terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Estante de leitura – O último Verão de Klingsor

«Um verão apaixonado e fugaz tinha começado. Os dias quentes, tão longos que eram, ardiam como bandeirantes flamejantes, as noites breves e abafadas de lua cheia secundavam noites breves e abafadas de chuva, as semanas resplandecentes ardiam em febre, velozes e repletas de imagens como em sonhos. Passava da meia-noite. Klingsor estava na estreita varanda de pedra do seu estúdio, regressado de um passeio noturno. À sua frente afundava profunda e vertiginosamente o antigo jardim do terraço, um aglomerado profundo e sombrio de densas copas, palmeiras, cedros, olaias, castanheiros, faias roxas, eucaliptos cobertos de trepadeiras, cipós, glicínias. Sobre o negrume das árvores luziam as grandes folhas metálicas das magnólias estivais. No meio delas, semifechadas, as enormes flores brancas como neve, grandes como cabeças humanas, pálidas como a Lua e o marfim, de onde se desprendia um efusivo aroma citrino, vivo e penetrante. Uma música pairava no ar vinda de uma distância indefinida, vibrando cansada, uma guitarra, ou talvez um piano, não se distinguia. Subitamente, nas gaiolas, um pavão soltou um grito, duas e três vezes, e rasgou a noite da floresta com o som brusco, zangado e seco da sua voz atormentada, como se todo o sofrimento do mundo animal ecoasse inteiro e estridente, arrancado às profundezas. As estrelas derramavam a sua luz sobre o vale da floresta. uma capela branca, antiga e mágica, vigiava solitária do alto da floresta sem fim. Lago, montanhas e céu fundiam-se na lonjura do horizonte. (…)

Era aquela hora tardia e dourada em que a luz do dia ainda incandescia por todo o lado e já a Lua ganhava brilho, e os primeiros morcegos pairavam o ar tremeluzente e verde. Uma margem da floresta recebia suave a última luz, ramos iluminados de castanheiros recortados nas negras sombras, um casebre amarelo irradiava a uz absorvida durante o dia, luzindo suavemente como um topázio amarelo, vermelhos - rosados e violetas os pequenos caminhos pelo meio dos prados, vinhas e floresta, aqui e ali viam-se já alguns ramos de acácia amarelecidos, o céu ocidental dourado e verde sobre as montanhas de azul - veludo. (…)

O mundo é indescritivelmente bonito e multiforme, chama por mim através desta porta verde e alta, todos os dias e todas as noites, e grita e exige, e eu acabo por correr lá para fora, uma e outra vez, e arranco um pedaço para mim, um pedaço minúsculo. O verão seco transformou as redondezas verdejantes tornando-as maravilhosamente luminosas e vermelhas. Nunca pensei que teria de voltar a usar vermelho inglês e siena. O outono ameaça romper, restolhais, vindimadores, ceifeiros de milho, bosques vermelhos. Ainda vou fazer tudo isso uma vez mais, dia após dia, e pintar mais umas centenas de estudos. Mas também sinto que me vou virar para dentro e voltar mais uma vez a pintar partindo da memória e da fantasia, como fiz durante algum tempo quando era rapaz, vou fazer poemas e tecer sonhos. Isso também é necessário.”
 
                                                 O Último Verão / Herman Hesse. Lisboa: D. Quixote, 2020.

sábado, 23 de outubro de 2021

A leitura silenciosa (II)

 


A leitura silenciosa foi tomando lugar ao longo da sociedade ocidental nos espaços da Europa e América do norte de um modo mais regular a partir do Iluminismo. As campanhas sobre o seu perigo, sobretudo para o público feminino desenvolveram-se significativamente no século XVIII. Mas essa leitura alimentou a construção de universos individuais mais livres. A leitura desenvolveu-se nesses períodos (séculos XVIII e XIX), integrados nos movimentos de industrialização, de maior democracia das sociedades e alfabetização generalizada já consumada no século XX.
 
Essa leitura silenciosa, sinal de uma liberdade e de uma independência assustou grupos que usavam abordagens moralistas, que viam nela algo perturbador da paz familiar e social.  a leitura era assim uma ameaça, justamente porque ao ser silenciosa integrava muitas possibilidades no domínio do privado, o que significava algo íntimo e fora do controle familiar, religioso e social. Só com a leitura silenciosa foi possível construir esta intimidade ente o livro e o leitor.
 
A leitura silenciosa nem sempre foi praticada. Quando ela emerge, já representa uma forma de emancipação. Foi no século IV que o bispo Ambrósio de Milão deu a conhecer justamente a Santo Agostinho uma ideia sobre a leitura que este desconhecia, pois relatou-a nas suas Confissões. E o gesto que causa espanto a Santo Agostinho é que foi encontrar o bispo de Milão a ler silenciosamente e que pela leitura se observava os seus olhos que deslizavam ao sabor de uma mensagem que se interiorizava em si. 
 
