terça-feira, 12 de abril de 2022

Estante de leitura – Espião na primeira pessoa

«Para falar verdade, não sei de onde é que ele veio. Descobri-o por acaso. (…) Às vezes as pessoas aparecem assim vindas não se sabe de onde. Limitam-se a aparecer e depois a desaparecer. Muito depressa. Precisamente como uma fotografia que emerge de um banho químico. (…)

Era aquela altura do dia de que tanto gosto. Sobre a qual houve quem escrevesse poemas. A altura do dia em que a tarde caminha para noite. Crepúsculo, acho que é assim que se chama, e esgueirei-me para o outro lado da estrada. Atravessei a estrada. Tinha estado a chover durante três dias seguidos. A chover. A rua ainda tinha água a correr. A água caía em todo o lado. Não era chuva mas água residual. Cheguei ao outro lado passando pelos carros estacionados, todos os tipo de carros, e cheguei à cerca que não era uma cerca de camélias nem de hidrângeas nem de nada do género. Não era identificável. Saíam flores brancas dela mas não sabia o que eram. Consigo topá-lo através das flores brancas, através da cerca. Mas não tinha a certeza. Era capaz de topar qualquer coisa dali, mas não tinha a certeza do que seria. Oh, não importa, descubro depois. É isso que se passa com depois. Não se sabe o que vai surgir. É certo que alguma coisa vai acontecer mas não se sabe o que é. Por exemplo – estou na rua, por exemplo. Cá fora com as aves e os insetos. Não é bem cá fora, mas quase. Mesmo do outro lado. Nunca é como foi. As nuvens. O enorme céu. As flores. O chilrear. (…)

Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.
De facto vem à parte. Apresenta-se como se fosse experimentado em fragmentos.
Porquê? Porquê, por exemplo, o passado é… Desculpem… porquê?, por exemplo, se prefere o presente ao passado? Porque assumidamente o presente é aquilo que faz memórias. É o que faz o passado. Às vezes parece muito fugaz.

Qual é afinal a experiência do presente? A experiência do presente é uma coisa anónima. Uma coisa completamente anónima. A maneira como o sol bate no chão. A maneira como bate em pés descalços. A maneira como vinte e cinco cêntimos costumavam durar. A maneira como o cloro cheira. A maneira como os calções assentam. A maneira como a água corre pela cabeça. A maneira como os olhos se abrem debaixo de água e se veem coisas. O que se vê? Veem-se pessoas, outros seres humanos que lutam por manter os olhos abertos debaixo de água. O presente é uma coisa multifacetada. Muito parecida com o passado.

Mas o presente vem com uma experiência tangível, diz ele, balançando para trás e para a frente. Balançando. Balançando. Ele diz, parando. Não mas esperem um segundo só um segundo como é com os milagres. E como é com a cura. Num dado momento do passado – num momento qualquer do passado – tudo estava bem. Não havia desespero. Tudo funcionava. Portanto qual é acura. Há alguma maneira de curar o presente? Podemos fazer uma coisa tão simples como tomar um banho quente de água mineral. Ou temos de recomeçar tudo. Tem de haver uma cura. Somos filhos do milagroso. Longa paragem. Parando. Uma longa paragem. Parando. Ninguém se agarra ao presente. De facto, ninguém se agarra a ninguém.
(…) Houve uma altura em que tudo parecia um conto de fadas”.

Espião na primeira pessoa / Sam Shepard. Lisboa: Quetzal: 2018.

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