Alguém deve ter-me carregado até aqui. Consigo cheirar as flores antes mesmo de abrir os olhos. O cheiro de cada flor exótica enche todo o meu corpo. Estou cercada por ele.
Este não é o meu jardim.
Abro os olhos e vejo que é interminável, estende-se para lá do horizonte e até ao infinito. O céu é de um azul prussiano perfeito e as nuvens são gordas e cremosas, como se um pasteleiro as tivesse criado à mão. O sol é brando, banhando tudo com uma suave luz branca.
Sei que este não é um jardim comum. Também sei que estou destinada a estar aqui.
Levanto-me e ponho uma mão em pala sobre os olhos para os proteger da luz. Os cortes desapareceram, como se nunca tivessem existido. Curvo-me ligeiramente e puxo para cima a bainha do meu quimono, que é branco como o alabastro e feito da mais delicada seda. Está guarnecido com pérolas minúsculas e bordado com kiku no hana, crisântemos. Puxo-o até à cintura e passo com os dedos ao longo da pele macia do interior da minha coxa. A minha cicatriz também desapareceu.
Baixo a saia e começo a andar, não sei para onde, mas em frente. Caminho por baixo de árvores com ramos pesados com frutos maduros: romãs e maçãs, bananas e limas, ameixas e alperces, cerejas e frutos cujo nome desconheço. Há molhos de flores vermelhas por entre a erva alta, espalhados como fogos de artifício caídos. Curvo-me para apanhar uma rosa em rons de salmão.
O caule não tem espinhos.
Então, ouço qualquer coisa, um soim suave e perfeito. Não hesito e sigo-o. É como uma canção de sereia. Nunca consegui resistir a isso. Nunca o quereria fazer.
Não me pergunto para onde vou porque estou neste lugar, que obviamente não se destina a olhos mortais. Talvez eu esteja morta. Encosto as mãos à barriga magra e continuo a andar. Se estou morta, não posso dizer que me importo. Este lugar é… o paraíso. E nada me dói aqui. Toda a minha vida, carreguei uma dor abafada dentro de mim, tão constante que mal me apercebi.
Mas apercebo-me agora, porque desapareceu.
Ouço o ruído constante de um riacho murmurante algures nas proximidades, por baixo da canção. Começa a soar-me familiar. Dou por mim a caminhar um pouco mais depressa, numa tentativa de o apanhar. Conheço esta canção. De onde? Levanto a bainha da saia para andar mais depressa. Sinto o piso quente sob os meus pés descalços.
Onde é que eu já ouvi esta canção?
Está a ficar mais alta nos meus ouvidos e o som está a tornar-se mais rico, a lavar-me e a purificar-me de todas as dores que já senti. Agora estou a correr. Corro através de um bosque de árvores cujos ramos se juntam para formar uma auréola por cima da minha cabeça. Corro ao lado de um lago límpido com patinhos a salpicar. Corro até estar num prado com delfínios de um tom roxo profundo que me chegam até à cintura e papoilas vermelhas que parecem sorrir para mim. Faço uma pausa, o meu coração palpita no meu peito, os meus olhos vagueiam freneticamente para encontrar a fonte da música. Há uma árvore um pouco mais à frente. Viro o pescoço para ver melhor e percebo que é um pessegueiro.
Então, sei.
É a Ave Maria, de Schubert. É a minha primeira e única canção de embalar.”
Cinquenta palavras para chuva / Asha Lemmie. Lisboa: 20 | 20 Editora, 2021.

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