O que Santo Agostinho achou espantoso fosse que os olhos lessem, mas nenhuma voz se ouvisse. Santo Agostinho interrogou-se se não seria uma forma de não ser interrompido, tendo compreendido que aquela forma de ler, de modo silencioso permitia não só poupar tempo, como construir uma relação de intimidade com a leitura mais harmoniosa, enquanto o leitor permanece mais próximo de si próprio. O afastamento dos outros foi outra das possibilidades que Santo Agostinho reconheceu na atitude realizada na leitura silenciosa que observou.
 
Se no século IV ler em silêncio era considerada algo inesperado, significa que na Alta Idade Média e no período clássico a leitura era feita sobretudo pela voz que se ouvia. Ler era nesse tempo e foi-o em grande parte, em muitos momentos até ao fim do Renascimento, uma forma associada ao pensar e ao falar. Era a sua fonte de informação, a forma de construir uma relação com o exterior. Ler em voz alta era reconhecer o grupo e a ordem social.
 
A leitura silenciosa nasceu progressivamente nos mosteiros medievais e entre os escribas que faziam a cópia dos documentos. Mais tarde chegou à universidade e entrou nos círculos da corte e da aristocracia que detinham mais cultura. A sua integração na população foi muito lenta. O túmulo de Leonor de Aquitânia, que é do princípio do século XIII mostra-nos, ela deitada, num hipotético leito a ler, com o livro aberto nas suas mãos. 
 
O túmulo de Leonor da é sem dúvida uma leitura silenciosa, uma leitura para eternidade, no reconhecimento da ideia de que a leitura feita assim podia ser uma "alegria celestial". Sabendo que Leonor da Aquitânia promoveu as artes e a literatura, tendo sido sua padroeira e vivido os últimos anos num convento, confirma-nos a ideia que a leitura podia ser uma recompensa celestial. De certo modo, com Leonor da Aquitânia nasce de um modo diverso essa ideia da leitura, como um lugar de paraíso. Os séculos seguintes dariam outras formas a esse desejo singelo de Leonor.
 
Imagem: Leonor de Aquitânia, c. 1204, (Abadia de Fontevraud, Anjou - Maine-et-Loire).
 
Fonte: Stefan Bollmann, “Uma História da leitura, do século XIII ao século XXI”, C.L., Lx: 2005.
Imagem: Iluminura do século XIII (Bibliothèque Sainte-Geneviève, Paris, MS 2200, folio 58).
 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Estante de leitura – Lusco-fusco

 “A natureza não é cruel, apenas implacavelmente indiferente. Essa é uma das lições mais duras que os humanos têm de aprender.” (Richard Dawkins)


«O Universo, nome que iclui tudo o que vemos e, principalmente, o que não vemos, não sabemos e não está ao nosso humano alcance, coisa escura rasgada por miríades de pontos luminosos, um aqui mais perto, outro ali mais longe, vastidão sem fundo, sem superfície, sem saliências, sem profundidades, um nada sem princípio nem fim, sem palavras concretas que o possam definir porque, na verdade, não tem definição – dizia eu que o Universo, vamos chamar-lhe assim e definitivamente, o Universo sempre foi iluminado aqui e mais além pelas chamadas estrelas e por gente. (…)
 Todos nós concordamos sobre a existência dos Elementais e mesmo quem nunca os viu, ouviu ou pressentiu nas suas diferentes áreas de vida, sabe que há uma grande variedade destes seres nas quatro grandes categorias – os que vivem na Terra, os que vivem na Água, os do Ar e os do Fogo e outros, ainda mais inconcebíveis no nosso pensamento e no impossível alcance do nosso olhar. (…)

 Nessas noites de verão é difícil adormecer. Penso muito. Oiço tudo com grande nitidez. Parece que os meus olhos jamais se irão fecha! Fico para ali deitado a olhar pela clarabóia que está no tecto do meu quarto mesmo por cima da minha cama, vejo aquele profundo azul-escuro povoado de pequeníssimos pontos tão luminosos e imagino, mais uma vez, que poderia, se quisesse, caminhar até ao rio sem nunca tropeçar em nada! Vejo também pela minha claraboia uma estrada larga e branca! Imagine-se! Uma estrada de estrelas! Quem me dera caminhar por essa estrada de estrelas à vontade, sem destino, sem cuidados, caminhar, caminhar e cantarolar qualquer canção e sentir-me a levitar, a esvoaçar, com asas finas e transparentes que me transportassem mais além, certo de nunca chegar ao fim dessa estrada.
 Às vezes vejo a lua. Quando ela se deixa ver, claro! Gosto muito quando é aquela lua fininha e curvada sobre si própria, parecendo-se até com o feitio dos bolos que a minha faz. Geralmente, por dentro e à volta dessa luz existem milhares de pontos brilhantes que a enfeitam e estão tão próximos!!»

