domingo, 20 de novembro de 2016

Estante de leitura – Apologia do ócio (I)

"A
indiferença de Diógenes tocou o ponto fraco de Alexandre. De que servia a glória de conquistar Roma, quando os bárbaros tumultuosos irromperam pelo Senado e ali encontraram os Patriarcas, sentados em silêncio, insensíveis ao seu triunfo? É doloroso ter laborado tanto e transporto os mais árduos obstáculos para chegar ao fim e encontrar a humanidade indiferente ao nosso êxito. 

Daí que os médicos condenem os não-médicos; que os financeiros mostrem apenas uma tolerância superficial pelos que nada sabem de acções; que as gentes literárias desprezem os iletrados; e que as pessoas de todas as ocupações se aliem para menosprezar as que com nada se ocupam. (…)
É absolutamente inquestionável que devemos ser bastante ociosos na juventude. Pois embora, aqui e ali, um Lord Macaulay possa sair a escola mantendo todas as suas faculdades intactas, a maioria dos rapazes paga um preço tão elevado pelas medalhas precoces que conquista, que nunca mais volta a ter uma oportunidade, “e começa a vida na bancarrota”. E o mesmo se aplica durante a altura em que um rapaz se educa a si próprio, ou permite que outros o eduquem. Deve ter sido muito tonto aquele ancião que dirigiu a Samuel Johnson em Oxford as seguintes palavras: “Jovem, agora é a altura para te agarrares aos livros com diligência, e adquirires conhecimentos; pois quando os anos se acumularem irás descobrir que ler se torna uma tarefa fastidiosa”. O cavalheiro não parece ter dado conta que muitas outras tarefas além da leitura se tornam fastidiosas, e algumas impossíveis, quando um homem se vê forçado a usar óculos e é incapaz de caminhar sem bengala. Os livros têm a sua utilidade, mas são um pobre substituto para a vida. É um desperdício ficar à espera, como a Senhora de Shalott em frente ao espelho, de costas voltadas a todo o encanto e rebuliço da realidade. E o homem que muito lê, como diz o velho ditado, vai ter pouco tempo para pensar.
Se recordarmos a nossa educação, certamente não serão as vividas, preenchidas e instrutivas horas de gazeta que nos trarão arrependimento; acharíamos de longe preferível omitir alguns daqueles períodos tristonhos, entre o sono e a vigília, dentro da sala de aula. Pela minha parte, assisti a muitas lições quando era novo. Ainda recordo que o girar de um pião se deve à Estabilidade Cinética. Ainda recordo que a enfiteuse não é uma doença, nem o estilicídio um crime. Mas embora não pretenda esquecer estes fragmentos de ciência, não lhes atribuo o mesmo valor que a outras ninharias que aprendi ao ar livre, enquanto vadiava. Não será este o momento para nos demorarmos sobre esse portentoso lugar de aprendizagem, a escola preferida de Dickens e Balzac, e que todos soa anos foram muitos mestres infames na Ciência de Todos os Aspectos da Vida. Basta afirmar o seguinte: se um rapaz nada aprender na rua, é porque não possui a capacidade de aprender. Nem o gazeteiro se encontra sempre nas ruas, pois, se assim o entender, pode percorrer os subúrbios ajardinados até ao campo. Pode sentar-se na margem de um regato, junto a uma moita de lilases, e fumar inúmeros cachimbos ao som da água a rolar sobre os seixos. Um pássaro cantará entre as copas. E talvez aí consiga afundar-se numa corrente de pensamentos gentis, e ver as coisas de uma nova perspectiva. Se isto não é educação, o que será?
Podemos imaginar um tal rapaz abordado pelo Sr. Wordly Wiseman, e o diálogo que se desenrolaria:
– Pois então, meu jovem, que fazes aqui?
– Em boa verdade vos digo, Senhor, não faço muito.
– Não é porventura esta a hora das lições? E não deverias estar aplicadamente curvado sobre os Compêndios, para assim adquirires o conhecimento?
Não, mas também aqui procuro Instrução, se me permite.
– Instrução, deveras? Que espécie de Instrução, pergunto? Matemática?
– Decerto que não.
– Metafísica?
– Também não.
– Alguma língua estrangeira?
– Não, não é língua alguma.
– Um ofício?
– Tão-pouco um ofício.
– Então, por Deus, de que se trata?
– Na verdade, caro Senhor, como em breve chegará a hora de iniciara minha Peregrinação, desejo aprender o procedimento normal das pessoas na minha situação, e saber onde ficam as piores valas e obstáculos do Caminho; e também gostaria de saber que género de Pessoa presta o melhor auxílio. Mais a mais, aqui repouso, junto a este regato, para memorizar a lição que o meu mestre-escola me ensinou a chamar Paz, ou Contentamento.

