quarta-feira, 13 de abril de 2022

Estante de leitura – O coração é um caçador solitário

«Aproximou-se ainda mais do mudo e baixou a voz, num sussurro embriagado: – E porque será? Porque é que persiste este milagre da ignorância? Por causa de uma única coisa: conspiração. Uma conspiração pérfida e imensa. O obscurantismo. (…) Até que, por fim, o dilúvio de palavras ganhou forma e ele proferiu-as com uma êxtase embriagada: – As coisas que eles nos fizeram! As verdades que eles transformaram em mentiras. Os ideais que conspurcaram e destruíram. Jesus, por exemplo. Era um dos nossos. Ele sabia. Quando disse que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus… Ele sabia muito bem o que estava a dizer, com um raio! Olhe bem para o que a Igreja fez a Jesus nestes últimos dois mil anos. Naquilo em que o transformaram. A maneira como a Igreja manipulou todas as Suas palavras para o seu próprio proveito. Se ainda fosse vivo, Jesus estaria agora preso. Seria uma das poucas pessoas que sabem realmente. Eu e Jesus sentar-nos-íamos a uma mesa, olhar-nos-íamos nos olhos e ambos saberíamos. Eu, Jesus e Karl Marx podíamos sentar-nos a uma mesa e… (…)

O que é feito da nossa liberdade? Os homens que combateram na Revolução Americana têm tanto a ver com as Filhas da Revolução Americana como eu tenho a ver com um cão pequinês barrigudo e perfumado! Eles acreditavam no que diziam em relação à liberdade. Tomaram parte numa revolução a sério. Lutaram para que este fosse um país onde todos os homens pudessem ser livres e iguais. Ou seja, partiram do pressuposto de que todos os homens são iguais aos olhos da Natureza, que todos têm direito às mesmas oportunidades. Isso não significava que vinte por cento da população podia roubar os outros oitenta por cento dos seus meios de subsistência. Não significava que um homem rico podia explorar dez mil homens, por forma a ficar ainda mais rico. Não significava que os tiranos podiam fazer deste país o que lhes apetecesse, fazendo com que milhões de pessoas ficassem dispostas a tudo, incluindo roubar, mentir e arrancar o braço direito, para poderem trabalhar e comer três refeições por dia. Transformaram a palavra “liberdade” numa blasfémia, ouviu?! Transformaram a palavra “liberdade” num monte de lixo! (…) Nada havia mudado realmente. A tão falada greve nunca chegou a acontecer porque as pessoas foram incapazes de se aliarem. Tal como antes. O Sunny Dixie Show continuava a funcionar, até nas noites mais geladas. As pessoas sonhavam, laboravam e dormiam tal como antes. E, por uma questão de hábito, refreavam os seus pensamentos para que estes não se aventurassem na imensa escuridão que era o amanhã. (…)

O silêncio do restaurante era tão profundo como a própria noite. Biff estava absolutamente imóvel, absorto nos seus pensamentos. Depois, subitamente, sentiu qualquer coisa a despertar dentro de si. O seu coração deu um salto e ele encostou-se ao balcão, para evitar cair. Num súbito brilho de luz, vislumbrou a luta humana e o heroísmo. Viu a interminável passagem da humanidade através dos tempos. E viu os que trabalhavam e os que, numa só palavra, amavam. A sua alma pareceu distender-se. Mas só por uns breves instantes. Depois, sentiu uma espécie de advertência, um poço de horror. Encontrava-se suspenso entre dois mundos. Contemplou o seu próprio rosto refletido no vidro do balcão à sua frente. A transpiração cintilava-lhe na testa e Biff tinha o rosto contorcido. Um olho estava mais aberto do que o outro. O olho esquerdo estava mergulhado no passado e o olho direito fitava, incrédulo, um futuro de escuridão, de erros e de ruína. Encontrava-se suspenso entre a Luz e a Escuridão. Entre a ironia e a fé.”

                       O coração é um conquistador solitário / Carson McCullers. Lisboa: Ed. Presença: 2012 

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