«A Leste, o sol queimava os olhos. No azul panorâmico das águas do lago, estendiam-se, de leste a oeste, extensas pinceladas de luz, dançando ao ritmo do suave marulhar. As sardinhas corriam velozes, dispersas na quietude da manhã, refastelando-se com plâncton. Por cima delas, réstias de céu flutuavam à superfície. O rosa pastel diluía-se no azul do dia.
Por baixo, as suas sombras, projetadas para oeste, mergulhavam nas profundezas ainda saturadas de noite.
À distância, os atuns vislumbraram estas sombras dançantes.
A aproximação dos atuns provocou um calafrio. Subitamente, todo o banco de sardinhas se agrupou, organizando-se numa massa compacta e assustada.
Tornar-se um espelho do mar. A sardinha sabia que esta era a única forma de se esquivar do olhar dos atuns. Fundir-se na paisagem, tornar-se um mero reflexo. Todo o banco tinha de adotar de forma sincronizada o mesmo ângulo, de forma a que as escamas prateadas refletissem o azul da água em todas as direções e que eles não as pudessem distinguir do vazio do oceano. Não podiam estremecer, nem permitir que uma nesga de céu se espelhasse na mais ínfima escama: uma partícula de luz poderia trair a sua presença. A sardinha mantinha-se imóvel, desaparecia juntamente com todo o seu banco, num frémito invisível.
Mas, entre os reflexos de mar da sua pele, começara já a desenhar-se num a legião de atuns, alinhados, coordenados e implacáveis. Tarde demais para ter ilusões. O olho triangular do atum já detetara o banco. A sardinha viu os vultos pretos e perfilados, de longas barbatanas, materializarem-se. De súbito, esses vultos mudaram simultaneamente de cor. Os atuns tinham iluminado as suas listas azuis fluorescentes, cujo comprimento de onda ultravioleta está precisamente calibrado para ofuscar os olhos das sardinhas. Deu-se um clarão estonteante.
O ataque dos atuns foi rápido e violento. (…) O banco não cedeu ao pânico. Ofuscadas, atordoadas, as sardinhas sabiam que a sua salvação dependia de se manterem agrupadas, à escuta umas das outras, organizadas, agindo em conjunto, como um só peixe. O grupo desenhava estranhos arabescos e volutas para desconcertar os atacantes, esquivava-se dos seus assaltos, separava-se para logo de seguida voltar a agrupar-se, tentando refletir os raios de sol em todas as direções, para os cegar.
Mas os atuns vinham de longe, tinham viajado noite e dia sem parar; a fome ameaçava-os. Mudaram de estratégia e empurraram a bola de sardinhas para a superfície, para esse muro de céu movediço intransponível. (…) A sardinha, isolada num dos lados, não conseguia juntar-se às outras. Visível e vulnerável, afastada da massa protetora das suas congéneres. A única hipóteses era nadar, sempre em frente.
Os milhares de escamas arrancadas brilhavam no azul como flocos de neve. A sardinha acelerava, com pavor de ser descoberta. No espelho prateado da sua pele, a cena do festim dos atuns foi ficando cada vez mais pequena. Quantas imagens refletidas naquele espelho! Todas essas cenas em que a sardinha se mantivera invisível, e cujas cores se imprimiram fielmente na sua pele. Nadando com todas as suas forças, a sardinha relembrava esses quadros reproduzidos nas suas escamas: as brincadeiras dos golfinhos, o casco dos navios, os rochedos de ilhas longínquas, as estranhas tartarugas do mar… tantos eram os segredos que levava consigo. Mas que iria acontecer a essas histórias? Ela era apenas uma sardinha solitária, muito vulnerável, praticamente condenada a dissolver-se no suco gástrico de um atum. Um pedaço tão ínfimo na cadeia alimentar, uma mera dentada para os predadores que encontraria pelo caminho. Que fazer para que esses relatos dos quais estava impregnada não se dissolvessem no turbilhão dos ciclos do oceano?
A sardinha nadou durante muito tempo, até perder a noção do tempo. Nem sequer reparou que a água à sua volta tinha mudado de cor e que as suas escamas já não refletiam o azul do largo, mas o verde dos herbários e o ocre dos rochedos. Esgotada, vacilou. Ondas desconcertantes empurravam-na para um elemento novo para ela: a terra. Ainda mal se tinha dado conta de que uma rede verde a recolhera do mar, viu-se mergulhada num balde de plástico, decorado com estrelas-do-ar. Foi então que se cruzou com um phar desconhecido, um olhar de criança. E, antes de voltar a partir, milagrosamente salva, rumo à liberdade e aos perigos do mar, decidiu transmitir-lhe algumas das suas histórias e convencê-la a fazer o mesmo.
(…) deixemos estas histórias embalar-nos e inspirar-nos a inventar e partilhar outras tantas. Pois o mundo do mar é como o das palavras: um espaço de liberdade, que deverá manter-se assim. Aqueles que querem refrear as palavras, impor regras à expressão e à linguagem são como aqueles que pretendem erguer barreiras no mar. O oceano é de todos e de ninguém. A imaginação também. Assim, quer sejam uma baleia solitária que fala a sua própria língua ou uma das anchovas coordenadas de um vasto branco; quer sejam um polvo inventivo, uma rémora pegajosa ou um discreto lavagante – cada um à sua maneira, entoemos livremente as nossas histórias.”
A eloquência da sardinha / Bill François. Lisboa: Quetzal, 2021.

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