domingo, 19 de junho de 2022

Estante de leitura – Bom dia, Tristeza

«A este sentimento desconhecido, cujo tédio, cuja brandura me obsidiam, hesito em aplicar o nome, o belo e o grave nome de tristeza. É um sentimento tão completo, tão egoísta, que quase me envergonha, quando a tristeza sempre me pareceu honrosa. A ela, não conhecia, experimentava apenas o tédio, o arrependimento, mais raramente o remorso. Hoje, algo me envolve como seda, irritante e suave, isolando-me dos outros. (…)

E o tom de voz era tão convincente, tão meigo, que compreendi que ele poderia sentir-se infeliz. Pela noite dentro falámos do amor, das suas desventuras. Estas, aos olhos do meu pai, eram imaginárias. Recusava sistematicamente as noções de fidelidade, de gravidade, de compromisso. Explicava-me que eram arbitrárias, estéreis. Vindas de outra pessoa, tais afirmações ter-me-iam chocado. Mas eu sabia que no seu caso estavam presentes a ternura e a dedicação, sentimentos que manuseava tanto mais facilmente quanto os sabia, os queria provisórios. Esta conceção seduzia-me: amores breves, violentos e passageiros. Na minha idade, a fidelidade não cativava. Conhecia pouco do amor: encontros, beijos e desinteresse..” (…)
No dia seguinte de manhã, fui acordada por um raio de sol oblíquo e quente, que veio inundar a cama e pôr fim aos sonhos estranhos e um pouco confusos com que me debatia. Sonolenta, tentei afastar do rosto, com a mão, o calor insistente, mas acabei por desistir. Eram dez horas. Desci ao terraço, em pijama. Sentei-me tranquilamente num degrau da escada, com uma chávena de café e uma laranja e o sumo adocicado esguichava-me para a garganta, bebia um gole de café a escaldar e alternava este gesto com a frescura do fruto. O sol matinal aquecia-me o cabelo, desfazia as marcas que os lençóis me tinham deixado na pele. Já na praia avistei, no fundo do mar, uma linda rocha, cor-de-rosa e azul. Mergulhei, para a retirar, e guardei-a na palma da mão até ao almoço, muito lisa e gasta. Decidi que me daria felicidade, que a não abandonaria durante o Verão. Não sei porque a não perdi, já que perco tudo. Ainda hoje a tenho na mão, rosada e tépida. Sinto vontade de chorar. (…)
– Sim, custa-me muito – respondi [trocar a menina do pinhal pela de uma boa aluna]:
Disse – tão baixinho que eles não ouviram, ou não quiseram ouvir. No dia seguinte de manhã, dei comigo diante de uma frase de Bergson: precisei de alguns minutos para a compreender.: “Mesmo tendo em conta a heterogeneidade que possamos encontrar à partida entre os factos e a causa e embora não haja nenhuma regra de conduta para uma afirmação sobre o fundo das coisas, é sempre num contacto com o princípio gerador da espécie humana que sentimos crescer a força de amar a humanidade.” – Liberdade de pensar, de pensar mal e de pensar pouco, liberdade de escolher a minha própria vida, de me escolher a mim mesma. Não posso dizer “ser eu mesma”, pois mais não era do que uma pasta de moldar, mas apenas recusar os moldes.(…)
Só de madrugada, deitada na cama, ouvindo o ruído dos automóveis de Paris, a memória me trai, por vezes: revejo o Verão e todas as suas recordações. Anne, Anne! Repito esse nome, baixinho, no escuro. Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom Dia, Tristeza.”