Robert Louis Stevenson. (2016). “Apologia do ócio”. Lisboa: Antígona.

sábado, 12 de novembro de 2016

Estante de leitura – M Train

"No início passa-se num tempo real. Uma mulher entra num jardim que transborda de cor. Não tem memória, apenas uma intensa curiosidade. Aproxima-se do homem. Ele não mostra curiosidade. Está parado em frente a uma árvore. Dentro da árvore há uma palavra que se transforma num nome. Ele recebe o nome de todas as coisas vivas. Em sintonia com o presente, não tem ambições nem sonhos. A mulher alcança-o, fascinada pelo mistério contido nas sensações que dela extravasam.

Fechei o caderno e sentei-me no café a pensar no tempo real. Será um tempo ininterrupto? Incluirá apenas o presente? Serão os nossos pensamentos nada mais do que comboios a passar, sem paragens, sibilando por enormes cartazes de imagens sucessivas?  Captando o fragmento de uma ideia num lugar à janela, seguida logo de outra num enquadramento idêntico? Se eu escrever no presente e começar a divagar, estarei ainda no tempo real? O tempo real, pensei, não pode ser dividido em secções como números no mostrador de um relógio. Se escrever a gora acerca do passado ao mesmo tempo que vivo no presente, estarei ainda no tempo real? Talvez não haja passado nem futuro, apenas o presente perpétuo que contém a tríade da memória. Olhei para a rua e notei que a luz do dia estava a mudar. Talvez o sol se tenha escondido atrás de uma nuvem. Talvez o tempo tenha deixado de existir. (…)

Nem todos os sonhos precisam de ser concretizados. Era isto o que o Fred costumava dizer. Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber. (…) Por fim, o Fred conseguiu o seu brevete, mas não tinha dinheiro para um avião. Eu escrevia ininterruptamente, mas não publicava nada. Apesar de tudo isto, continuámos a acreditar no conceito do relógio sem ponteiros. Todas as tarefas foram realizadas, a fosse preparada, sacos de areia empilhados, árvores plantadas, camisas engomadas, bainhas costuradas e, contudo, reservávamo-nos o direito de ignorar os ponteiros que continuavam a girar. Olhando para trás, já muito tempo depois da sua morte, o nosso modo de vida parece um milagre que apenas se conseguiu pela sincronia silenciosa das peças da engrenagem que constituem uma alma gémea."

Patti Smith. (2016). “Um relógio sem ponteiros”, in M Train. Lisboa: Quetzal, págs.97, 98, 100 e 101 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Palavras de sabedoria de um grande pensador. Un enfant terrible, da cultura francesa, um homem de fora da Academia e que sabe pensar o que nós devemos tentar ser entre a nossa pela, a sociedade e o cosmos que habitamos. Palavras para que cada um encontre o seu lugar, num processo de sabedoria individual em que seja possível construir uma relação vertical e estruturada consigo próprio, mas também com aquilo que o rodeia. Palavras de um livro chamado Cosmos e que está dividido em cinco partes:

"1 – O Tempo: uma forma a priori antes do que vive
2 – A Vida: a força da força
3 – O Animal: um alter ego diferente
4 – O Cosmos: Uma ética do universo enrugado
5 – O Sublime: A experiência da Imensidão
Palavras pensadas, olhadas como forma de filosofar sobre o que nos rodeia, a matéria, os outros, o cosmos e nós próprios. Palavras que se definem num manuseamento de valores existenciais, uma materialidade filosófica que buscam formas de utilização de cada um e de pensar a relação existencial com o universo e com os outros. E essa ideia de que o Cosmos estando já cá há milénios é ao homem que importa redefinir essa relação. Livro enorme de um grande pensador que vale a pena conhecer, Cosmos, de Michel Onfray. Livro que compõe uma triologia de três volumes sob o título genérico “Breve história do mundo”. Cosmos é o primeiro volume, a que se seguirão Decadência que tratará da história do mundo e o último designado Sabedoria que falará da ética da felicidade. Pensador que fundou uma universidade em Caen, e que cujo pensamento oscila entre o hedonismo e um pensamento libertário. Herdeiro de uma sabedoria do natural, dos ritmos da terra e do valor da filosofia antiga como forma de pensar o homem, Onfray recolocou a filosofia como um modo de vida. Aquilo que a Cultura clássica consideraria como objetos do seu estudo e da sua ação, o saber e o conhecer, a Filosofia como tema e o filosofar como integração da Filosofia na sua própria ação individual. Filosofia aprendida nos ritmos da natureza, mas também no espanto pela ação do que se observa. Espanto de ser, deste no tempo, desse ser no mundo e com os outros, com os animais, sem dúvida e também com as estrelas, com os ritmos da natureza. Michel Onfray trouxe-nos essa ideia essencial de fazer da Filosofia, não a arte do discurso, mas sim uma arte que se identifica numa forma de vida, no fundo a vida filosófica. Um livro para nos iniciar no diálogo com o que nos rodeia, para refazer palavras antigas, discursos fora do coração do homem, palavras para resgatar o ar puro e essa experiência do visível para uma vida mais conseguida, mais sábia. Em baixo, um excerto desse primeiro volume Cosmos, que integra a sua Breve História do Mundo. Cosmos é sem dúvida um dos grandes livros do presente. Um livro para nos transformar e que vale a pena voltar muitas vezes, pela intensidade e dimensão do que nos propõe.

Esculpir a natureza, não a suprimir; conhecer as leis do que é vivo em nós; aceitar o nosso destino de mamífero; colocar a cultura ao serviço da pulsão da vida; lutar contra toda a pulsão da morte; saber que tudo o que vive se alarga para lá do da dicotomia bem e mal; viver os tempos das estrelas, mais do que o dos cronómetros; querer uma vida natural em substituição de uma vida mutilada; trabalhar para viver e não viver para trabalhar; coincidir o mais possível com os movimentos do mundo; habitar densamente o instante presente; ser por não ter por ter; viver em graça e não apenas sobreviver sendo; se criar o tempo de lazer pessoal; se saber pura matéria; distinguir sobre aquilo que temos poder e aquilo que não temos; querer aquilo que nos acontece quando não podemos agir contra isso; saber aquilo que o indivíduo crê desejar e o que o deseja a espécie; obedecer o mais possível a um sentido de vida que ultrapasse um mero programa para lá do bem e do mal; saber que nós não estamos dentro da natureza, mas que nós somos a natureza; identificar os predadores para nos prevenirmos deles; recusar todo o pensamento mágico; descobrir o mecanismo do relógio biológico de cada um; viver segundo os ciclos pagãos do tempo circular; não ignorar os princípios de fuga da nossa psique material; conhecer as leis do céu pagão; fazer descer o céu sobre a terra; ultrapassar o conhecimento cristão; utilizar a psique para abolir a metafísica; regressar ao cosmos para ultrapassar o niilismo; descartar os numerosos livros que nos afastam do mundo; meditar com os poucos livros que nos religam ao mundo; interrogar as sabedorias pré-cristãs em vista de um saber que seja póscristão; recusar todo o trabalho inútil de um ponto de vista existencial; utilizar a razão contra as superstições; reactualizar a linha de pensamento epicuriano; a morte não é um mal, o sofrimento é suportável, os deuses não estão aí para nos amarrar, a felicidade é possível; dar a nossa aprovação a um materialismo integral; recusar a religião provedora de mundos passados; se persuadir que morrer enquanto vivemos é pior do que morrer um dia; preparar a sua morte por uma vida adequada, filosofar para aprender verdadeiramente a morrer; experimentar o sublime pela contemplação do cosmos; saber que o homem é um animal diferente em grau, mas não não na natureza; tratar os animais de acordo com as suas características individuais; recusar ser um animal predador; excluir infligir sofrimento a um ser vivo; recusar fazer um espectáculo com a morte de um animal; se reconciliar com os animais; receber lições dos animais, do que nos podem ensinar; fazer da Etologia a primeira ciência do homem; construir uma frugalidade alimentar; se dedicar a conduzir a vida de um modo poético; procurar de seguida o exercício da via filosófica; aumentar a sua presença no mundo; conceder aos artistas as suas vias de acesso ao mundo; parar, no mundo, de viver fora do mundo."

