sábado, 25 de fevereiro de 2017

Estante de leitura – Haja Luz!

"O século XVIII, sendo fundamentalmente o século da codificação e organização foi também, paradoxalmente, o século das liberdades – individuais, políticas e sexuais. Foi ainda o tempo das mais importantes revoluções de sempre: a Revolução Americana (1775 – 1781) que levou à independência dos Estados Unidos da América, e a Revolução Francesa (1787 – 1799), com o seu slogan de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O grito da liberdade generalizou-se – até o Don Giovani (1787) de Mozart canta “Viva la libertá!”. Curiosamente, a diferença entre a Europa e a América manifestou-se logo à nascença desta última. Ao contrário do que aconteceu com a Revolução Francesa (ou a Russa, 130 anos mais tarde), a Americana não conheceu o Terror ou as Grandes Purgas. Por isso, apesar do apelido, os Du Points foram mais americanos que franceses!

Inspirada no texto da constituição de certos estados americanos (como a Virgínia), a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada pela Assembleia Constituinte da França e aceite pelo Rei Louis XVI em 1789. Aí se consagrava a separação dos poderes (legislativo, executivo e judicial), que tinha sido primeiramente enunciada por Montesquieu no seu famoso Do Espírito das Leis (1748). Os outros pilares ideológicos da Declaração eram a doutrina dos direitos naturais desenvolvida pelo filósofo inglês John Locke e  os conceitos de vontade colectiva e soberania da nação que vinham de Rousseau. É nessa declaração que se define Liberdade como “o direito de fazer tudo o que não prejudique os outros”. 

Na mesma altura, o panfletista humanitário, Thomas Paine, inglês de nascimento, mas cidadão do mundo, publicou o seminal Direitos do Homem (em duas partes, 1791, 1792), em resposta às Reflexões sobre a Revolução em França (1790) de Edmund Burke, o teorizador do Sublime e do Belo, e sujeito claramente hostil à Revolução Francesa.

O Homem Sensível e  Homem Político nasceram, de facto, no século XVIII. Simultaneamente emergiu a figura do cidadão e do indivíduo. Somos todos iguais em direitos, mas cada um de nós é um ser único e especial, um indivíduo ( a que se juntam as suas circunstâncias). A importância do indivíduo em relação à classe teve reflexos em artes tão diversas como a música e a literatura. Por exemplo, no desenvolvimento do concerto para solista (piano, violino, flauta, etc.) e orquestra, onde se assiste à afirmação gradual do indivíduo perante a massa sinfónica. O solista passa a ter direito a uma cadenza, isto é, a poder improvisar, sozinho, ao piano (ou com o violino, a flauta, etc.); a orquestra, entretanto emudece para ouvir a voz individual do intérprete. A conscencialização do indivíduo também deu origem ao personagem de ficção, isto é, possibilitou a criação do romance moderno, até aí confinado ao género epistolar ou, o teatro, construído com figuras-tipo, máscaras ou marionetas."

Jorge Calado. (2015). Haja Luz; uma história da química através de tudo. Lisboa. Instituto Sup. Técnico Press. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Estante de leitura – Presa comum

"Faço soar as grades deste Inverno

com um candeeiro fraco ao meu lado.
Não estarás hoje à janela,
à procura de chuva
na frequência do oceano,
esperando melhores anos,
com esse rebuliço doméstico que
me atrapalha as asas de corvo.
…
Se por aqui dispensares ainda
as tuas horas extraordinárias,
peço-te que não sorvas o
entulho todo, que deixes
ao menos esta mão estendida,
debicando cega no anfiteatro
da nossa tarde Agosto."

Frederico Pedreira. (2015). “51”. Presa comum. Lisboa: Relógio d’ Água.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Estante de leitura – Flores