Bom Dia, Tristeza / Françoise Sagan. Lisboa: Casa dos Ceifeiros: 2017

sábado, 4 de junho de 2022

Estante de leitura – Gente Independente

"Um pequeno riacho que nunca seca corre pelo curral abaixo, atrás do relvado, em semicírculo, límpido e frio. No Verão, os raios solares brincam na sua corrente alegre, e a ovelha está deitada mastigando nas margens com uma das patas dianteiras estendida em direção ao relvado. Em  momentos como este o céu fica azul. Então, brilhantes raios de sol cintilam no lago dos cisnes e no rio das trutas que corre serenamente pelo prado, e o brejo e o prado emitem uma alegria contínua e silenciosa.
O vale está rodeado por espinhaços e charnecas. No lado ocidental existe um estreito espinhaço, e a quinta que lhe fica mais próxima é Útiraudsmýri ou Mýri, a residência oficial do governador, a quem tem pertencido até agora este vale pantanoso. Mais adiante estendem-se terrenos vastos e povoados. Pela charneca ocidental, onde está talhado um caminho que vai dar à vila situada no fiorde, estima-se que a jornada dum bando de cavalos com carga levará cinco horas. A sul erguem-se do vale charnecas baixas e onduladas que se vão elevando até que as Montanhas Azuis encerram o horizonte, e é como se as montanhas de fundissem com o céu numa elevada iluminação, onde raramente a neve desaparece antes do solstício de Verão. E o que existe para além das Montanhas Azuis? A paisagem desértica do país.
E as brisas primaveris sopram pelo vale.
E quando as brisas primaveris sopram pelo vale, quando o sol da Primavera brilha na relva amarela das margens do rio, e no lago, e nos dos dois cisnes brancos deste lago, e incita a erva a brotar dos solos húmidos, quem havia de acreditar que este sereno vale verdejante englobasse a história das nossas vidas passadas e dos seus espectros? Pessoas andam a cavalo por ambas as margens do rio, onde durante séculos cavalos de tempos passados pisaram caminhos num terreno extenso, e com o sol a brilhar a brisa fresca da Primavera sopra pelo vale adentro. Nestes dias o sol é mais forte que o passado.
A nova geração esquece os fantasmas que possam ter atormentado os antepassados. (…)
Da montanha corria o riacho, que pertencia à quinta, em linha recta para o curral, depois virava para leste num semicírculo pelo monte, para poder seguir o seu percurso até ao prado. Havia duas quedas de água à altura dos joelhos e dois poços com a mesma profundidade. No fundo havia pedregulhos, seixos e areia. O riacho corria em várias curvas. Cada curva tinha um tom específico, mas em nenhuma havia um tom sombrio; era um riacho alegre e amante da música como a juventude, com várias cordas tocava os seus acordes sem se preocupar com audiências, e despreocupado mesmo se ninguém o tivesse ouvido durante cem anos, como o verdadeiro poeta. (…) o homem estava apenas repleto do espírito da modernidade e decidido a ser um homem livre na sua própria terra, um homem independente como outras gerações que ali se instalaram antes dele. (…)
Esses homens não tinham espírito de subserviência e não se viam como parte dum grupo. Viviam por sua própria conta, a independência era a sua mais-valia, eram homens de empreendimento individual e citavam as sagas e as rimas caso estivessem a beber aguardente. Eram homens de combate, perseverantes, que não tinham medo de enfrentar quaisquer adversidades físicas, nem mesmo a de passar fome com as suas famílias durante as derradeiras semanas de Inverno. Mas também não eram homens materialistas, desprovidos de espiritualidade, tinham Deus nas suas barrigas; antes sabiam de cor muitos versos livres e alguns exigiam invulgar habilidade para serem recitados, uns e outros até conseguiam improvisar quadras que falavam dos vizinhos, ou das dificuldades pessoais, ou dos perigos da vida, da natureza, ou da esperança de que melhores dias viriam no céu, e, sim, até sobre o amor. Bjartur fazia parte desses poetas."

                                  Halldór Laxness. (2013). Gente Independente. Lisboa: Cavalo de Ferro. 

sábado, 28 de maio de 2022

Estante de leitura – Uma semana nos rios Concord e Merrimack

“«Há uma voz interior, que no rio
Diz o que lhe vai na alma ao ouvido atento,
E corre com uma disposição tranquila,
Com o a sabedoria, acolhida pelo seu próprio respeito.
No seu seio repousa límpidos todos estes belos pensamentos,
Recebe as árvores verdes e airosas,
E as rochas cinzentas sorriem nos seus braços pacíficos.»

