqui e ali viam-se já alguns ramos de acácia amarelecidos, o céu ocidental dourado e verde sobre as montanhas de azul - veludo. (…)
O Último Verão / Herman Hesse. Lisboa: D. Quixote, 2020.

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