"Nos últimos tempos, quando sinto os lábios da Clarisse a tocarem os meus, comprovo que não têm história, já não convocam o primeiro beijo que demos. Creio que, numa relação, o beijo terá sempre de manter a densidade do primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor. Mas já não é assim. Agora sabem às vacinas que tínhamos de dar à cadela, às conversas com o diretor da escola, à loiça por lavar, à lâmpada que falta mudar, às infiltrações no teto, às reuniões de condóminos. Toco levemente os lábios dela e sabe-me à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijamo-nos como quem faz a cama. O tempo lá fora batia na janela, era um calor gordo que parecia querer partir os vidros com um murro espesso e entrar. Sentei-me na retrete com a cabeça entre as pernas e pensei na vida, nesse imenso tédio em que me havia afundado. Debatia-me com falta de ar, uma espécie de choque anafilático, provocado pela repetição monótona de horas, minutos e segundos. (…) Tenho a certeza que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, um dia olhamo-nos ao espelho e estamos transformados em estátuas, faz lembrar a mulher de Lot, quando ela e o marido saem de Sodoma, estando a ser destruída devido à iniquidade dos seus habitantes, e lhe dizem para não olhar para trás. Come a carne, Beatriz, ainda tens tudo no prato, disse, enfim, aquilo de olhar para trás era o pecado, a mulher de Lot não deveria ter qualquer desejo de regressar a uma vida absolutamente sedentária, desejar a rotina e execrar a mudança, uma vida nova, mas sei que isto nos acontece, queremos o conforto da banalidade, daquilo que conhecemos, sentarmo-nos num restaurante e pedir sempre o mesmo bitoque, olhar para a corrupção quotidiana como quem olha uma montra de um pronto-a-vestir, fazer sempre as mesmas maldades, dobrar as camisolas da mesma maneira, votar nos mesmos criminosos, saber que as meias estão na gaveta certa, ignorar a miséria e ter a certeza absoluta de que os chapéus não são serão jamais pousados em cima da cama.

Quanto tempo leva a atravessar um coração de um  lado ao outro? Muito, adormecemos com a cabeça apoiada no balcão do bar, ou com a cabeça inclinada para trás e a boca aberta e a novela a dar na televisão, percorremos as mesmas ruas sem notar como elas mudam, sentamo-nos nos jardins a jogar dominó, é uma dormência permanente, esquecemo-nos do caminho porque ele é tão mal iluminado. Mas é esse, que não tem iluminação pública, que entra floresta adentro, é esse que atravessa o coração. Lembro-me do tempo em que os meus dedos eram flores antigas, que despontavam apenas tocavam a tua pele. Mas agora, Clarisse, para onde foram esses meses de Primavera que faziam a nossa vida florir? Levanto o coração, como se faz a um tapete, para ver se não há nada debaixo dele. A Clarisse mexeu-se, como se tivesse ouvido os meus pensamentos, encostou as mãos à minha cabeça e eu senti-lhe o coração a bater nas pontas dos dedos. Como isso me faz confusão, não conseguia dormir, mas não queria afastá-la, por já estarmos tão distantes. Houve um tempo em que cosi as minhas artérias ao teu corpo e todo o sangue que bombeava era na tua direcção. Lembro-me de caminharmos de mãos dadas pelas ruas de Rabat, num dia de Agosto, o calor a esmagar os dias com pé, como quem faz vinho. As nossas sombras alongavam-se pelo souq, e parámos para comer kefta, o nosso hálito cheio de cominhos e cebola e sementes de coentros, e eu passei as mãos pelo teu cabelo e tu suspiraste, atirando-me um sorriso feito com os os olhos fechados.

– Sou uma flor, daquelas que nascem nos cemitérios. Há uma veia que atravessa os séculos e que nos transforma em mitos. Guardo essa espécie de doença como uma gravidez, a esperança de que o amor me desenterre, me salve da morte, que abra a terra e do seu ventre tire uma nova vida, plena. Talvez ninguém se lembre de que somos todos mais antigos do que achamos. A nossa vida não começa no hospital ou nas mãos de uma parteira, mas sim na História, nos outros, nas vidas que nos precederam. Nascemos no mesmo dia em que o Universo nasceu, na mesma explosão. Eu, evidentemente, não sou excepção. O meu cartão de cidadão não tem o nome Inês de Castro, mas eu sou a Inês de Castro. Serei levantada do chão, porão uma coroa na minha cabeça. A vida eterna depende do amor dos outros, são eles que escavam a terra com as suas unhas e nos salvam do lugar frio e amorfo a que todos fomos condenados. Os nossos acidentes são diferentes, mas a essência, o osso do que somos é o mesmo. O tempo não nos separa, somos no presente uma face do passado, um novo ângulo do que já aconteceu. (…) Talvez haja uma corda pendurada em todos os pescoços, talvez caminhemos sobre vidros  partidos, talvez a nossa alma seja uma lâmpada fundida, talvez o futuro seja uma flor deitada num caixão, talvez as nossas ambições sejam programas de televisão coloridos, talvez nos doam as esperanças, talvez nos deitemos todas as noites como o entrecosto nas montras do talho, talvez nos falte a saliva nas palavras, talvez nos caiam os dentes podres para dentro da voz, talvez nos rasguem os ossos como papel, talvez a chuva só exista dentro do nosso corpo, talvez… E, porém, iluminamos o mundo. Existe um caos, uma escuridão, mas o mundo, o mundo só existe quando apontamos uma chama na sua direção e o incendiamos."