Michel Onfray. (2015). Cosmos. Paris: Flammarion. Livre de Poche.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Estante de leitura – Vou lá visitar pastores

 "A lavra é pronta. A terra aguarda a chuva que a embeba e adoece, para a mordedura urgente das enxadas. O chão é exposto ao sol e a terra crua, trazida à superfície pela derruba, muda de cor com o tempo e de textura, do barro à crosta seca que a pressão desfaz.

A vida oculta, que aí se tinha fértil, guardada pela sombra do muxito – húmida e quente, a fermentar verduras – abandonou o trato, se movente, ou murcha se fenece, sem abrigo, se vegetal e tenra.
Vista de longe, inserida na encosta para além do vale, prolonga outras clareiras mais antigas e apenas se distingue, sendo nova, pela cor de folhas mortas no chão que era da mata, e pelos sinais de cinza que  o fogo largou. O muxito que a cerca, acometido há pouco pela catana, destaca ainda troncos paralelos, verticais, sem trepadeiras tenras que os confundam ou arbustiva flora onde se implantem.
Vista de perto, se a mão pode alcançar o pormenor das pedras, e das fibras, deixa de haver clareira, há só a terra e o microcosmos que a produz fecunda: o grão de areia a rebrilhar na argila, a massa apodrecida da raiz castanha, a malha fina e densa da cabeleira que uma planta esconde na escuridão do húmus, o verme informe que segrega sais, a galeria das térmitas cimentada e múltipla.
O que antes era equilíbrio de silêncios, a folha morta sobre a folha podre,  afolha podre sobre o chão castanho, o chão castanho sobre a terra crua, (a folha morta a decompor-se em podre, a podridão a misturar-se aos sais, a solução – a seiva – progredindo aos ramos e os ramos a explodirem tenras ramas) jaz desventrado agora, exposto ao sol e ao vento, ao fumo, aos pés e aos olhos.
De chuva se carece, para refazer a vida e dominar o tempo e o movimento. Virá de madrugada, na noite escura de uma lua avulsa, sem ventos que a precedam ou mais sinais que a digam certa e exata.
A primeira manhã de uma primeira chuva: as encostas de pronto povoadas por femininos corpos; o som e a imagem limpos, tudo tão perto, o canto e o gesto; o fumo e a neblina, anterior e esparsa, que confundia as serras e as distâncias, agora floculada em brancas nuvens, baixas e rentes, a emergir dos vales, por detrás dos morros.
O mundo é claro. Dir-se-á varrido. Varrido da poalha que encurtava a vista e abafava o som. Por isso o campo agora é desenhado e nítido, e onde havia só a dimensão e a cor de uma esbatida massa de cinzentos, surge o recorte, firme, dos vegetais distintos – o plano sobre o plano, a folha sobre a folha – e a construção real das pedras altas – a pedra sobre a pedra, a fenda entre uma e outra, o seu volume.
De súbito se impõe a geografia exacta deste mundo, rigorosa e clara, e dói sabê-la assim tão rica de caminhos, de um momento para o outro aberta ao movimento e aos sinais: a escura habitação, o seu contorno; a goiabeira e as muitas outras plantas que dão fruto; e os animais, varando o espaço aberto, cientes da fartura que os aguarda.
Com a chuva se inaugura o tempo do concreto. O que era mato, ontem, hoje é matos.  E cada um se apresta para dar-se à vida. Debruçam-se as mulheres nas lavras de sustento; os homens gratificam cafezais."