Lusco-Fusco / Cristina Carvalho. Porto: Sextante Editora, 2011.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Estante de leitura – Contra mim

"Para mim, que ainda adorava ser miúdo, longe de curado da infância, embora fosse peculiarmente carente, um espantado, pacóvio e medricas, a distância que via até à felicidade era o mundo inteiro de todas as coisas. Sabia-me sempre a assistir, e a felicidade, pensava eu, não podia ser dos quietos. Tinha de pertencer aos mandões, aos que se punham a mudar coisas do lugar, a ajeitar peças, a dizer tudo muito alto para serem bem entendidos ou assustadores aos demais. E eu sossegava as plantas. 

Quero dizer, tinha uma compaixão sofrida pelas coisas indefesas, as que apenas procuravam a beleza de crescerem, em silêncio, sem pedirem nada, talvez em profunda meditação e mais nada. Tinha pena das plantas nos temporais. alagavam-se as terras e descobriam-se as raízes. Secavam. Talvez afogassem de tanta água. Não tinham voz, não podiam protestar nem assumir uma paixão. Eu não falava com elas mas pedia a Deus que lhes dissesse o que pensava, para que soubessem que as queria e defenderia. As plantas ficavam quietas. Tinha muito pena por isso. queria que tivessem pernas e se pusessem em passeio ou fuga, em abrigo. Pensava nas árvores com duas pernas. A correrem pelas estradas e a mudarem de lugar, a repensarem as praças e as matas para seu melhor conforto. A fugirem do fogo. A berrarem contra as pessoas estúpidas que lhes faziam mal.

  Um menino que pensava no desamparo das ervas e das flores silvestres, das silvas e das árvores, era um espírito que se preparava especialmente para sofrer, por mais que a meninice pudesse sugerir momentos de alienação e deleite. E eu era o rapaz preparado para sofrer. Compadecia-me pelas belezas todas e esperava poder crescer bonito, para deixar de sofrer e para casar. Para ser feliz. Esperar era a aventura. A idade haveria de me trazer tudo. A idade e as suas explicações guardadas, adiadas, doseadas, administradas paulatinamente para a sobrevivência e terapia da vontade e maravilha de viver.
  Ando, a vida inteira, sobretudo à caça de satisfação para uma angústia constante que se prende a tudo, a ter e não ter, sentir que nunca está completo. que nunca tempo algum é suficiente. Falta-me tempo, quero mais, e quero gente e quero corresponder, pertencer genuinamente a cada lugar e melhorar os lugares e melhorar tudo, tanta coisa que nem entendo, não chego a conhecer, não sou sequer inteligente o bastante para as aventuras todas. E digo angústia porque fica no ar um lado mais existencial e filosófico do que a constatação sempre tão violenta da tristeza, alguma tristeza, e a vida faz-se de andar entre alguma tristeza e procurar saída."

Contra mim / Valter Hugo Mãe. Porto: Porto Editora, 2020.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Estante de leitura – I’m your man

«É um homem cortês, elegante, como modos de antigamente. Faz uma vénia quando nos saúda, põe-se de pé quando se despe de nós, certifica-se de que nos sentimos à vontade e abstêm-se de referir que o mesmo não se passa com ele próprio; o afagar discreto do rosário grego que traz no bolso, porém, denuncia-o. É por natureza um homem reservado, um pouco tímido, mas, quando precisamos de explorar os recantos sombrios da sua natureza, cerra os dentes e vai à luta, com dignidade e bom humor. 

Escolhe as palavras cuidadosamente, como um poeta ou um político, e nota-se que se habituou a ser preciso, que tem o ouvido apurado para as sonoridades e que possui o talento e o gosto das esquiva e do mistério. Sempre apreciou cortinas de fumo e espelhos. E, no entanto, há qualquer coisa de conspirativo na maneira como ele fala, tal como sucede quando ele canta, como se nos confiasse um grande segredo.