E o poema continuava, mas num tom demasiado sério para este livro. Para cada carvalho, e mesmo para cada bétula que se eleva no cume da colina, bem como para estes ulmeiros e salgueiros, sabíamos que existia uma árvores ideal, etérea e airosa, que cresce para baixo, e por vezes a natureza, quando a maré sobe, coloca o seu espelho a seus pés e torna-a visível. O silêncio era profundo e quase intencional, como se fosse um domingo natural, e gostávamos de imaginar que a manhã era o entardecer de um dia celestial. O ar era tão elástico e cristalino que tinha o mesmo efeito sobre a paisagem do que uma lente numa imagem: dar-lhe uma distância e uma perfeição ideais. a paisagem estava banhada numa luz suave e pacífica, em que os bosques e as vedações a reconfiguravam e a dividiam dando-lhe uma nova regularidade, e os campos acidentados estendiam-se a perder de vista com o aspeto liso de um relvado, enquanto as nuvens, pitorescas e recortadas com nitidez, pareciam um cortinado suspenso sobre um país encantado. Era como se o mundo estivesse enfeitado para qualquer festividade ou cerimónia, com fitas de seda a esvoaçar ao vento, e o trajeto das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho das nossas vidas a desenrolar-se à nossa frente como um caminho verdejante num labirinto rural, na estação em que as árvores de fruto estão em flor.
Por que razão a nossa vida e o cenário em que se desenrola não hão - de ser tão belos e nítidos? (…)
Embora as sombras das colinas começassem a invadir o rio, todo o vale ondulava com uma luz suave, mais pura e mais memorável do que ao meio-dia. Com efeito, é assim que o dia se despede mesmo nos vales isolados e desabitados. Duas garças-azuis-grandes, com as suas patas longas e esguias realçadas contra o céu, passaram alto sobre as nossas cabeças – o seu voo imponente e silencioso, ao crepúsculo, não parecia destinado a levá-las a pousar em qualquer pântano à superfície da Terra, mas, porventura, no outro lado da atmosfera, um símbolo para as gerações estudarem, quer esteja impresso no céu ou gravado entre os hieróglifos do Egito. Determinadas a atingir um prado a norte, mantinham o seu voo regular e majestoso, como as cegonhas nas ilustrações, até desaparecerem por trás das nuvens. Densos bandos de melros seguiam ao longo do curso do rio, como que numa curta peregrinação de final do dia a um dos seus santuários ou para celebrar aquele magnífico pôr-do-sol. Este supunha que todos os homens não tinham nada que fazer e eram de temperamento contemplativo.”

Uma semana nos rios Concord e Merrimack / Henry David Thoreau. Lisboa: Antígona, 2018. 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Estante de leitura – Sputnik, meu amor

“Cada um de nós possui qualquer coisa de especial, que se revela numa determinada altura da nossa vida, e só uma vez, como uma pequenina chama. As pessoas precavidas, abençoadas pela fortuna, conservam religiosamente essa chama, fazem-na crescer, usam-na como uma tocha que ilumina as suas vidas. Mas uma vez apagada, ela não voltará nunca mais a acender-se. Eu não me limitara a perder Sumire. Juntamente com ela, perdera também essa preciosa chama.

Amanhã meto-me no avião e regresso a Tóquio. As férias de Verão estão quase a acabar e voltarei a calcorrear os intermináveis caminhos do costume. É lá o meu lugar, é lá que estão o meu apartamento, a minha mesa de trabalho, a minha sala de aula, os meus alunos. Esperam-me dias tranquilos, romances por ler. Uma ou outra ligação esporádica.
Uma coisa é certa: não voltarei a ser o mesmo. A partir de amanhã, serei outra pessoa. Os que me rodeiam não se darão conta de que voltei ao Japão completamente diferente. Por fora, nada terá mudado, mas algo dentro de mim ficou reduzido a cinzas e deixou de existir. Houve sangue derramado e, dentro de mim, algo morreu. Desapareceu de vez, de cabeça baixa, sem uma palavra. Há uma porta que se abre e uma que se fecha. Apaga-se a luz. Para mim, tal como sou agora, hoje é o último dia. Este é o meu último entardecer. Quando o novo dia nascer, eu, tal, como sou agora, já não estarei aqui. Outra pessoa diferente habitará o meu corpo.
Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?.
Virei-me de costas sobre a laje de pedra, fitei o céu por cima de mim e pus-me a pensar na quantidade imensa de satélites que naquele preciso momento deviam girar à volta da Terra. No fio do horizonte era ainda possível distinguir uma réstia de luz, e as estrelas começavam a brilhar no céu de um profundo tom púrpura. Procurei com o olhar a luz de um satélite, mas havia demasiada claridade para distinguir fosse o que fosse a olho nu. As estrelas que estavam à vista permaneciam imóveis, cada uma no seu sítio, como se cravadas no céu. Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sptunik que continuavam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa. (…)
Fechei os olhos e esforcei-me por me lembrar do maior número possível de coisas belas que tinham desaparecido da minha vida. Esforcei-me por chamá-las a mim, retê-las entre as mãos, mesmo sabendo que a sua existência seria efémera. Sonho. Às vezes penso que é a única coisa que vale a pena. Sonhar, viver no mundo dos sonhos. Mas nunca dura muito tempo, a vigília acaba sempre por me trazer de novo a realidade. (…)
Salto da cama. Corro as velhas cortinas desbotadas e abro a janela. Ponho a cabeça de fora e ergo os olhos para o céu. Lá está ela, uma meia lua em tons bolorentos, pendurada no céu. Que bom. Estamos ambos a olhar para a mesma Lua do mesmo mundo. Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim.”

