De uma estante tiro um exemplar de Venices de Paul Morand. Abro-o ao acaso e dou com este parágrafo: “Escaparia. Não sabia a quê, mas sentia que o sentido da minha vida se viraria para fora, para outros lados, para a luz. […] Ao mesmo tempo, começou este batimento de um pêndulo que nunca mais me deixou, um gosto, sem dúvida pré-natal, de constrição, a felicidade de viver num quarto exíguo contrariada pela embriaguez do deserto, do mar, das estepes. Eu odiava as cercas, as portas; fronteiras e muralhas ofendiam-me.” Foi assim que também eu sempre vivi. Nesta oscilação entre o chamariz do exterior e a segurança do interior, entre o desejo de conhecer e de me dar a conhecer e a tentação de me concentrar inteiramente na minha vida interior. Toda a minha existência foi atormentada por este conflito entre o desejo de ficar sossegada no meu quarto e a vontade, perpétua, de me divertir, de me roçar nos outros, de me esquecer. Tenho ao mesmo tempo o desejo de me disciplinar, de ficar tranquila e o de me arrancar à minha condição, à minha origem, e de conquistar, pelo movimento, a minha liberdade. Vivo neste desconforto constante: medo dos outros e atração por eles, austeridade e mundanidade, sombra e luz, humildade e ambição.
Por vezes digo-me que, se não falasse com ninguém, se guardasse para mim todos os meus pensamentos, eles não assumiriam a banalidade que lhes descubro quando os partilho com outrem. A conversa é o inimigo do escritor. É preciso ficarmos calados, refugiarmo-nos num silêncio obstinado e profundo. Se me impusesse um mutismo absoluto, poderia cultivar metáforas e e arroubos poéticos como se cultivam flores em estufas. Se me tornasse eremita, veria coisas que a vida mundana me impede de ver, escutaria ruídos que o quotidiano que o quotidiano e a voz dos outros acabam sempre por encobrir. Quando vivemos no mundo, parece-me que os nossos segredos azedam, que os nossos tesouros interiores se embotam, que arruinamos qualquer coisa que, guardada em segredo, poderia ter sido a matéria de um romance. O mundo exterior age sobre os nossos pensamentos como o ar sobre os afrescos murais que Fellini filma em Roma e que se desvanecem no exato momento em que apanham luz. Como se o excesso de atenção, o excesso de luz, em vez de preservar, levasse à destruição da nossa noite interior. (…)
O que não dizemos pertence-nos para sempre. Escrever é jogar com o silêncio, é dizer, de maneira indireta, segredos que na vida real seriam indizíveis. A literatura é uma arte de contenção. Contemo-nos como primeiros momentos do amor, quando nos vêm à mente expressões banais, declarações inflamadas, que nos forçamos a omitir para não estragar a beleza do momento. A literatura consiste numa erótica do silêncio. O que conta é o que não se diz. Em boa verdade, talvez seja a nossa época, e não apenas o meu ofício de escritora, que me impele a desejar a solidão e a calma. Pergunto-me o que teria pensado Stefan Sweig desta sociedade obcecada com a ostentação do eu e com a encenação da própria existência. Desta época em que qualquer tomada de posição nos expõe à violência e ao ódio, em que se espera que o artista esteja de acordo com a opinião pública. Em que se escreve, sob o domínio de uma pulsão, cento e quarenta caracteres. Em O Mundo de Ontem, Sweig faz um retrato cheio de admiração do poeta Rainer Maria Rilke. Pergunta-se aí que lugar reservará o futuro a escritores como ele, que fizeram da literatura uma vocação existencial. Pergunta Sweig: “Não será também exatamente assim esta nossa época, que não permite o silêncio nem mesmo ao que é mais puro, ao que está mais isolado, o silêncio da espera e do amadurecimento, da reflexão e do recolhimento?” (…)
Agora, sozinha e descalça neste museu, pergunto-me porque queria tanto ser fechada aqui. Como pode a feminista, a militante, a escritora que aspiro a ser fantasiar com quatro paredes e uma porta bem trancada? Deveria querer quebrar as jaulas, soprar contra as muralhas até elas estremecerem e caírem. Escrever não pode consistir apenas em retirarmo-nos, em comprazermo-nos com o calor de um apartamento, em construir paredes de tijolo para nos protegermos do mundo lá fora e para não olharmos os outros nos olhos. É também alimentar sonhos de expansão, de conquista, de conhecimento do mundo, do Outro, do desconhecido. Atrás de uma fortaleza, o que poderemos nós cultivar senão a indiferença? estar em paz é uma fantasia egoísta. (…)
Veneza é uma cidade sem terra e sem outra riqueza além do sal. É alimentada pelo que vem de fora, do exterior, do estrangeiro. Vejo nisso o símbolo da minha própria história. É talvez aí que vivo, num lugar que se parece com esta península pontiaguda. Numa alfândega, que é por essência um lugar paradoxal. Nunca abandonei de facto o meu lugar de partida nem habitei de facto no meu lugar de chegada. Estou em trânsito. Vivo num entremundo.”
O perfume das flores à noite / Leïla Slimani. Lisboa: Penguin Random House, 2022.

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