Armanda Azevedo, “Dia 6 – Repetir”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem: © – Rafael, A escola de Atenas, renascimento italiano.
sábado, 28 de abril de 2018
Estante de Leitura – Criação (VI)
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Estante de leitura – Criação (V)
Ela deixa-me a casa nas mãos. Consigo saber que ela está em casa, quando passo os dedos pelas folhas finas de papel sulcadas pelo aparo da caneta. Por ter a sua casa nas mãos, não sei dizer quando ela deixa de estar aqui, deste lado de fora. Permanece dentro das paredes de papel, mas deixa de aparecer dentro das paredes de pedra. Deixa de aparecer dentro das paredes de éter. Deixa de aparecer dentro das paredes de pele. Não consigo ver quando sai. Eu apenas estou lá, dentro das paredes de pele, dentro das paredes de pedra, dentro das paredes de éter, a espreitá-la por dentro das paredes de papel, por dentro das minhas mãos.
Ela é sempre o lado bonito de todas as coisas. O lado que brilha.
O lado sem fumos, límpido. Mesmo quando não sorri. Ela tem livros abertos na sua cabeça. Livros como sóis dentro da cabeça. Sabe sobre tantas coisas. Conta-me segredos. Ela sabe todas as coisas sobre mim também. Adivinha-me.
A mim falta-me tamanho para a poder conhecer e adivinhar. A mim sobra-me realidade para não ter medo. E o medo é névoa. Não existem auroras na minha cabeça. Auroras fortes. Deviam nascer sóis na minha cabeça. Deviam nascer sóis na minha cabeça com raios fortes.
Deviam nascer sóis na minha cabeça com raios fortes que limpassem a névoa. E assim, sem névoas, eu teria conseguido ser só ela. Assim, sem névoas, teríamos sido só uno dentro e fora das paredes de papel.
Mas fico-me apenas pela veneração. Sem chegar a um entendimento pleno da sua realidade, sem perceber a magnitude do que acontece. Não a vejo sair. Não a vejo chegar. Não a vejo ficar em mim. Pertenço-lhe sem me pertencer.
Sou ela num eu multiplicado."
Armanda Azevedo, “Dia 5 – Multiplicar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017;
Imagem – ©: m-ban
terça-feira, 3 de abril de 2018
Estante de leitura – Silêncio (II)
"PRÓ – MEMÓRIA. Uma criança folheia um álbum de fotografias tiradas longe. Uma a uma, fixando-as com a atenção da primeira vez, reconhece o mundo da sua vivência escassa, da sua curta vida. Reconhece o mundo, ainda antes que ele se povoe de inúmeras coisas, porque o ser tem horror ao vazio que é o império da alam nua, tábua primordial onde se imprimem todas as sensações. Esta terra póstuma que as fotografias representam é, para a criança, uma terra de antes, uma paisagem em construção, um mundo que tem, aos seus olhos, a força brutal de uma revelação. Vamos, como crianças, por este sonho trazido de longe, acreditando que esta é a radiografia da nossa exaustão, o retrato em negativo da abundância. Escassez.
Silêncio: João Francisco Vilhena e Pedro Oliveira. Lisboa: Penguin Random House, 2017.
Imagem: © – INCF (Parque nacional Peneda-Gerês)
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Estante de leitura – Criação (IV)
"Interminavelmente. Viciosamente em círculos. Continuadamente.
Em novo, no mesmo, no real e no imaginário. Continuo.
Mesmo que sangre. Mesmo que a tinta derrame na queda. Há muito para querer ainda. A mão tem que continuar a escrever.
Tenho que ser mais do que aquilo que vejo. Mais do que aquilo que me acontece. Mais do que aquilo que não alcanço.
Tenho que ser mais longe.
A mão continua a escrever.
Escrever é continuar-me. É deixar-me sobre a folha de papel. Fluir-me em tinta. Esculpir-me em palavra-pedra. Escrever é conversar com o futuro. Eternizar-me. Ludibriar o fim. Deixar-me para sempre.
Finjo a realidade letra a letra. Transverso em palavras as reminiscências do olhar. Torno-as belas na minha conceção de belo.
Mascaro-as de mim. Uno-me a elas e continuamo-nos.
O mundo que vejo é literalmente literário. Um minuto numa estrofe. Num poema, um dia inteiro. Atos são apenas palavras de atos dramáticos.
O transcrito não é o reflexo fiel da verdade das coisas, mas a descrição íntegra do sentimento real e verdadeiro que tive ao vivê-las. Assim, existo o bastante naquilo que escolho escrever. Do que me escolho perpetuar. E quando me recordo ou me releio, repito-me. Revivo unicamente o lado interno e inteiro, puro do que (me) aconteceu. Regresso, sempre que quero, ao sentir que me encheu o peito de palavras.