Sputnik, meu amor / Haruki Murakami. Lisboa: Cada das Letras, 2005.

sábado, 14 de maio de 2022

Estante de leitura – Alexis ou Tratado do vão Combate

“Toda a felicidade é inocência. Ainda que vos escandalize, é preciso repetir essa palavra que parece sempre miserável, pois nada prova melhor a nossa miséria do que a importância da felicidade. Durante algumas semanas, vivi de olhos fechados. Não abandonara a música; sentia pelo contrário uma grande facilidade em mover-me nela; conheceis essa leveza que experimentamos no fundo dos sonhos. Parecia que os minutos matinais me libertavam do meu corpo para o resto do dia. As minhas impressões de então, por muito diversas que fossem, são uma só na minha memória: dir-se-ia que a minha sensibilidade, porque não se cingia apenas a mim, se dilatava pelas coisas. A emoção da manhã prolongava-se nas frases musicais da tarde; – certo cambiante das estações, certo perfume, alguma antiga melodia de que então me enamorei passaram a ser para mim eternas tentadoras, porque me falam de um outro.

Aquilo que porventura torna a volúpia numa coisa tão terrível é ela ensinar-nos que temos um corpo. Até então, ele servia-nos a penas para viver. agora, sentimos que esse corpo tem a sua existência particular, os seus sonhos, a sua vontade, e que, até à nossa morte, teremos de o ter em conta, ceder, transigir ou lutar. Sentimos (julgamos sentir) que a nossa alma é tão-só o seu melhor sonho. Aconteceu-me, sozinho, frente a um espelho que desdobrava a minha angústia, perguntar-me o que teria de comum com o meu corpo, com os seus prazeres ou os seus males, como se eu não lhe pertencesse. Mas pertenço-lhe, minha amiga. Este corpo, que parece tão frágil, é todavia mais durável que as minhas virtuosas resoluções, talvez até que a minha alma, pois quantas vezes não morre a alma antes dele. Esta frase, Monique choca-vos por certo mais que toda a minha confissão: acreditais na alma imortal. Perdoai-me por ser menos seguro que vós ou menos orgulhoso; muitas vezes, a alma apenas me parece uma simples respiração do corpo.

E foi nesse momento que as minhas mãos ne apareceram. As minhas mãos repousavam nas teclas e era como se tivesse debaixo dos olhos a minha alma viva duas vezes. As minhas mãos pareceram-me de repente extraordinariamente sensitivas; mesmo imóveis, pareciam aflorar o silêncio como para o incitar a revelar-se em acordes. Repousavam, ainda um pouco trémulas do ritmo, e havia nelas todos os gestos futuros, como todos os sons possíveis dormiam naquele teclado. Havia atado em volta dos corpos a alegria breve dos abraços; haviam palpado, nos teclados sonoros, a forma das notas invisíveis; haviam, nas trevas, encerrado numa carícia o contorno dos corpos adormecidos. Muitas vezes as mantivera erguidas, num gesto de oração; muitas vezes as unira às vossas, mas nada disso se lembravam. Eram mãos anónimas, as mãos de um músico. Eram o meu intermediário, pela música, com esse infinito que somos tentados a chamar Deus, e, pelas carícias, o meu meio de contacto com a vida dos outros. Eram mãos apagadas, tão pálidas como o marfim em que se apoiavam, porque as tinha privado de sol, de trabalho e de alegria. E no entanto, eram servas bem fiéis; haviam-me alimentado, quando a música era o meu ganha-pão; e começava a compreender que há uma certa beleza em viver-se da sua arte; porquanto isso nos liberta de tudo o que não seja ela.

