O que é feito da nossa liberdade? Os homens que combateram na Revolução Americana têm tanto a ver com as Filhas da Revolução Americana como eu tenho a ver com um cão pequinês barrigudo e perfumado! Eles acreditavam no que diziam em relação à liberdade. Tomaram parte numa revolução a sério. Lutaram para que este fosse um país onde todos os homens pudessem ser livres e iguais. Ou seja, partiram do pressuposto de que todos os homens são iguais aos olhos da Natureza, que todos têm direito às mesmas oportunidades. Isso não significava que vinte por cento da população podia roubar os outros oitenta por cento dos seus meios de subsistência. Não significava que um homem rico podia explorar dez mil homens, por forma a ficar ainda mais rico. Não significava que os tiranos podiam fazer deste país o que lhes apetecesse, fazendo com que milhões de pessoas ficassem dispostas a tudo, incluindo roubar, mentir e arrancar o braço direito, para poderem trabalhar e comer três refeições por dia. Transformaram a palavra “liberdade” numa blasfémia, ouviu?! Transformaram a palavra “liberdade” num monte de lixo! (…) Nada havia mudado realmente. A tão falada greve nunca chegou a acontecer porque as pessoas foram incapazes de se aliarem. Tal como antes. O Sunny Dixie Show continuava a funcionar, até nas noites mais geladas. As pessoas sonhavam, laboravam e dormiam tal como antes. E, por uma questão de hábito, refreavam os seus pensamentos para que estes não se aventurassem na imensa escuridão que era o amanhã. (…)
O silêncio do restaurante era tão profundo como a própria noite. Biff estava absolutamente imóvel, absorto nos seus pensamentos. Depois, subitamente, sentiu qualquer coisa a despertar dentro de si. O seu coração deu um salto e ele encostou-se ao balcão, para evitar cair. Num súbito brilho de luz, vislumbrou a luta humana e o heroísmo. Viu a interminável passagem da humanidade através dos tempos. E viu os que trabalhavam e os que, numa só palavra, amavam. A sua alma pareceu distender-se. Mas só por uns breves instantes. Depois, sentiu uma espécie de advertência, um poço de horror. Encontrava-se suspenso entre dois mundos. Contemplou o seu próprio rosto refletido no vidro do balcão à sua frente. A transpiração cintilava-lhe na testa e Biff tinha o rosto contorcido. Um olho estava mais aberto do que o outro. O olho esquerdo estava mergulhado no passado e o olho direito fitava, incrédulo, um futuro de escuridão, de erros e de ruína. Encontrava-se suspenso entre a Luz e a Escuridão. Entre a ironia e a fé.”
O coração é um conquistador solitário / Carson McCullers. Lisboa: Ed. Presença: 2012

Sem comentários:
Enviar um comentário