Ruy Duarte de Carvalho. (1999). Vou lá visitar pastores. Lisboa: Cotovia.

domingo, 3 de julho de 2016

Estante de leitura – Água viva

"Estou tentando captar a quarta dimensão do instante – já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante – já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogo de artifício eles rebentam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. 

Só no ato do amor – pela límpida abstração da estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal joia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio dos instantes – e o que se sente é ao mesmo tempo que imaterial tão objetivo que acontece como fora do corpo, faiscante no alto, alegria, alegria é matéria de tempo e é por excelência o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.

Meu tema é o instante? meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os monstros – só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.
Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o saber-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo a corpo comigo mesma. Não se compreende a música: ouve-se. Ouve-me então com o teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições. Já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora inacabada. A palavra é a minha quarta dimensão.

Clarice Lispector. (2012). Água viva. Lisboa: Relógio D´Água, páginas 09 e 10.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Estante de leitura – O coração também pensa

"Que coisa gera a dor gratuita, senão a revolta?
Que os malvados recebam uma punição nesta terra, e talvez também depois, pode estar certo. Aliás, a ideia até dá alívio à maioria das pessoas, mas os inocentes, aqueles que não têm culpa?
Um gatinho? Uma criança? Como se pode aceitar tal loucura?
Para muitos basta isso para recusarem para sempre qualquer conceito que rejeite a anarquia do destino, para outros, pelo contrário, a dor é um desafio para seguir por diante. Tudo aquilo que acontece nos interroga, e a interrogação é a única via que nos permite subtrair posições ao nada. O mal não nos devora, a dor devasta-nos, mas não nos aniquila.
A partir do momento em que tive o dom da vida, e portanto da consciência, não tenho problemas em discutir com os outros. Mesmo não sabendo o que é, mesmo não sabendo como encontrá-la, quero ir ao encontro da Verdade que envolve e sustém todas as coisas.
Não é o mundo dos homens que nos fala dela, mas sim o mundo de onde os homens estão ausentes – o murmúrio dum bosque de coníferas roçado pelo vento, o olhar luminoso dum vitelo acabado de nascer, a fragilidade magnífica de uma borboleta, o voo dum peneireiro suspenso lá no alto contra as nuvens do céu.
A voz do meu coração não poderia falar-me tão profundamente se não me tivesse dado o dom do deslumbramento.
Deslumbramento pela natureza, deslumbramento pela harmonia que, apesar de tudo, eu via – e vejo – à minha volta. Foi certamente este sentido de percepção do bem e do belo que me salvou nos momentos mais obscuros da minha vida.~
E o que é o deslumbramento senão uma sensação de maravilha súbita e incrível? Aquilo que acreditávamos não ser, de repente mostra-nos que é, as fibras mais profundas da nossa pessoa distinguem, como um esplendor, a existência duma outra realidade.
Por uma fracção de segundo, o jugo do tempo é quebrado, e essa fratura gera um escorço na eternidade.
Ah, então é dali que vimos?
É ali que somos esperados?
Um instante em que a Luz nos cega.
O selo desta Luz é a beleza que se nos oferece constantemente, sem razão. De modo gratuito."

Susanna Tamaro. (2016). O coração também pensa. Lisboa: Editorial Presença. 

domingo, 12 de junho de 2016

Estante de leitura – Epigrama Nº 5


"Gosto da gota d´água que se equilibra

na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto, 
pronto a cair, pronto a ficar – límpido e exato.

A a folha é um pequeno deserto  
para a imensidade do ato.

Cecília Meireles. (2013). Antologia Poética. São Paulo: Global Editora, página 27.