Na da iguala a doçura de uma derrota que sabemos definitiva: em Viena, durante esses últimos dias soalheiros de Outono, conheci o fascínio de reencontrar o meu corpo. O meu corpo que me cura de ter uma alma. Não soube, ou não ousei dizer-vos a adoração ardente que a beleza e o mistério dos corpos me faz sentir, nem como cada um deles, quando se oferece, parece trazer-me um fragmento da juventude humana. Minha amiga, viver é difícil. Já construí teorias morais de sobra para construir mais ainda, e contraditórias: sou demasiado sensato para acreditar que a felicidade apenas se encontra à beira de um erro, e o vício, tal como a virtude, não pode dar a alegria aos que a não têm em si mesmos. Simplesmente, ainda prefiro o erro (se de erro se trata) a uma denegação de nós próprios tão próxima da demência. A vida fez de mim aquilo que eu sou (se quisermos) de instintos que não escolhi, mas aos quais me resigno, e este consentimento, assim o espero, sem me trazer felicidade, há - de proporcionar-me a serenidade. Minha amiga, sempre vos julguei capaz de tudo compreender, o que é bem mais raro do que perdoar tudo.
Tendo sido incapaz de viver segundo a moral comum, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha: é no momento em que se rejeitam todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos. Havia tomado convosco compromissos imprudentes que a vida viria a contestar: peço-vos perdão, o mais humildemente possível, não por vos deixar, mas por ter ficado tanto tempo….. (…)

Alexis ou o Tratado do vão combate / Marquerite Yourcenar, Lisboa: Difel; 1988.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Estante de leitura – Doce Tóquio

"Como está? Espero que se encontre bem. O tempo ficou muito frio e invernoso, não é verdade? Continuo a tentar curar a constipação e há dias em que não me levanto da cama.

Como estão as coisas na Doraharu? Depois de o ver, fiquei com a impressão de que poderia estar com problemas e isso deixou-me preocupada. Ainda penso em si e na loja.

Recorda-se de como costumava perguntar-me o que estava a fazer enquanto preparava a pasta de feijão? Eu aproximava muito a cara dos feijões azuki e o senhor perguntava-me se ouvia alguma coisa. Bem, a única resposta que eu tinha era Escutar, mas pensei que se lhe dissesse isso ficaria confuso e foi por isso preferi não dizer nada.

Uma coisa que posso fazer em Tenshoen é cheirar o vento e escutar o murmúrio das árvores. Presto atenção à linguagem das coisas deste mundo que não usam palavras. É a isso que chamo Escutar, e faço-o há sessenta anos.

Quando preparo pasta de feijão doce, observo atentamente a cor da pele dos feijões azuki. Interiorizo as suas vozes. Isso pode significar que imagino os dias de chuva e de bom tempo que eles viram. Escuto as histórias dos ventos que sopram durante a viagem até chegarem a mim.

Acredito que tudo neste mundo tem uma linguagem. Temos a capacidade de abrir os ouvidos e as mentes a todas as coisas. Pode ser alguém a caminhar pela rua, e até o sol ou o vento. Compreendo que pode ter pensado que eu era uma velha chata e tenho pena de não ter conseguido transmitir-lhe esta mensagem vital, apesar de tudo o que lhe disse.

Quando passeio pela floresta em Tenshoen penso na Doraharu, em si, naquelas amorosas meninas e na Wakana. Desde que os laços com a minha irmã se romperam, não conheço mais ninguém fora destas muralhas. Ignoro o tempo de vida que me resta, mas sinto que o senhor e a Wakana são a minha família.