Supero-me e continuo. Caminho a caminho em cada palavra. O meu caminho. No meu poemário. Nos meus espelhos.
Palavra a palavra na minha verdade, cada vez mais alto. Balão de ar quente a romper telhados, a tocar a estratosfera. A exceder-me, a ultrapassar-me. A deixar-me só. A encontrar o silêncio nas páginas cheias de palavras. A estar na posse da eleição de viver apenas o que quero viver.
Mesmo que as palavras, às vezes, não me saibam escrever.
Sinto falta de tinta de sangue.
Armanda Azevedo, “Dia 4 – Continuar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban
Estante de leitura – Criação (IV)
Em novo, no mesmo, no real e no imaginário. Continuo.
Armanda Azevedo, “Dia 4 – Continuar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban
sábado, 31 de março de 2018
Estante de leitura – Criação (IV)
Tenho que ser mais longe.
A mão continua a escrever.
Escrever é continuar-me. É deixar-me sobre o papel. Fluir-me em tinta. Esculpir-me em palavra-pedra. Escrever é conversar com o futuro. Eternizar-me. Ludibriar o fim. Deixar-me para sempre.
Finjo a realidade letra a letra. Transverto em palavras as reminiscências do olhar. Torno-as belas na minha conceção de belo. Mascaro-as de mim. Uno-me a elas e continuamo-nos.
O mundo que vejo é literalmente literário. Um minuto numa estrofe. Num poema, num dia inteiro. Aptos são apenas palavras de atos dramáticos.
O transcrito não é o reflexo fiel da verdade das coisas, mas a descrição íntegra do sentimento real e verdadeiro que tive ao vivê-las. Assim, existo o bastante naquilo que escolho escrever. Do que me escolho perpetuar. E quando me recordo ou me releio, repito-me. Revivo unicamente o lado interno e inteiro, puro do que (me) aconteceu. Regresso, sempre que quero, ao sentir que me encheu o peito de palavras.
Supero-me e continuo. Caminho a caminho em cada palavra. O meu caminho. No meu poemário. Nos meus espelhos.
Palavra a palavra na ninha verdade, cada vez mais alto. Balão de ar quente a romper telhados, a tocar a estratosfera. A exceder-me, a ultrapassar-me. A deixar-me só. A encontrar o silêncio nas páginas cheias de palavras. A estar na posse da eleição de viver apenas o que quero viver.
Mesmo que as palavras, às vezes, não me saibam escrever.
Sinto falta de tinta de sangue."
Armanda Azevedo, “Dia 4 – Continuar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban
sexta-feira, 30 de março de 2018
Estante de leitura – Criação (III)
"Não chega! Há espaço insuficiente para estar aqui. Sufoco. Escasseia o ar respirável. Não acontecem coisas bastantes para me viver. Há gente em excesso. Há ausência de vida nas gentes em excesso. Quero ter mais! Não quero o igual. Chegar além do tangível. Experimentar para lá do sensível.
Invento.
Invento uma forma de escrever. Invento uma forma de escrever nova e cheia de hábeis hábitos. Invento uma forma de escrever com palavras sábias, robustas, audíveis. Invento palavras. Invento palavras para escreverem sentidos perpétuos. Invento nomes imortais.
Invento sangue, invento lágrimas. Invento palavras para escrever guerras e invento heróis para as guerras inventadas. Invento os heróis que ganham as guerras inventadas e invento os heróis que perdem as guerras inventadas.
Invento uma forma de escrever aventuras. Invento as aventuras escritas na minha cabeça. Escrevo as histórias que a mente inventa e escrevo-as com as palavras que só existem na minha cabeça. Escrevo e invento realidades minhas, só minhas.
Invento uma forma de escrever que não doa. Invento palavras que não firam. Invento a cor das palavras. Invento o som de uma máquina de escrever. Invento o som das teclas. Invento o som das palavras e a nova cor dos novos gestos que as novas palavras dizem. Invento um traço. Invento a cor das tintas. Invento papel branco. Invento o cheiro dos livros novos que cheiram às novas histórias por contar. Reinvento o cheiro dos livros velhos que contam mais do que as histórias que lhes destinaram contar.
Invento tempestades. Invento auroras.
Invento espaço e invento tempo.
Escrevo-me."
Armanda Azevedo, “Dia 3 – Inventar”, in Criação. Lisboa: Fnac, 2017; Imagem – ©: m-ban