                  Afonso Cruz. (2015). Flores. Lisboa: Companhia das Letras, páginas 25, 72, 86, 87 e 210. 

domingo, 20 de novembro de 2016

Estante de leitura – Apologia do ócio (I)

"A
indiferença de Diógenes tocou o ponto fraco de Alexandre. De que servia a glória de conquistar Roma, quando os bárbaros tumultuosos irromperam pelo Senado e ali encontraram os Patriarcas, sentados em silêncio, insensíveis ao seu triunfo? É doloroso ter laborado tanto e transporto os mais árduos obstáculos para chegar ao fim e encontrar a humanidade indiferente ao nosso êxito. 

Daí que os médicos condenem os não-médicos; que os financeiros mostrem apenas uma tolerância superficial pelos que nada sabem de acções; que as gentes literárias desprezem os iletrados; e que as pessoas de todas as ocupações se aliem para menosprezar as que com nada se ocupam. (…)
É absolutamente inquestionável que devemos ser bastante ociosos na juventude. Pois embora, aqui e ali, um Lord Macaulay possa sair a escola mantendo todas as suas faculdades intactas, a maioria dos rapazes paga um preço tão elevado pelas medalhas precoces que conquista, que nunca mais volta a ter uma oportunidade, “e começa a vida na bancarrota”. E o mesmo se aplica durante a altura em que um rapaz se educa a si próprio, ou permite que outros o eduquem. Deve ter sido muito tonto aquele ancião que dirigiu a Samuel Johnson em Oxford as seguintes palavras: “Jovem, agora é a altura para te agarrares aos livros com diligência, e adquirires conhecimentos; pois quando os anos se acumularem irás descobrir que ler se torna uma tarefa fastidiosa”. O cavalheiro não parece ter dado conta que muitas outras tarefas além da leitura se tornam fastidiosas, e algumas impossíveis, quando um homem se vê forçado a usar óculos e é incapaz de caminhar sem bengala. Os livros têm a sua utilidade, mas são um pobre substituto para a vida. É um desperdício ficar à espera, como a Senhora de Shalott em frente ao espelho, de costas voltadas a todo o encanto e rebuliço da realidade. E o homem que muito lê, como diz o velho ditado, vai ter pouco tempo para pensar.
Se recordarmos a nossa educação, certamente não serão as vividas, preenchidas e instrutivas horas de gazeta que nos trarão arrependimento; acharíamos de longe preferível omitir alguns daqueles períodos tristonhos, entre o sono e a vigília, dentro da sala de aula. Pela minha parte, assisti a muitas lições quando era novo. Ainda recordo que o girar de um pião se deve à Estabilidade Cinética. Ainda recordo que a enfiteuse não é uma doença, nem o estilicídio um crime. Mas embora não pretenda esquecer estes fragmentos de ciência, não lhes atribuo o mesmo valor que a outras ninharias que aprendi ao ar livre, enquanto vadiava. Não será este o momento para nos demorarmos sobre esse portentoso lugar de aprendizagem, a escola preferida de Dickens e Balzac, e que todos soa anos foram muitos mestres infames na Ciência de Todos os Aspectos da Vida. Basta afirmar o seguinte: se um rapaz nada aprender na rua, é porque não possui a capacidade de aprender. Nem o gazeteiro se encontra sempre nas ruas, pois, se assim o entender, pode percorrer os subúrbios ajardinados até ao campo. Pode sentar-se na margem de um regato, junto a uma moita de lilases, e fumar inúmeros cachimbos ao som da água a rolar sobre os seixos. Um pássaro cantará entre as copas. E talvez aí consiga afundar-se numa corrente de pensamentos gentis, e ver as coisas de uma nova perspectiva. Se isto não é educação, o que será?
Podemos imaginar um tal rapaz abordado pelo Sr. Wordly Wiseman, e o diálogo que se desenrolaria:
– Pois então, meu jovem, que fazes aqui?
– Em boa verdade vos digo, Senhor, não faço muito.
– Não é porventura esta a hora das lições? E não deverias estar aplicadamente curvado sobre os Compêndios, para assim adquirires o conhecimento?
Não, mas também aqui procuro Instrução, se me permite.
– Instrução, deveras? Que espécie de Instrução, pergunto? Matemática?
– Decerto que não.
– Metafísica?
– Também não.
– Alguma língua estrangeira?
– Não, não é língua alguma.
– Um ofício?
– Tão-pouco um ofício.
– Então, por Deus, de que se trata?
– Na verdade, caro Senhor, como em breve chegará a hora de iniciara minha Peregrinação, desejo aprender o procedimento normal das pessoas na minha situação, e saber onde ficam as piores valas e obstáculos do Caminho; e também gostaria de saber que género de Pessoa presta o melhor auxílio. Mais a mais, aqui repouso, junto a este regato, para memorizar a lição que o meu mestre-escola me ensinou a chamar Paz, ou Contentamento.

