quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
O tempo das bibliotecas
As Bibliotecas conduzem um circuito de silêncio preparado desde largos confins do tempo, como uma cerimónia para novos espectadores. Fazem-no um pouco como as velhas glórias do passado, como uma pirâmide em Gizé, ou a Torre de Mangia, em Siena a olhar persitentemente para nós, para tantos nós a desfilar no horizonte.
terça-feira, 11 de dezembro de 2018
Ler
Lemos
as palavras, os sinais dos nomes das coisas. Lemos na paisagem os contornos das
colinas, o diverso em diálogo com o aberto. Lemos com os olhos, com as cores e
as formas da arte. Lemos entre o sonho e a perda, o doce e o amargo, Lemos na
utopia do que procuramos compreender. Jorge
Luís Borges deu-lhe a mais bela e sentida definição par esse espaço único, a
Biblioteca. Defini-a assim, “Sempre imaginei a Biblioteca como uma espécie de
paraíso”.
Frase de Borges que se tornou um lema vivo, uma visão para um mundo suportado no livro, mas também em outras formas de expressão, a arte. Frase que nos indica que é necessário alimentar a imaginação, criar a fantasia para que seja possível alimentar outros territórios, ou tão só como disse Tolentino Mendonça, “encontrar Deus pelos baldios.”
Frase para um resguardo do mundo, do barulho, do movimento, do social e onde é possível realizar a maior das aprendizagens. Essa que se torna essencial que é o de ler, ler continuadamente para um dia poder exprimir uma frase, uma história, ou só guardar a essência do real mais substantivo. A imaginação é sempre aqui uma conquista sobre o banal, sobre instante perdido em novidades sem significado.
domingo, 9 de dezembro de 2018
Uma Biblioteca imaginária
Uma Biblioteca é uma composição de todas as possibilidades, daquelas que de diferentes tempos sonhámos com tudo aquilo que era possível construir, a palavra e a linguagem, o conceito e a imagem. Biblioteca Imaginária, um espaço para construir um repositório de palavras, de imagens, de ideias à sombra de utopia humanas. Se a biblioteca é o melhor lugar do mundo, como construção de uma respiração individual, como lugar acima do tempo e do espaço, em cada um existe uma ideia imaginária do que cada um pode ser. Esta é a minha Biblioteca Imaginária, os espaços das palavras, as cores do que um dia cada homem ousou ser entre a face da verdade e o signo do belo.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
Gafia de coral
sábado, 1 de dezembro de 2018
Estante de leitura – Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes
Respiras suavemente. Estás vivo. Gostaria de passar para o teu lado do mundo, de ver nos teus sonhos. Será que sonhas com um amor branco, frágil, distante, tão longe? Com uma infância, com um palácio perdido? Sei que lá não tenho lugar. Que nenhum de nós lá terá lugar. Estás fechado como uma concha. E, no entanto, fácil te seria abrires-te, uma minúscula fenda por onde a vida se precipitaria. Adivinho o teu destino. Permanecerás na luz, serás celebrado, serás rico. O teu nome imenso como uma fortaleza irá esconder-nos da tua sombra. Irá esquecer-se o que aqui viste. Esses instantes irão desaparecer. Até tu esquecerás a minha voz, o corpo que desejaste, os teus tremores, as tuas hesitações. Como eu gostaria de que algo conservasses disso. Que levasses contigo uma parte de mim. Que se transmitisse o meu país distante. Não uma vaga recordação, uma imagem, mas a energia de uma estrela, a sua vibração no escuro. Uma verdade. Sei que os homens são crianças que expulsam o seu desespero com a cólera, e o seu medo para o amor; ao vazio respondem construindo castelos e templos. Agarram-se a historietas, levam-nas à sua frente como estandartes; cada um faz sua uma história para se ligar à multidão que a partilha. São conquistados quando se lhes fala de batalhas, de reis, de elefantes e de seres maravilhosos; quando se lhes narra a felicidade que haverá para além da morte, a luz viva que presidiu ao seu nascimento, os anjos que giram à sua volta, os demónios que os ameaçam, e o amor, o amor, essa promessa de olvido e de saciedade. Fala-lhes de tudo isso e hão de amar-te; far-te-ão igual a um deus. Mas, pois que estás aqui encostado a mim, tu saberás, tu, um franco malcheiroso que o acaso trouxe para te pôr ao alcance das minhas mãos, saberás que tudo isso não passa de um véu perfumado que esconde a eterna dor da noite."
Mathias Énard. (2018). Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes. Alfragide: D. Quixote.
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
Estante de leitura – A ordem do dia
"O Sol é um astro frio. O seu coração, espinhos de gelo. A sua luz, sem perdão. Em fevereiro, as árvores estão mortas, o rio tornado pedra, como se a nascente não deitasse água e o mar não conseguisse engolir mais. O tempo imobiliza-se. De manhã, nem um ruído, nem o canto de um pássaro, nada mesmo. Depois, um automóvel, outro ainda, e de súbito passos, silhuetas que não se podem ver. O contra - regra bateu as três pancadas, mas o pano não se ergueu.