Talvez seja por isso que quando pensei em si ouvi sussurros no vento que soprou do outro lado da sebe e tive o pressentimento de que talvez fosse boa ideia escrever-lhe. (…)

Em todo o caso, tenho a certeza de que será capaz de criar os seus dorayaki. Eu faço pasto de feijão doce há muito tempo, mas isso não significa que tem de fazer tudo da mesma maneira que eu. É importante ser arrojado e decidido. Quando puder dizer com segurança que encontrou o seu estilo de dorayaki, será o início de um novo dia para si. Acredito piamente nisto. Por favor, tenha a coragem de seguir o seu caminho. Sei que terá sucesso.

Cumprimentos 
Tokue Yoshii”

Doce Tóquio / Durian Sukegawa. Alfragide: Asa, 2022.

sábado, 16 de abril de 2022

Estante de leitura – Louvor da terra

«Eles são [as plantas e os animais] o que nós fomos: são o que havemos de tornar a ser. Fomos natureza como eles, e a nossa cultura deverá fazer-nos voltar à natureza pela via da razão e da liberdade.” (Friedrich Schiller)
“No jardim, vivo as estações muito mais interessantes. Assim é grande também o sofrimento em vista do inverno que se avizinha. A luz enfraquece, torna-se mais ténue e macilenta. Eu nunca prestar tanta atenção à luz. A luz mortiça é-me dolorosa. No jardim, as estações são sobretudo corporalmente percebidas. O frio gelado da água que sai do bidão que recebe a água da chuva penetra profundamente no corpo. Todavia, a dor que sinto assim é uma dor benéfica, chega até a ser reconfortante. Devolve-me a realidade, e a própria corporalidade, que hoje se perde cada vez mais no mundo digital bem temperado. Este mundo digital não conhece temperatura, dor nem corpo. Mas o jardim é rico em sensibilidade e materialidade. Contém muito mais mundo do que o ecrã do computador.
Desde que trabalho no jardim, percebo o tempo de modo diferente. Corre muito mais devagar. Dilata-se. Parece-me que falta quase uma eternidade até que chegue a próxima Primavera. A próxima queda outonal das folhas afasta-se até uma distância inconcebível. O próprio Verão me parece infinitamente longínquo. O Inverno começa já a tornar-se para mim terno. O trabalho no jardim invernal prolonga-o. O Inverno nunca foi para mim tão longo como no meu primeiro ano de jardineiro. Sofri muito por causa do frio e do gelo persistentes, mas não por mim, antes pelas flores de Inverno que mantinham a sua floração apesar da neve e do gelo constante. A minha maior preocupação eram as flores e, por isso, oferecia-lhes a minha assistência. O jardim afasta-me um passo mais do meu eu. Com o jardim vou aprendendo lentamente o que significa oferecer assistência, ter preocupação com os outros. O jardim tornou-se um lugar de amor.
O tempo do jardim é um tempo do diferente. O jardim tem o seu próprio tempo, do qual eu não posso dispor. Cada planta tem o seu próprio tempo específico. No jardim cruzam-se muitos tempos específicos. Os açafrões-de-outono e os açafrões-de-primavera parecem semelhantes, mas têm um sentido do tempo completamente diferente. É espantoso como cada planta tem uma consciência do tempo muito marcada, talvez maior do que a do homem, que hoje de certo modo se tornou atemporal, pobre de tempo. O jardim torna possível uma experiência temporal intensa. Durante o meu trabalho no jardim, enriqueci-me de tempo. O jardim para o qual se trabalha devolve muito Dá-me ser e tempo. A espera incerta, a paciência necessária, o crescimento lento, engendram um sentido especial do tempo. (…)
Na sua obra Amor e Conhecimento, Max Scheler refere que, “de uma forma estranha e misteriosa”, Santo Agostinho atribui às plantas a necessidade “de que os homens as contemplem, como se graças a um conhecimento do se ser que o amor guia experimentassem assim qualquer coisa de análogo À redenção”. O conhecimento não é um ganho, ou não o é pelo menos o meu ganho, nem a minha redenção, mas a redenção do diferente. O conhecimento é amor. O olhar amoroso, o conhecimento guiado pelo amor redime a flor da sua carência ontológica. O jardim é, portanto, um lugar de redenção.”
                                   Louvor da Terra / Byung-Chul Han: Lisboa. Relógio D´Água: 2020