Robert Louis Stevenson. (2016). “Apologia do ócio”. Lisboa: Antígona.

sábado, 12 de novembro de 2016

Estante de leitura – M Train

"No início passa-se num tempo real. Uma mulher entra num jardim que transborda de cor. Não tem memória, apenas uma intensa curiosidade. Aproxima-se do homem. Ele não mostra curiosidade. Está parado em frente a uma árvore. Dentro da árvore há uma palavra que se transforma num nome. Ele recebe o nome de todas as coisas vivas. Em sintonia com o presente, não tem ambições nem sonhos. A mulher alcança-o, fascinada pelo mistério contido nas sensações que dela extravasam.

Fechei o caderno e sentei-me no café a pensar no tempo real. Será um tempo ininterrupto? Incluirá apenas o presente? Serão os nossos pensamentos nada mais do que comboios a passar, sem paragens, sibilando por enormes cartazes de imagens sucessivas?  Captando o fragmento de uma ideia num lugar à janela, seguida logo de outra num enquadramento idêntico? Se eu escrever no presente e começar a divagar, estarei ainda no tempo real? O tempo real, pensei, não pode ser dividido em secções como números no mostrador de um relógio. Se escrever a gora acerca do passado ao mesmo tempo que vivo no presente, estarei ainda no tempo real? Talvez não haja passado nem futuro, apenas o presente perpétuo que contém a tríade da memória. Olhei para a rua e notei que a luz do dia estava a mudar. Talvez o sol se tenha escondido atrás de uma nuvem. Talvez o tempo tenha deixado de existir. (…)

Nem todos os sonhos precisam de ser concretizados. Era isto o que o Fred costumava dizer. Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber. (…) Por fim, o Fred conseguiu o seu brevete, mas não tinha dinheiro para um avião. Eu escrevia ininterruptamente, mas não publicava nada. Apesar de tudo isto, continuámos a acreditar no conceito do relógio sem ponteiros. Todas as tarefas foram realizadas, a fosse preparada, sacos de areia empilhados, árvores plantadas, camisas engomadas, bainhas costuradas e, contudo, reservávamo-nos o direito de ignorar os ponteiros que continuavam a girar. Olhando para trás, já muito tempo depois da sua morte, o nosso modo de vida parece um milagre que apenas se conseguiu pela sincronia silenciosa das peças da engrenagem que constituem uma alma gémea."

Patti Smith. (2016). “Um relógio sem ponteiros”, in M Train. Lisboa: Quetzal, págs.97, 98, 100 e 101 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Palavras de sabedoria de um grande pensador. Un enfant terrible, da cultura francesa, um homem de fora da Academia e que sabe pensar o que nós devemos tentar ser entre a nossa pela, a sociedade e o cosmos que habitamos. Palavras para que cada um encontre o seu lugar, num processo de sabedoria individual em que seja possível construir uma relação vertical e estruturada consigo próprio, mas também com aquilo que o rodeia. Palavras de um livro chamado Cosmos e que está dividido em cinco partes:

"1 – O Tempo: uma forma a priori antes do que vive
2 – A Vida: a força da força
3 – O Animal: um alter ego diferente
4 – O Cosmos: Uma ética do universo enrugado
5 – O Sublime: A experiência da Imensidão
Palavras pensadas, olhadas como forma de filosofar sobre o que nos rodeia, a matéria, os outros, o cosmos e nós próprios. Palavras que se definem num manuseamento de valores existenciais, uma materialidade filosófica que buscam formas de utilização de cada um e de pensar a relação existencial com o universo e com os outros. E essa ideia de que o Cosmos estando já cá há milénios é ao homem que importa redefinir essa relação. Livro enorme de um grande pensador que vale a pena conhecer, Cosmos, de Michel Onfray. Livro que compõe uma triologia de três volumes sob o título genérico “Breve história do mundo”. Cosmos é o primeiro volume, a que se seguirão Decadência que tratará da história do mundo e o último designado Sabedoria que falará da ética da felicidade. Pensador que fundou uma universidade em Caen, e que cujo pensamento oscila entre o hedonismo e um pensamento libertário. Herdeiro de uma sabedoria do natural, dos ritmos da terra e do valor da filosofia antiga como forma de pensar o homem, Onfray recolocou a filosofia como um modo de vida. Aquilo que a Cultura clássica consideraria como objetos do seu estudo e da sua ação, o saber e o conhecer, a Filosofia como tema e o filosofar como integração da Filosofia na sua própria ação individual. Filosofia aprendida nos ritmos da natureza, mas também no espanto pela ação do que se observa. Espanto de ser, deste no tempo, desse ser no mundo e com os outros, com os animais, sem dúvida e também com as estrelas, com os ritmos da natureza. Michel Onfray trouxe-nos essa ideia essencial de fazer da Filosofia, não a arte do discurso, mas sim uma arte que se identifica numa forma de vida, no fundo a vida filosófica. Um livro para nos iniciar no diálogo com o que nos rodeia, para refazer palavras antigas, discursos fora do coração do homem, palavras para resgatar o ar puro e essa experiência do visível para uma vida mais conseguida, mais sábia. Em baixo, um excerto desse primeiro volume Cosmos, que integra a sua Breve História do Mundo. Cosmos é sem dúvida um dos grandes livros do presente. Um livro para nos transformar e que vale a pena voltar muitas vezes, pela intensidade e dimensão do que nos propõe.

Esculpir a natureza, não a suprimir; conhecer as leis do que é vivo em nós; aceitar o nosso destino de mamífero; colocar a cultura ao serviço da pulsão da vida; lutar contra toda a pulsão da morte; saber que tudo o que vive se alarga para lá do da dicotomia bem e mal; viver os tempos das estrelas, mais do que o dos cronómetros; querer uma vida natural em substituição de uma vida mutilada; trabalhar para viver e não viver para trabalhar; coincidir o mais possível com os movimentos do mundo; habitar densamente o instante presente; ser por não ter por ter; viver em graça e não apenas sobreviver sendo; se criar o tempo de lazer pessoal; se saber pura matéria; distinguir sobre aquilo que temos poder e aquilo que não temos; querer aquilo que nos acontece quando não podemos agir contra isso; saber aquilo que o indivíduo crê desejar e o que o deseja a espécie; obedecer o mais possível a um sentido de vida que ultrapasse um mero programa para lá do bem e do mal; saber que nós não estamos dentro da natureza, mas que nós somos a natureza; identificar os predadores para nos prevenirmos deles; recusar todo o pensamento mágico; descobrir o mecanismo do relógio biológico de cada um; viver segundo os ciclos pagãos do tempo circular; não ignorar os princípios de fuga da nossa psique material; conhecer as leis do céu pagão; fazer descer o céu sobre a terra; ultrapassar o conhecimento cristão; utilizar a psique para abolir a metafísica; regressar ao cosmos para ultrapassar o niilismo; descartar os numerosos livros que nos afastam do mundo; meditar com os poucos livros que nos religam ao mundo; interrogar as sabedorias pré-cristãs em vista de um saber que seja póscristão; recusar todo o trabalho inútil de um ponto de vista existencial; utilizar a razão contra as superstições; reactualizar a linha de pensamento epicuriano; a morte não é um mal, o sofrimento é suportável, os deuses não estão aí para nos amarrar, a felicidade é possível; dar a nossa aprovação a um materialismo integral; recusar a religião provedora de mundos passados; se persuadir que morrer enquanto vivemos é pior do que morrer um dia; preparar a sua morte por uma vida adequada, filosofar para aprender verdadeiramente a morrer; experimentar o sublime pela contemplação do cosmos; saber que o homem é um animal diferente em grau, mas não não na natureza; tratar os animais de acordo com as suas características individuais; recusar ser um animal predador; excluir infligir sofrimento a um ser vivo; recusar fazer um espectáculo com a morte de um animal; se reconciliar com os animais; receber lições dos animais, do que nos podem ensinar; fazer da Etologia a primeira ciência do homem; construir uma frugalidade alimentar; se dedicar a conduzir a vida de um modo poético; procurar de seguida o exercício da via filosófica; aumentar a sua presença no mundo; conceder aos artistas as suas vias de acesso ao mundo; parar, no mundo, de viver fora do mundo."