É uma segunda-feira, a cidade agita-se por detrás do ecrã de nevoeiro. As pessoas vão para o trabalho como nos outros dias, apanham o eléctrico, o autocarro, sobem para a imperial, e ficam a cismar ao frio. Mas o dia 20 de Fevereiro desse ano não foi uma data igual às outras. Contudo, a maioria passou a manhã em tarefas árduas, mergulhada nessa grande mentira decente do trabalho, com esses pequenos gestos em que se concentra uma verdade muda, decorosa, na qual toda a epopeia da nossa existência se resume a uma pantomina diligente. (…)
A literatura autoriza tudo, diz-se. Poderia, por conseguinte, fazê-los rodar indefinidamente na escada de Penrose, sem que pudessem nunca mais subir ou descer, obrigados a fazer ao mesmo tempo uma e outra coisa. E, na verdade, é um pouco esse o efeito que os livros têm sobre nós. O tempo das palavras, compacto ou líquido, impenetrável ou cheio de pormenores, denso, alongado, granuloso, petrifica os movimentos, imobiliza todos os que se confrontam com ele. As nossas personagens entraram no palacete para todo o sempre, como num castelo enfeitiçado. (…)
“E agora, meus senhores, é passar à caixa!”
Este convite, decerto um pouco desenvolto, não representava nada muito novo para aqueles homens; estavam habituados às luvas e aos pagamentos por baixo da mesa. A corrupção é uma rubrica incompreensível do orçamento das grandes empresas, a que se dá vários nomes, lobbying, prendas, financiamento dos partidos. A maioria dos convidados fez pois de imediato entrega de algumas centenas de milhares de marcos. Gustav Krupp doou um milhão, Geor von Schnitzler quatrocentos mil, tendo-se assim apurado uma soma nada desprezível. Esta reunião de 20 de Fevereiro de 1933, na qual se poderia ver um momento único na história patronal, um compromisso inaudito com os nazis, nada mais é para os Krupp, os Opel, os Siemens que um episódio bastante vulgar da vida dos negócios, uma banal recolha de fundos. Todos eles sobreviverão ao regime e financiarão no futuro um sem-número de partidos, em função das suas performances.
Assim, os vinte e quatro não se chamam nem Schnitzler, nem Witzleben, nem Schmitt, nem Finck, nem Rosterg, nem Heubel, como os seus cartões de identidade nos fazem crer. Chamam-se BASF, Bayer, Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz, Telekunken. Por estes nomes conhecemo-los. Conhecemo-los até muito bem. Estão aí, no meio de nós. São os nossos carros, as nossas máquinas de lavar, os nossos produtos de limpeza, os nossos despertadores, o seguro de casa, a pilha do relógio. Estão aí, em toda a parte, sob a forma de coisas. O nosso quotidiano pertence-lhes. Cuidam de nós, vestem-nos, iluminam-nos, transportam-nos pelas estradas do mundo, embalam-nos. E os vinte e quatro homens presentes no palacete do presidente do Reichstag, nesse 20 de Fevereiro, são apenas os seus mandatários, o clero da grande indústria; os sacerdotes de Path. Mantêm-se aí impassíveis, como vinte e quatro máquinas de calcular às portas do Inferno.
No fundo, a moda não mudou. Daí a algum tempo, em vez da Insígnia de Ouro, alguns usarão com orgulho a Cruz Federal do Mérito, como entre nós se usa a Legião de Honra. Os regimes celebram-nos da mesma maneira. Vejamo-los à espera, naquele dia 20 de fevereiro, com um ar grave, razoável, enquanto o diabo passa mesmo atrás deles, na ponta dos pés. Conversam entre si; o seu pequeno consistório é perfeitamente semelhante a centenas de outros. Não acreditemos que tudo isso pertença a um passado distante. Não se trata de monstros antediluvianos, de criaturas desaparecidas miseravelmente nos anos cinquenta, por sob a miséria pintada por Rossellini, arrastados no meio das ruínas de Berlim. Estes nomes continuam a existir. (…)
Não se cai nunca duas vezes no mesmo abismo. Mas cai-se sempre da mesma forma, como uma mistura de ridículo e pavor. E deseja-se tanto não voltar a cair, que se resiste, se grita. Partem-nos os dedos aos pontapés, os dentes, com bicadas, roem-nos os olhos. O abismo está rodeado de moradas imponentes. E a História ali está, deusa razoável, estátua imóvel no meio da praça das Festividades, recebendo por tributo, uma vez por ano, ramos secos de peónias e, à laia, de espórtula, em cada dia, um pouco de pão para os pássaros.
Éric Vuillard. (2018). A ordem do dia. Lisboa: D. Quixote.