  É um homem aprumado e sóbrio – não há nele nada de supérfluo -e mais baixo do que parece à primeira vista. Irrepreensível. Ficamos com a impressão de que não lhe custaria nada usar um uniforme. Neste momento, veste um fato completo. É de tecido escuro, listado, assertoado, e , se foi comparado numa loja de pronto-a-vestir, não parece.
   – Querida – diz, eu nasci de fato completo. (…)»

I’m your man / Sylvie Simmons. Lisboa: Tinta da China, 2019, 615p.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Estante de leitura – Criação (VII) – 2.º

 «Já na rua, sem brisas, sem sentidos, sem que a minha mão esteja segura dentro de outra mão que me proteja, parto em perseguição do telhado cor de dia de chuva.   Fui eu e todos aqueles em que me multipliquei. Demorei passos com muitos zeros. Pesados e lentos. Os pensamentos, aqueles que costumam doer, doíam ainda mais. Os pensamentos têm memória, mas os pensamentos não gostam de se lembrar. A rua onde a rua que começa na porta da minha casa de hoje vai dar e a rua onde a rua onde a rua que começa na porta da minha casa de hoje vai dar e todas as ruas que vão dar a outras ruas estão na memória do meu pensamento. São lugares já pisados por nós. E isso faz-lhe doer. E isso faz-me doer. 
   Os pensamentos que doem nascem de um conhecimento indubitável de que algo existiu. Existência pretérita. Presença não continuada. Os pensamentos que costumam doer são a consciência de que o que existiu foi maior que nós. Foi maior que nós enquanto existiu. E é maior que nós mesmo depois de já não existir em nós. Dói porque é externa a nós. Porque o longe nos magoa. Não é nosso, não cuidamos e aguça-se. Fere o pensar nele. E faz doer.

   Os pensamentos que fazem doer têm neles os fracassos. Mas pior do que terem intentos malogrados é terem a dúvida do que poderia ter sido. A existência hipotética que mora nos ses. É a incerteza a lâmina mais cortante do pensamento. Fere, corta. Dói.
     Pisei mais chão. Pisei mais chão com os passos cheios de gente pesados e lentos. Dói-me um pouco mais.
     Não alcancei o telhado cor dia de chuva.
    Voltei à falsa paz de um cigarro à janela de casa. O céu tinha descido em negro em toda a cidade. E em todas as minhas cidades. Não havia uma única luz que perturbasse o silêncio desse início de noite. Não existia um único telhado. Não existiam mais telhados. Não existia um único eu.
    Queimei os pensamentos, daqueles que costumam doer, no resto do cigarro. Apaguei-me no frio fundo do cinzeiro.»

Armanda Azevedo, “Dia 7 – Procurar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – m-ban

sábado, 19 de setembro de 2020

Estante de leitura – Com Borges

«Naqueles tempos, eu não estava de modo algum ciente do privilégio. A minha tia, que o admirava imensamente, ficava um tanto escandalizada com a minha displicência e instava-me a tomar notas, a redigir um diário dos meus encontros. Mas, para mim, aqueles serões com Borges não eram (na arrogância da minha adolescência) nada de verdadeiramente extraordinário, não se me afiguravam alheios ao mundo dos livros que eu considerava meu. Se tanto, era a maioria das outras conversas que me parecia alheia, desinteressante: conversa com professores acerca de química e da geografia do Atlântico Sul, com os meus colegas acerca do futebol, com os meus familiares acerca das minhas notas nos exames e da minha saúde, com vizinhos acerca de outros vizinhos.

As conversas com Borges eram, pelo contrário, o que, na minha cabeça, as conversas deviam ser sempre: acerca de livros e acerca do mecanismo dos livros, acerca da descoberta de escritores que eu mesmo nunca lera, e acerca da descoberta de escritores que eu nunca lera, e acerca de ideias que não me tinham ocorrido, ou que só dera conta de maneira hesitante e semi-intuída e que, na voz de Borges, cintilavam e deslumbravam em todo o seu rico e de algum modo óbvio esplendor. Eu não tomava notas porque, naqueles serões, me sentia demasiado satisfeito.

Logo desde as minhas primeiras visitas, o aparecimento de Borges pareceu-me existir para lá do tempo, ou antes, num tempo constituído pelas experiências literárias dele, um templo composto ao ritmo da Inglaterra vitoriana e eduardiana, da Alta Idade Média dos países nórdicos, da Buenos Aires nas décadas de 1920 e 1930, da sua amada Genebra, da era do expressionismo alemão, dos odiosos anos de Péron, dos Verões em Madrid e Maiorca, dos meses passados na Universidade de Austin, no Texas, primeiro lugar onde conquistou a generosa admiração dos Estados Unidos. Eram pontos de referência, a sua história e a sua geografia: o presente raras vezes se interpunha. Para um homem que adorava viajar mas não podia ver os lugares que visitava ele parecia singularmente desinteressado pelo mundo físico, exceto quando representação das suas leituras. As areias do Sara ou a água do Nilo, a costa da Islândia, as ruínas da Grécia e de Roma, todas as quais tocou com regozijo e assombro, não fizeram senão confirmar a recordação de uma página d? As Mil e Uma Noites ou da Bíblia, da Saga de Njal ou de Homero e Virgílio. Borges trazia de volta ao apartamento todas essas “confirmações”.»

Com Borges / Alberto Manguel. Lisboa: Tinta da China, 2020