Michel Onfray. (2015). Cosmos. Paris: Flammarion. Livre de Poche.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Estante de leitura – Vou lá visitar pastores

 "A lavra é pronta. A terra aguarda a chuva que a embeba e adoece, para a mordedura urgente das enxadas. O chão é exposto ao sol e a terra crua, trazida à superfície pela derruba, muda de cor com o tempo e de textura, do barro à crosta seca que a pressão desfaz.

A vida oculta, que aí se tinha fértil, guardada pela sombra do muxito – húmida e quente, a fermentar verduras – abandonou o trato, se movente, ou murcha se fenece, sem abrigo, se vegetal e tenra.
Vista de longe, inserida na encosta para além do vale, prolonga outras clareiras mais antigas e apenas se distingue, sendo nova, pela cor de folhas mortas no chão que era da mata, e pelos sinais de cinza que  o fogo largou. O muxito que a cerca, acometido há pouco pela catana, destaca ainda troncos paralelos, verticais, sem trepadeiras tenras que os confundam ou arbustiva flora onde se implantem.
Vista de perto, se a mão pode alcançar o pormenor das pedras, e das fibras, deixa de haver clareira, há só a terra e o microcosmos que a produz fecunda: o grão de areia a rebrilhar na argila, a massa apodrecida da raiz castanha, a malha fina e densa da cabeleira que uma planta esconde na escuridão do húmus, o verme informe que segrega sais, a galeria das térmitas cimentada e múltipla.
O que antes era equilíbrio de silêncios, a folha morta sobre a folha podre,  afolha podre sobre o chão castanho, o chão castanho sobre a terra crua, (a folha morta a decompor-se em podre, a podridão a misturar-se aos sais, a solução – a seiva – progredindo aos ramos e os ramos a explodirem tenras ramas) jaz desventrado agora, exposto ao sol e ao vento, ao fumo, aos pés e aos olhos.
De chuva se carece, para refazer a vida e dominar o tempo e o movimento. Virá de madrugada, na noite escura de uma lua avulsa, sem ventos que a precedam ou mais sinais que a digam certa e exata.
A primeira manhã de uma primeira chuva: as encostas de pronto povoadas por femininos corpos; o som e a imagem limpos, tudo tão perto, o canto e o gesto; o fumo e a neblina, anterior e esparsa, que confundia as serras e as distâncias, agora floculada em brancas nuvens, baixas e rentes, a emergir dos vales, por detrás dos morros.
O mundo é claro. Dir-se-á varrido. Varrido da poalha que encurtava a vista e abafava o som. Por isso o campo agora é desenhado e nítido, e onde havia só a dimensão e a cor de uma esbatida massa de cinzentos, surge o recorte, firme, dos vegetais distintos – o plano sobre o plano, a folha sobre a folha – e a construção real das pedras altas – a pedra sobre a pedra, a fenda entre uma e outra, o seu volume.
De súbito se impõe a geografia exacta deste mundo, rigorosa e clara, e dói sabê-la assim tão rica de caminhos, de um momento para o outro aberta ao movimento e aos sinais: a escura habitação, o seu contorno; a goiabeira e as muitas outras plantas que dão fruto; e os animais, varando o espaço aberto, cientes da fartura que os aguarda.
Com a chuva se inaugura o tempo do concreto. O que era mato, ontem, hoje é matos.  E cada um se apresta para dar-se à vida. Debruçam-se as mulheres nas lavras de sustento; os homens gratificam cafezais."

Ruy Duarte de Carvalho. (1999). Vou lá visitar pastores. Lisboa: Cotovia.